Quarta-feira, 22 de abril de 2026
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Sebastián Piñera é o primeiro presidente de direita que chegará ao Palácio de La Moneda de maneira democrática desde 1958. Para o economista chileno Roberto Pizarro, porém, isto não será um problema para a governabilidade. Primeiro, porque a direita concorda totalmente com o sistema político e econômico em vigor nos últimos 20 anos. Além disso, ele considera que Piñera não terá grandes dificuldades para atrair algumas figuras da Concertação. No entanto, não se deve esperar nenhuma mudança radical com este governo. Pizarro é bastante pessimista em relação à renovação pelos “jovens” da Concertação. Para ele, esta geração ainda não faz uma crítica profunda dos últimos 20 anos, e continua sem entender as exigências da maioria dos cidadãos.

A direita tem condições para governar após 20 anos fora do governo?

Claro que sim! São eles que inventaram o modelo econômico e político. É por isso que insistem tanto na eficiência. O argumento da direita é que eles são caras novas e são mais eficientes. É isso que eles chamam de “mudança”. A direita enfrentará dificuldades se decidir propor políticas ainda mais neoliberais. Por exemplo, se eles insistirem na “flexibilidade trabalhista”, ou em privatizar parte da mineradora de cobre Codelco, única empresa de propriedade pública. Também imagino que o governo terá dificuldades diante das mobilizações de estudantes, professores e funcionários do setor público. Eles já foram muito duros com os governos da Concertação e é muito provável que suas lutas se multipliquem com um governo de direita.

O maior partido no parlamento é a ultradireitista UDI (União Democrática Independente), que rejeita uma parte do discurso liberal de Sebastián Piñera. O presidente eleito tem capacidade de governar sem os partidos que o apoiaram até agora?

É uma situação muito improvável, já que é muito difícil governar sem partidos. Apesar de todos os problemas citados, o Chile continua sendo, dentro da América Latina, o país onde os partidos políticos têm mais força e influência. Piñera depende dos partidos políticos da direita que o apóiam e fará tudo possível para que permaneçam dentro de sua coalizão. De fato, o único partido com o qual Piñera sempre teve problemas é a UDI, que não confia nele. Eles o consideram extremadamente personalista e individualista. Estas tensões, porém, não foram perceptíveis durante as eleições e o período pós-eleitoral. Eu acho que o governo de Piñera levará até as últimas consequências as modernizações lançadas pelos governos da Concertação. Estradas, transporte nas grandes cidades, acordos econômicos internacionais serão dominantes. Provavelmente, como terá recursos importantes graças ao preço do cobre, Piñera vai cumprir a proposta de mais emprego baseado em subsídios para a contratação de mão-de-obra. Mas não dá para imaginar nenhuma mudança radical.


Piñera já declarou que quer fazer um governo de união nacional. Ele pode conseguir incorporar figuras da Concertação?

A capacidade de Piñera para atrair homens importantes da Concertação vem do fato de que ele controla o poder total no Chile. Além do governo, ele vai ter os grupos econômicos e a imprensa, que o apóiam sem a menor dissidência. Provavelmente, com pequenos acordos, Piñera conseguirá maioria no parlamento. Ele já convenceu o socialista Juan Gabriel Valdés, ex-ministro das Relações Exteriores e atual representante da presidente do Chile no Haiti, a continuar no cargo. Acho que, daqui a pouco, vamos ver outras adesões ao governo de Piñera. A falta de clareza política, a perdida de convicções, os laços entre a política e os negócios, a força considerável de Piñera, junto com o enfraquecimento da Concertação, são fatores que favorecem a acumulação de forças a favor da direita.

É válida a crítica da Concertação a Piñera sobre seus vínculos entre política e negócios?

Sim, totalmente, porque Piñera administra quase 2 bilhões de dólares, o que faz dele um dos homens mais ricos do Chile. O presidente eleito não vendeu suas ações, e tampouco as depositou em um “fundo cego” após a decisão de ser candidato presidencial. Quando ganhou as eleições, suas ações subiram 20% em três dias. Segundo os cálculos mais modestos, só com esta alta, Piñera ganhou 12 milhões de dólares, recursos que permitiram cobrir amplamente os custos da campanha eleitoral.


Qual é a estratégia de reconstrução da Concertação na oposição?

A reconstrução da Concertação não será fácil. Alguns membros da coalizão já estão insinuando seu entusiasmo com eventuais compromissos com a direita e o governo de Piñera. Deputados do Partido Radical tentaram fazer um pacto com a direita no Parlamento, o que daria a Piñera a maioria. Retrocederam após varias pressões. Mas é provável que surjam iniciativas parecidas nos próximos meses. O poder econômico, político e da imprensa, concentrado nas mãos da direita e de Piñera, constitui uma força tão poderosa que, para enfrentá-la, precisa-se de convicções que os dirigentes da Concertação têm perdido. Em consequência, é muito provável que nos próximos meses comecem a funcionar canais entre grupos da Concertação e Piñera para fazer acordos.


O senhor imagina uma importante renovação dos chefes da coalizão?

Os “jovens” da Concertação – na verdade, refiro-me a pessoas de mais de 40 anos – que querem assumir a direção dos partidos, cometeram um erro grave, que marcará seu futuro político, e que não os fortalece: aceitar a proteção de Ricardo Lagos. Eu insisto: renovar a política não é somente um tema de surgimento de novas caras. Depende, sobretudo, de mudanças nas instituições. E Lagos foi sempre muito explícito na defesa do “funcionamento das instituições” em vigor – ou seja, as que foram instaladas por Pinochet. E ele foi ainda mais explícito no seu apoio à economia neoliberal. Aliás, os grandes empresários choraram quando ele saiu da presidência. A Concertação vai sofrer as batalhas mais variadas: entre gerações, de interesse pessoal, assim como debates mais profundos sobre o que foi feito nos últimos 20 anos. Acho que não vai sobreviver à derrota.

Por que os chilenos prestigiam tanto o tema do bom funcionamento das instituições?

É verdade que nós chilenos temos esta mania com o bom funcionamento das instituições. Acho que é uma característica cultural que nos diferencia do resto dos países da região. No Chile, dá para conseguir uma carteira de identidade ou um passaporte em dois dias. A gente paga os impostos por internet. É uma realidade cultural que vem desde sempre e que não tem nada a ver com o regime de Pinochet nem com a Concertação. É provável que o bom funcionamento de nossas instituições seja a explicação do sucesso do neoliberalismo. O Chile é praticamente o único país da America Latina onde isso deu certo.

O problema é que, em nome do bom funcionamento, a Concertação não quis mudar o quadro institucional herdado de Pinochet, enquanto sua responsabilidade e seu compromisso com os chilenos era fazer isso. Existiam as condições políticas, sociais, nacionais e internacionais para mobilizar o país em favor de uma constituição democrática. No entanto, faltou vontade política por um lado e, por outro, uma parte dos líderes da Concertação fez acordos com os grandes grupos econômicos, começaram a entrar nos diretórios de empresas, ou trabalharam como lobistas. Desse jeito, foi instalado um sistema de links entre a política e os negócios.

O que senhor acha de novos nomes, como Carolina Toha, Lagos Weber, Fluvio Rossi e Marcelo Diaz, que pretendem ser os líderes dos partidos da Concertação?

É estranho o que está acontecendo na Concertação. Os velhos dirigentes se aferram aos chamados “governos bem-sucedidos” e às “mudanças gigantescas” de que Lagos falou no dia 17 de janeiro. A geração dos 40 anos recuperou o discurso crítico do candidato dissidente Marco Enríquez-Ominami, preocupado com a falta de renovação geracional e o que chamam “erros de procedimento”. No entanto, eles não assumem a crítica mais profunda, de esquerda, de mudança das instituições de Pinochet – crítica que Jorge Arrate fez no primeiro turno e que transmite o pensamento da população: é preciso mudar o Chile inteiro.

Eu não acho que essas novas caras representem uma renovação genuína. Primeiro, porque os nomes que você mencionou, por exemplo, já fazem parte do establishment concertacionista. Lagos Weber, filho do presidente Lagos, não emitiu nenhuma critica sobre os caminhos escolhidos pela Concertação. Também é o caso da ex-porta-voz do governo Bachelet, Carolina Toha, e de seu marido Fluvio Rossi. Marcelo Díaz construiu toda a vida política sob a tutela de Enrique Correa, ex-ministro do presidente Patrício Aylwin, o maior lobista a favor dos grupos econômicos e assessor de todos os governos da Concertação.

Quem manda hoje na Concertação?

Ninguém manda. As direções atuais não têm poder real. No PPD, existe uma direção temporária que será substituída em abril, e ainda não se sabe por quem. No Partido Socialista, a direção (também transitória e liderada por Rossi) representa todas as facções, que convocaram um congresso para abril. A disputa será entre os protegidos de Lagos, como Marcelo Díaz, e a corrente do ex-presidente do partido Camilo Escalona, representada pro Osvaldo Andrade. No Partido Democrata-Cristão, o presidente é ainda Juan Carlos Latorre, mas ele é muito questionado pelos chamados “príncipes”. São jovens bem formados, alguns prefeitos bem-sucedidos, todos neoliberais, que promovem Patricio Walker, que acaba de ser eleito senador, como presidente do partido. O Partido Radical, o menor da Concertação, já revelou a fraqueza com a tentativa de aliança de alguns de seus deputados com a direita. Para resumir, a Concertação está em crise, com dirigentes que não têm capacidade para governar seus partidos. Este é outro fator que favorece Piñera.

O candidato dissidente Marco Enríquez-Ominami conseguiu atrair 20% dos eleitores durante o primeiro turno. Qual será o peso dele na oposição?

Enríquez-Ominami também vai ter dificuldades. Primeiro, ele não tem nenhum deputado, o que complica sua intervenção na discussão política. Segundo, sua crítica política contra a Concertação sempre se concentrou na inexistência de caras novas. Agora que é muito provável que apareçam várias, os argumentos perdem relevância. Nesse contexto, Enríquez-Ominami tem duas possibilidades: ou se aliar com a geração dos 40 anos ou formar uma frente à esquerda, junto com outros partidos, exigindo transformações mais radicais no regime neoliberal e no sistema político excludente. O pai adotivo dele, Carlos Ominami, está numa situação semelhante. Ele nunca foi muito radical sobre as mudanças econômicas e políticas necessárias no Chile. Aliás, ele teria ficado dentro do Partido Socialista se não fosse para apoiar candidatura do filho. Agora, vai tentar formar um partido político e, depois, tentará atrair pessoas da Concertação ou fazer acordos com elas.

O bom resultado eleitoral de Jorge Arrate e a eleição de três deputados comunistas pela primeira vez em 36 anos são condições para formar um movimento genuinamente de esquerda?

“Hay que desensillar hasta que aclare”, dizia o general Perón. É um slogan apropriado quando o céu está nublado. De fato, o resultado eleitoral de Arrate foi bom em relação à votação tradicional da esquerda, mas é muito insuficiente para avançar rápido e a curto prazo para formar uma esquerda genuína no Chile. Também ajuda a presença dos três deputados comunistas.

Não há dúvida de que é imprescindível construir uma esquerda no país. A Concertação não foi um bloco de esquerda, mas se converteu num grupo que vai do centro até a direita. Os erros da Concertação constituem hoje a base ética que obriga a construir um novo partido de esquerda. Um partido capaz de transformar econômica e politicamente o país, capaz de ganhar hegemonia para mudanças necessárias. Um partido de esquerda que acabe com o conservadorismo econômico, político e cultural. Teremos que nos empenhar nessa tarefa. Temos a obrigação moral e política de fazê-lo. Mas isso significa sermos muitos abertos à crítica ao que foi realizado pela Concertação, e conhecermos em profundidade a nova realidade social. Também implica ser muito respeitoso com os distintos setores políticos que buscam representar o descontentamento e os protestos. A Frente Ampla da esquerda não está logo ali na esquina, mas constitui uma realidade potencial.

Leia a primeira parte:

Eleitor chileno viu pouca diferença entre Piñera e Concertação

Concertação deverá renovar projeto político para não morrer

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