Quarta-feira, 13 de maio de 2026
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Para compreender o que acontece neste momento com as finanças daquele que foi um dos mais prósperos membros da União Europeia nos anos 2000, é preciso fazer um rápido apanhado histórico e conhecer melhor a sociedade irlandesa.

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A Irlanda só conquistou a autonomia menos de um século atrás, em 1922, após a guerra da independência que separou o país do Reino Unido e o transformou em um “Estado livre”, com governo próprio mas sob a coroa britânica. A transformação em República só aconteceu em 1948. Trata-se, portanto, de um país muito jovem do ponto de vista político, apesar de já existir como sociedade organizada há milhares de anos. A independência deixou a ilha irlandesa dividida. Seis condados foram mantidos como membros do Reino Unido, formando a Irlanda do Norte, uma nação diferente da República da Irlanda. 

Arquivo pessoal



Colin Heeley – ao lado da esposa – era criança quando a Irlanda acumulava problemas: “Éramos a África da Europa”

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Enquanto aprendia a caminhar com as próprias pernas, a Irlanda caiu muitas vezes e enfrentou um longo período de dificuldades econômicas. Os anos seguintes à independência fizeram do país um dos mais pobres da Europa Ocidental, provocando emigração em massa. Muitos irlandeses foram morar nos Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia. 

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“Era tudo preto e branco por aqui. Não tinha vida, não tinha cor. Não havia dinheiro para fazer nada. Parecia que estávamos na Idade da pedra, tamanha era a pobreza e a falta de perspectiva”, conta o investidor imobiliário Andrew Meade, de 42 anos, que morou na Austrália e voltou para a Irlanda quando o país começou a se reerguer.

Curiosamente, a época do rápido desenvolvimento é que poderia ser chamada de “idade da pedra”. A construção civil foi um dos grandes responsáveis pelo crescimento econômico da Irlanda, e a rocha – um dos poucos recursos naturais abundantes na ilha – foi amplamente usada para construir casas e prédios. O sistema rodoviário do país também se beneficiou bastante desse período.

“Eles construíam estradas até onde não precisava. Alguém apresentava o projeto de uma rodovia secundária que ligaria o nada a lugar nenhum e o governo aprovava sem demora. De repente havia tanto dinheiro, que todos só queriam gastar o máximo possível”, relata Colin Heeley, de 25 anos.

Tigre celta

Na adolescência, Colin viveu os anos do chamado “Tigre Celta” – termo que surgiu no meio da década de 1990 como referência à frenética retomada da economia da Irlanda, indicando uma similaridade ao ocorrido com os chamados Tigres Asiáticos (Coréia do Sul, Cingapura, Hong Kong e Taiwan) alguns anos antes. O Tigre Celta, também conhecido como “O Boom” ou “milagre econômico irlandês”, foi o período em que a Irlanda deixou de ser um dos mais pobres países europeus para se tornar um dos mais ricos.

Entre as principais razões aceitas para tal ‘milagre’, estavam a política de redução de impostos e o aumento de incentivos para atrair capital estrangeiro, além de décadas de investimento constante em educação de qualidade. Um país com baixa tributação, força de trabalho altamente qualificada, tendo inglês como língua oficial e sendo membro da União Europeia, acabou se tornando uma excelente opção para grandes empresas multinacionais investirem seu dinheiro.

“Nós não tínhamos nada. Éramos a África da Europa. Ninguém queria saber da gente. Vou te dar um exemplo de como a situação era ruim. Na Irlanda predominantemente católica, as pessoas costumavam sair para celebrar em restaurantes a primeira comunhão das crianças. Quando eu terminei o catecismo, meus pais não tinham condições de bancar o jantar da família. Para não deixar passar a data, eles fizeram um sacrifício, mas só foi possível pagar o jantar da minha mãe, do meu pai e o meu. Meus irmãos ficaram em casa”, lembra Colin. “Não havia emprego. Grande parte das pessoas da minha idade tem pelo menos um mestrado ou doutorado. E muitos de nós simplesmente fomos morar fora, porque não tinha o que fazer aqui. De repente as coisas começaram a mudar e aos poucos nós voltamos para casa”, diz Andrew. 

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Ascensão rápida

Os irlandeses voltaram na mesma época em que os grandes investidores internacionais chegaram. O dinheiro começou a girar em abundância no país e passou a haver emprego para todos. Os salários dispararam e rapidamente passaram a figurar entre os mais altos da União Europeia. O índice de desenvolvimento humano na Irlanda passou a ser um dos maiores do mundo, juntamente com o Produto Interno Bruto per capita do país. O mercado imobiliário ferveu e os preços das propriedades galopavam para as alturas. Investir em imóveis virou uma febre.

“Um imóvel que no começo dos anos 1990 valia o equivalente a 70 mil euros (na época, a moeda local era a libra), passou a valer mais de 300 mil euros no fim da mesma década. Era o melhor negócio do mundo. Ninguém queria ficar de fora”, explica Andrew.

Surto imobiliário

Atentos à demanda do mercado, os bancos abriram os cofres e passaram a liberar empréstimos de até 100% do valor dos imóveis, praticamente sem garantias por parte do cliente. Um adolescente de 18 anos, sem nenhuma economia, poderia financiar uma casa para pagar em 30 anos. E foi o que muitos fizeram. O dinheiro escorreu abundantemente pelo país. Colin diz que teve uma infância muito difícil e viu tudo mudar num piscar de olhos.

“Nossa família era de um nível médio, nós nunca chegamos a passar fome. Ainda assim, tínhamos todo dia a mesma coisa para jantar em casa. Não havia dinheiro suficiente para comprar ingredientes diferentes e fazer pratos mais sofisticados. Mas de repente estávamos comprando uma casa. E meus pais foram dos poucos conscientes que pararam em apenas um imóvel. Muitas famílias tomavam empréstimos para comprar duas, três casas. As garagens se enchiam de carros novos. Meu tio chegou ao absurdo de comprar um barco. Ele não era pescador e não precisava daquilo para nada, mas como tinha dinheiro sobrando, decidiu investir em algo ‘bacana’”, conta.

Mas Andrew explica que os bolsos irlandeses não estavam assim tão cheios. “Na verdade as pessoas nem tinham tanto dinheiro sobrando. Elas tinham sim excelentes salários e uma facilidade absurda ao crédito, o que proporcionava a falsa impressão de que eram ricas. Mas o fato é que a maioria viveu da ilusão de que os empregos durariam para sempre e que os empréstimos seriam pagos sem dificuldades”.

Deslumbre

Os sinais da fragilidade no sistema já apareciam, mas, deslumbrados com o próprio sucesso, os irlandeses se recusavam a enxergar com bons olhos qualquer crítica à sua nova realidade, onde finalmente tinham forte poder de compra. Além da febre consumista, os anos do Boom trouxeram outra significante mudança comportamental: com tanta oferta de emprego, o irlandês passou a escolher com mais critério suas profissões e houve uma grande demanda por mão de obra estrangeira para a prestação de serviços, principalmente em bares, restaurantes, lanchonetes, frigoríficos e na construção civil. A imigração explodiu, trazendo muitos poloneses, lituanos, chineses, romenos, africanos e brasileiros. Existia trabalho e bons salários para todos. Andrew argumenta que havia um motivo para tanta demanda.

“Antes do Tigre Celta, a única diversão do nosso povo era frequentar pubs sujos e cheios de fumaça. Quando o dinheiro chegou, nós ganhamos um novo mundo de possibilidades. Todos queriam jantar fora, frequentar cafés e bares mais bonitos. Você pode imaginar o quanto acabou sendo investido no setor”, diz.

Enquanto isso, a bolha do mercado imobiliário continuava a inflar sem limites. Investir em propriedade continuava a ser a galinha dos ovos de ouro dos irlandeses. O aumento no número de estrangeiros no país fez da locação de imóveis algo ainda mais rentável. O preço do aluguel também subia sem parar. E quase tudo continuava sendo financiado pelas instituições financeiras. Só que nem os bancos se preocuparam com a liquidez necessária para bancar os empréstimos, nem os clientes pensaram em como pagariam de volta. “As pessoas achavam que os preços dos imóveis jamais parariam de subir e que não havia jeito de perder dinheiro naquele negócio”, lamenta Andrew.

Alguns investidores, prevendo que a bolha pudesse explodir, venderam as propriedades no momento certo, a valores muito mais altos do que os pagos por eles, e com isso fizeram fortuna. Mas a grande maioria dos compradores não era formada pelos homens de negócios. Era o cidadão comum, o trabalhador assalariado que queria ter a casa própria e acabou indo um pouco além. A valorização dos imóveis era muito atrativa por caminhar a passos tão largos, mas, como se vê agora, os passos acabaram sendo mais largos até do que as próprias pernas do país.

Saída pela porta

Andrew vê mais de um culpado para o colapso do sistema: “Os bancos foram irresponsáveis por emprestar sem medida, mas as pessoas são culpadas na mesma proporção, porque tomaram empréstimos sucessivos e nunca se preocuparam em poupar ou ao menos em gastar conscientemente”. O investidor é um dos que perderam muito dinheiro com a crise. Atualmente ele vive do aluguel de alguns imóveis que possui, mas não tem uma vida tranquila financeiramente. Os empréstimos que tomou do banco só devem acabar de ser pagos daqui a 20 anos. O dinheiro que recebe mensalmente dos inquilinos mal dá para pagar as prestações. Para economizar, Andrew cuida pessoalmente de pequenas questões domésticas, como trocar chuveiro, pintar paredes ou desentupir ralos nos apartamentos que aluga. “Não tenho condições de contratar um profissional para fazer essas coisas. O curioso é que quase todos os meus inquilinos são estrangeiros que vieram para cá prestar serviço. E hoje sou eu quem presta serviço para eles”.

Os altos salários e o preço absurdo do aluguel acabaram fazendo com que muitas empresas deixassem o país. A crise acabou invertendo os caminhos de quem passa pelas fronteiras da Irlanda. Com a oferta de emprego cada vez mais escassa, muitos irlandeses voltaram a procurar trabalho no setor de serviço. Os estrangeiros, cada vez com menos espaço, começaram a deixar o país. Alguns conseguiram acumular grandes quantias em dinheiro nos anos do Tigre Celta e agora pretendem comprar imóveis e montar pequenos negócios no lugar onde nasceram. Outros chegaram aqui tarde demais e vão tentar a sorte em outro lugar. Muitos irlandeses também já cosideram a possibilidade de emigrar.

É o caso de Colin, que começou a namorar uma brasileira em Dublin e agora decidiu morar com ela em outro país. Formado em design gráfico e sem conseguir trabalho na área há mais de dois anos, o jovem irlandês começou a estudar a língua portuguesa e fez um curso para ser professor de idiomas. Ele e a namorada Rosangela embarcam para o Brasil no fim deste mês, onde pretendem começar uma nova vida. “Eu amo a Irlanda, é aqui que eu quero morar. Mas agora não dá. Não tem emprego para mim e eu não tenho o que fazer aqui. Espero que essa crise passe logo e que a gente possa voltar”, desabafa.

A Irlanda continua sendo um bom lugar para empresas multinacionais, pelos mesmos motivos do passado: língua inglesa, mão de obra qualificada, localização, baixos impostos. A queda dos preços no mercado imobiliário, gerada pela crise, pode até ser considerada um novo atrativo para os investidores internacionais. O maior problema dos irlandeses agora é algo que eles têm de resolver dentro de casa: tanto os que pagaram seus empréstimos em dia quanto os que não chegaram a tomar nada emprestado dos bancos, agora são obrigados a pagar pelos inadimplentes que financiaram valores exorbitantes e não conseguem pagar as prestações. O Governo garantiu as dívidas dos bancos, que emprestaram dinheiro sem garantias, e agora tudo sairá do bolso do contribuinte. Resta saber se os cidadãos sobretaxados vão lidar com isso como tigres ou como gatinhos obedientes.

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Como, quando e por que a Irlanda se tornou uma potência econômica

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