Carniceiro ou fiador da paz: as visões inconciliáveis sobre Milosevic
Carniceiro ou fiador da paz: as visões inconciliáveis sobre Milosevic
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Slobodan Milosevic (3º à esquerda) durante a assinatura do Acordo de Dayton, em 1995
Passaram-se dez anos desde os protestos em massa da oposição que levaram à deposição de Slobodan Milosevic, em 5 de outubro de 2000. Mas poucos fora dos Bálcãs e do Leste Europeu têm uma ideia mais precisa sobre quem foi o homem que presidiu – e, segundo muitas opiniões, foi um dos responsáveis – a dissolução da Iugoslávia.
Slobodan Milosevic foi presidente da Sérvia de 1990 a 1997 e da República Federativa da Iugoslávia (formada por Sérvia e Montenegro) de 1997 a 2000. Chegou ao centro dos acontecimentos políticos em 1987, quando, como funcionário de alto escalão do Partido Comunista da Iugoslávia, apoiou os sérvios no Kosovo e Metohija (então província com ampla autonomia dentro da Sérvia), oprimidos pela maioria albanesa. Em 1989, foi eleito para a presidência da Sérvia, na época uma das seis repúblicas que formavam a Iugoslávia. Nas primeiras eleições multipartidárias, em 1990, foi confirmado no cargo.
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No mesmo ano, no congresso de fundação do Partido Socialista da Sérvia, foi eleito o primeiro presidente da legenda, surgida da união entre a Liga dos Comunistas da Sérvia e a Aliança Socialista dos Trabalhadores da Sérvia. Chefiou o partido até sua morte. Até 2000, o SPS esteve no poder, sozinho ou em coalizão com outros partidos.
O membro mais leal da coalizão que apoiava Milosevic foi o partido Esquerda Iugoslava (JUL, na sigla em servo-croata), liderado por sua própria esposa, Mirjana “Mira” Markovic. Ela exercia grande influência sobre Milosevic e sua política. Os filhos, Marija e Marko, também aproveitaram sua posição e sua influência. Marko fez fortuna com o contrabando de cigarros (crime pelo qual é hoje processado na Justiça).
A Sérvia sob Milosevic
A década de seu governo foi marcada pela desintegração da federação (embora Sérvia e Montenegro continuassem existindo sob o nome de Iugoslávia, as outras quatro repúblicas se separaram), as guerras civis na Bósnia e na Croácia, o conflito do Kosovo e as sanções das Nações Unidas contra a Sérvia. Embora oficialmente a Sérvia não estivesse envolvida nas guerras da Bósnia e da Croácia, várias das atrocidades de guerra foram cometidas por sérvios cidadãos dessas repúblicas (embora também tenha havido outras perpetradas por croatas e muçulmanos bósnios). Milosevic foi apresentado na mídia internacional como a pessoa por trás dos combatentes de etnia sérvia, chegando a ser chamado de “carniceiro dos Bálcãs”.
Politika/reprodução

Mira Markovic e Marko Milosevic exilaram-se na Rússia após o fim do regime
Por outro lado, nos momentos em que era necessário negociar com os representantes sérvios da Bósnia, Milosevic era qualificado no mundo político como “o fiador da paz e da estabilidade na região”. Ele exerceu esse papel em 1995, ao assinar o acordo de Dayton (Ohio, EUA), que pôs fim à guerra na Bósnia.
Mas, três anos depois, um novo campo de batalha se abriu na Sérvia. Os nacionalistas albaneses voltaram a buscar a independência da província de Kosovo e criaram o grupo paramilitar Exército de Libertação de Kosovo (UÇK, na sigla em albanês), que enfrentou o exército e a polícia iugoslavos na guerra civil de 1998-1999. Pressionado pelos EUA e potências europeias, Milosevic negou-se a retirar as tropas do Kosovo, o que levou a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) a bombardear a Sérvia. Depois de dois meses de bombardeios, Milosevic se comprometeu a retirar o exército sérvio e o Kosovo ficou sob o controle das Nações Unidas mesmo depois de proclamar a independência, em 2008.
Depois da queda
Milosevic foi preso em abril de 2001 e, em junho do mesmo ano, transferido para o Tribunal Penal para a Ex-Iugoslávia, em Haia, acusado de crimes contra a humanidade e crimes de guerra cometidos em Kosovo. Em outubro e novembro de 2001, o tribunal de Haia emitiu duas novas acusações contra Milosevic, por crimes de guerra na Croácia e pelo genocídio de muçulmanos e croatas na Bósnia Herzegovina. Milosevic morreu em 11 de março de 2006 na prisão em Scheveningen, Holanda. A causa oficial foi um ataque cardíaco provocado por medicação indevida, mas correligionários levantaram suspeitas – nunca provadas – de que ele teria sido assassinado.
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Depois das mudanças de 2000, o filho do ex-presidente, Marko Milosevic, fugiu do país, tendo mandados de prisão contra ele sob acusação de espancamentos e de chefiar uma quadrilha de contrabando de cigarros. Ele e a viúva de Milosevic, Mira Markovic, vivem atualmente na Rússia, onde têm asilo político. Em 14 de setembro de 2010, o caso prescreveu e Marko foi absolvido das acusações de espancamento por falta de provas.
Ironicamente ou não, no mesmo dia, foi preso Bogoljub Arsenijevic Maki, um dos pioneiros das mudanças de 5 de outubro, por causa do conflito com a polícia de Milosevic nos protestos de 1999.
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