Com desemprego nas alturas, casa de penhores mexicana vive lotada e não para de crescer
Com desemprego nas alturas, casa de penhores mexicana vive lotada e não para de crescer
Veronica Garcia cantarola uma canção para acalmar seu bebê, enrolado em uma coberta de lã grossa. Há meia hora está de pé em uma das filas da sede nacional do Monte de Piedad, a casa de penhores mexicana. Em um dia comum, ela cuida dos três filhos em casa, enquanto o marido sai em busca de bicos para sustentar a família.
“Desde o começo da primavera (outono) ele não encontrou nada”, lamenta a jovem mãe. Com muito cuidado, tira da bolsa uma fina corrente de ouro, herdada da avó. “Com isso, acho que vai dar para pagar as contas atrasadas. Espero, pelo menos”, acrescenta, com um suspiro. Na fila, os vizinhos de espera acenam positivamente com a cabeça.
Somente no primeiro semestre de 2009, mais de 600 mil empregos formais foram extintos no México. A previsão do Banco Central é de que o PIB (Produto Interno Bruto) caia entre 6,5% e 7,5%. Pior que em 1995, durante a crise “tequila”. Segundo o Banco Mundial, mais da metade dos mexicanos caiu para um patamar abaixo da linha de pobreza.
Funcionamento
Verônica está prestes a alcançar o guichê do chamado “perito valuador”, uma profissão muito respeitada no México, dentro do Monte de Piedad. “Eles conseguem identificar em menos de 50 segundos o valor de todos os bens”, conta Alberto Alvarez Santana, funcionário da instituição e responsável pelas visitas turísticas. “Quando algum cliente tenta nos enganar, trazendo uma pedra de chumbo coberta de ouro, por exemplo, eles percebem na hora. Basta colocar na palma da mão”, diz, orgulhoso.
A velocidade é um elemento essencial do funcionamento do Monte de Piedad. Só na sede central – localizada em uma das esquinas do Zocalo, a praça principal da cidade do México – chegam todos os dias mais de 10 mil pessoas. Tudo pode ser penhorado: quadros, relógios, jóias, antiguidades, televisões, carros e até casas. Com 24 milhões de clientes por ano, é a maior casa de penhores do mundo e um dos principais organismos de crédito do planeta.
Plano de expansão
A instituição não é uma novidade. Foi fundada em fevereiro de 1775 por um empresário espanhol, Pedro Romero de Terreros, que planejava originalmente contornar a proibição de empréstimo imposta pela Igreja. Terreros resgatava a tradição do primeiro Monte di Pietá, que nasceu na Itália em 1462. No começo, não cobrava juros, funcionando apenas graças à generosidade de doadores. O Monte de Piedad atravessou mais de 225 anos sem grandes alterações, até o final do século 21, quando seus gerentes lançaram um verdadeiro plano de expansão.
Em 2000, o organismo dispunha de 38 pontos. Agora são 152, espalhados em todo o país. Em cada um, o sistema é o mesmo: o cliente obtém uma quantia de dinheiro em curto prazo a partir de um depósito caução. “O empréstimo não passa de 50% do valor do artigo penhorado”, explica Santana. A primeira semana de setembro, com o começo do ano escolar; a Semana Santa, período em que os mexicanos viajam e gastam toda a poupança, e os quinze primeiros dias do ano, após as festas, são as três épocas mais movimentadas.
O cliente dispõe de cinco meses para recuperar seu bem, quando ele reembolsa o dinheiro emprestado com os juros adicionados. Se não tiver condições, existe a opção de prorrogar o prazo por quatro meses, existindo somente a obrigação do pagamento dos juros. A operação pode ser repetida três vezes, dando ao cliente um tempo máximo de 17 meses. Se ele não conseguir compensar a dívida, a casa de penhores tenta vender o artigo para recuperar o investimento. Enormes lojas abertas ao público expõem os tesouros pessoais abandonados. “Nesse caso, devolvemos ao cliente o resto do dinheiro, tirando os juros e o valor do empréstimo”, especifica Santana.
Com mais de 30 milhões de produtos penhorados, a organização exige um sistema de catalogação bastante elaborado. Todos os itens dispõem de um código de barra que informa o nome do dono, o valor estimado, o empréstimo e a localização exata. Dessa forma, os clientes podem recomprar seus bens a qualquer momento.
Risco zero
O risco de não recuperar sua jóia não parece preocupar Verônica. “Venho aqui várias vezes por ano e sempre consegui reembolsar em tempo e evitei perder minhas coisas”, relata. Esse é o caso da grande maioria dos consumidores do serviço: apenas 3% deles não consegue pagar a dívida.
Para Verônica, é a única maneira de conseguir um empréstimo. Como 75% dos mexicanos, ela não possui conta bancária. Teria de depositar 4 mil pesos (cerca de 540 reais), somente para poder abri-la. Fato praticamente impossível em um país onde o salário mínimo não ultrapassa 48 pesos por dia (6,5 reais).
O Monte Piedad pretende abrir 50 novas redes daqui ao final do ano e chegar a mais de 19 bilhões de pesos emprestados, seguindo com um crescimento anual de 10%. Em 2008, o Monte de Piedad reuniu 2,3 bilhões de pesos (312 milhões de reais).
No pátio central do Palácio, entre duas colunas de pedras, uma estátua de Pedro Romero de Terreros parece olhar com carinho os milhares de mexicanos que o visitam todos os dias. O bronze da obra de arte perdeu sua luminosidade. Seus sapatos, porém, são perfeitamente lustrados: todos os clientes os tocam religiosamente antes de chegar à janelinha do “perito valuador”. Segundo a tradição, o gesto aumenta o valor do bem destinado a ser penhorado.
*Texto e fotos.
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