Quinta-feira, 30 de abril de 2026
APOIE
Menu

Em um segundo turno caracterizado por ataques guerrilheiros, que causaram a morte de 9 policiais, além de um atentado de grupos armados, Juan Manuel Santos foi eleito o novo presidente da Colômbia. Santos recebe um país mais seguro do que aquele que governou Álvaro Uribe, mas com um alto índice de desemprego e de pobreza, segundo pesquisas e analistas entrevistados pelo Opera Mundi.

Segundo a última pesquisa do instituto privado Gallup, 42% acreditam que o principal problema que o governo deverá enfrentar são de caráter social: desemprego e pobreza, antes de tudo. Segundo um documento divulgado pela Missão de Emprego, Desigualdade e Pobreza na Colômbia, 45,5% dos colombianos vivem na pobreza e 16,4% na pobreza extrema.

 

O Dane (Departamento Administrativo Nacional de Estatística), vinculado ao governo, confirma este resultado: em abril, a taxa de desemprego chegou a 12,2%, o que significa que quase  2,7 milhões de pessoas estão sem trabalho, sem contar os milhões de trabalhadores informais.

 

Durante a campanha, Santos se comprometeu a criar mais de 2,5 milhões de empregos e formalizar outro milhão. Seu discurso de luta contra a pobreza, segundo o próprio, baseia-se em continuar com a política de subsídios, como por exemplo, o programa Famílias em ação. Criado durante o governo do presidente Andrés Pastrana (1998-2002), é o maior programa social da Colômbia, atendendo 2,5 milhões de famílias que recebem de 30 mil a 100 mil pesos colombianos (o equivalente a 27 e 92 reais) . Em sua avaliação, esta é a única maneira de reduzir a pobreza.


Outros temas

 

Além dos problemas sociais, a relação da Colômbia com os países vizinhos também deve ser um aspecto importante na gestão Santos, já que foi durante o governo Uribe que as relações diplomáticas com o Equador foram rompidas. Para manifestar apoio a Quito, a Venezuela tirou o embaixador colombiano do país. Além disso, a postura do país foi criticada no ano passado, quando assinou um acordo permitindo bases militares norte-americanas em território colombiano.

Para o professor Carlos Alfonso Velásquez, da Universidade de Sabana, as relações internacionais serão um ponto chave para o novo presidente: “a principal mudança estará no estilo, pois o humor de Santos é diferente do de Uribe. Apesar de desentendimentos anteriores, não há ainda um horizonte delimitado: oito anos deixam muitas feridas abertas. E este é um ponto chave para  Santos”.

 

Já o analista Pedro Medellin acredita que o foco está nos direitos humanos e nos conflitos: “creio que seja muito importante a possibilidade de diálogo do vice de Santos, Angelino Garzon, que, por sua trajetória, indica a possibilidade de ter um bom relacionamento com organizações defensoras de direitos humanos. Além disso, poderia até chegar a negociar acordos de paz com grupos armados”.

A fragilização das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), justamente na época em que Santos comandava o Ministério da Defesa (2006-2009), tem sido divulgada como um dos méritos do candidato. Durante esta gestão, foi desarticulada parte da alta cúpula do grupo armado, com a morte dos líderes Raúl Reys, Iván Ríos e Tomás Molina Caracas. Ontem, antes de o resultado ser divulgado, um comandante das Farc afirmou que a guerrilha não irá dialogar com o futuro governo, segundo a agência Ansa.

Leia mais:

“Fenômeno Mockus” desaparece diante de candidato governista

Santos lidera pesquisas e Mockus expõe planos de governo para tentar alcançar concorrente 

Antanas Mockus diz ser mais próximo de Serra que de Dilma 

Mockus tem votação muito abaixo do esperado, mas irá ao segundo turno contra Santos

Santos, que tem maioria no Senado e no Congresso, recebeu com 69% dos votos, enquanto o rival Antanas Mockus, do Partido Verde, ficou com  27,5%. Em relação ao primeiro turno, os dois ganharam votos: Mockus obteve (3.588.819 votos), ou seja, quase 450 mil votos a mais. Santos, de 6,7 milhões, subiu para 9 milhões – o presidente mais votado da história do país.

 

Para Miguel Antonio Galves, diretor do Instituto de pensamento étnico, social e político, acredita que: “Juan Manuel Santos, mais que representar o ideário do projeto uribista, conseguiu uma unidade da “classe política”, ao contar com o apoio dos partidos Conservador, de la U, de Integração Nacional, Cambio Radical e do Partido Liberal. Mockus também sai ganhando, todos os votos que recebeu, ganha uma independência e representará o centro político [no novo governo]”.

Nem todos avaliam as alianças de Santos para se eleger com otimismo. Para a analista política Laura Gil, o apoio de partidos como Cambio Radical pode desagradar a ala mais radical do uribista Partido de la U.

 

“Se utilizar esse apoio para tentar independência política, poderemos passar de um governo de uma elite agrária, que tem vínculos com o paramilitarismo, a uma elite tecnocrata, neoliberal e urbana”. Para Laura, seu governo terá que “tapar, tapar e tapar” as brechas deixadas ao longo dos 8 anos de gestão Uribe.

Apesar do número recorde de votos, a pesquisadora Claudia Dangon, da Faculdade de Ciências Políticas da Universidade Javeriana acredita que “55% dos colombianos não elegeram Santos”.

“Não é um problema de legitimidade, mas deixa para trás a democracia colombiana. A oposição também poderá utilizar este tema por muito tempo”, afirmou.

Claudia se referiu ao alto índice de abstenção – que alcançou 55%. Na Colômbia, este número é tradicionalmente alto, mas neste ano, acredita-se que os jogos da Copa do Mundo contribuíram para que os colombianos não fossem votar.

Após oito anos de Álvaro Uribe no governo, Santos assume o cargo, no dia 7 de agosto deste ano de 2010.

Siga o Opera Mundi no Twitter

Combater a pobreza e o desemprego são os novos desafios do governo Santos

NULL

NULL

NULL