Candidato de 36 anos, dissidente da Concertação, altera o tradicional cenário político chileno
Candidato de 36 anos, dissidente da Concertação, altera o tradicional cenário político chileno
São 11 horas da manhã quando um rumor começa a percorrer a pequena Graneros, cidade rural 50 quilômetros ao sul de Santiago. “É verdade o que falam, que Marco vem para cá?”, pergunta Mariana, empurrando um carrinho cheio de panos para serem vendidos na praça central. A senhora esboça um sorriso e reconhece: “Acho que não vou votar nele, mas fiquei curiosa para conhecê-lo”. Ela estaciona o carrinho na calçada, esperando a chegada da caravana.
Dez minutos mais tarde, um carro com quatro alto-falantes anuncia com uma canção a chegada de Marco Enríquez-Ominami, o candidato que em menos de um ano mudou o cenário político chileno. As letras resumem o espírito da campanha. As vozes de um homem e de uma mulher, os dois jovens, repetem o refrão: “Um novo Chile é possível, se começarmos a trabalhar! Quero cultura, quero confiança, quero verdade! Marco por ti!”.

Um minuto depois aparece o ex-socialista, montado em uma caminhonete que avança vagarosamente pelas ruas de Graneros. Acompanhado por dois candidatos a deputado, ele sorri e faz com os dedos o “v” da vitória, que é também um dois, o número que seus eleitores terão de escolher este domingo (13).
Cumprimentando os homens com um aperto de mão, ele brinca com as mulheres que pedem um beijo. “Aqui vai!”, diz, simulando o barulho de um beijo no microfone. “Pelo menos eles me reconhecem”, declara, feliz, a seus companheiros.
Voluntários
Apoiado no ombro de Esteban Valenzuela, deputado que decidiu deixar a Concertação, coligação de centro-esquerda, para disputar a eleição, Enríquez-Ominami, ou MEO, como o chamam os chilenos, confessa seu cansaço. “Estou resfriado, não durmo, há 11 meses que faço quatro horas de caravana todos os dias, em todas as regiões do país”, disse ao Opera Mundi.
Ele mostra a marca deixada pelo anel no dedo. “Olha, é a única parte que não está bronzeada, com este tempo todo rodando debaixo do sol!”, explica, rindo.
A caravana é uma das principais ferramentas, aliado ao uso da internet, de uma campanha com poucos recursos, se comparada com as de seus principais adversários: o conservador Sebastian Piñera, candidato da direitista Aliança por Chile e o democrata-cristão Eduardo Frei, da Concertação. Como independente, Enríquez-Ominami não tem direito a uma grande ajuda financeira pública e o tom irreverente fez as doações de empresas, permitidas no Chile, se afastarem. “Aqui, todos são voluntários, ninguém é pago para trabalhar na campanha”, insiste Valenzuela.
Enríquez-Ominami: novidade nas eleições chilenas
Apesar da falta de dinheiro, MEO, com apenas 36 anos, conseguiu colecionar fama em todo o país. Ele exigiu a realização de primárias dentro da centro-esquerda e surpreendeu a Concertação ao decidir sair do PS (Partido Socialista) com um discurso de mudança. “É preciso lembrar, porém, que Marco não surgiu do nada”, afirma o analista político Santiago Escobar. “Ele é fruto da crise da Concertação, mas também é o produto de uma biografia”, diz.
Paixão e racionalismo
Enríquez-Ominami tinha apenas um ano quando seu pai, Miguel Enríquez, morreu. O líder do MIR (Movimento da Esquerda Revolucionária), a principal organização guerrilheira de oposição ao ditador Augusto Pinochet, foi assassinado em 1974, durante uma batalha. O sangue da política corre também do lado da mãe, a jornalista Manuela Gumucio, filha de um dos fundadores do Partido Democrata-Cristão e militante do partido esquerdista MAPU (Movimento de Ação Popular Unitária).
MEO reivindica com seu sobrenome também a herança de seu pai adotivo, o senador socialista Carlos Ominami, um dos criadores da Concertação. A decisão do filho de entrar na batalha eleitoral o obrigou a deixar também a coligação.
Assista ao discurso de Miguel Enríquez num teatro de Santiago:
“Marco é uma mistura de tudo isso: ele tem a paixão e a irreverência do pai biológico, mas também um lado mais moderado e racional, como seu pai adotivo”, conta ao Opera Mundi o economista Roberto Pizarro, uma das vozes mais respeitadas do PS.
Lembrando do guerrilheiro Miguel Enríquez, ele o compara com o jovem candidato. “Ele fala do mesmo jeito, rápido. Às vezes, nem dá para entender”. Pizarro faz uma pausa para pensar, antes de concluir: “mas acho que Miguel Enríquez era mais coerente”.
A crítica ilustra bem os sentimentos misturados que provoca o jovem candidato dentro da Concertação. Por um lado, ternura e admiração, e até certo ponto, inveja por parte dos líderes que se cansaram dos cálculos políticos mesquinhos da coligação. Por outro, a perplexidade frente um comitê de campanha que reúne socialistas históricos, mas também economistas neoliberais, como Paul Fontaine, que chegou a propor uma privatização de parte do cobre chileno, um tabu na esquerda.
Chávez e Sarkozy
“É a mídia que deformou minha proposta, nunca falei isso, queríamos somente abrir o debate”, defende MEO, lembrando também que os jornais o descrevem como um admirador das políticas do presidente venezuelano, Hugo Chávez. “Todos querem que eu fale mal ou bem do Chávez, mas o mundo não é assim, é bem mais complexo”, responde.
“Por exemplo, eu não gosto do Chávez que manda fechar bancos após uma disputa com seu dono, mas eu gosto do Chávez que está acabando com o analfabetismo na Venezuela”, explica.
O candidato prefere outra referência. “Ele gosta de ser chamado de o ‘Sarkozy da esquerda’”, afirma Valenzuela. “Como ele, Sarkozy é descendente de imigrantes, rompeu com o cenário político tradicional e tem também seu toque glamour: na França é Carla Bruni, aqui é Karen Doggenweiler, uma jornalista muito famosa da televisão chilena, além de linda”, diz, piscando o olho.
As principais propostas de seu programa são as reformas política, tributária e da educação. “Eu quero uma educação pública forte, como a que recebi na França”, insiste, lembrando dos treze anos passados em Paris durante o exílio de seus pais, antes de estudar filosofia na Universidade do Chile e começar a produzir filmes. “Eu tenho duas filhas privilegiadas, que vão para a escola particular. Quero que todos os chilenos tenham a mesma oportunidade”, completa.
Moradores de Graneros fazem campanha para Enríquez-Ominami
Jovens urbanos
A promessa tem um eco forte entre a população mais jovem, principalmente nas grandes cidades. “Temos bons números em todo o país, mas há de se reconhecer que é mais difícil aqui, nas regiões rurais”, acrescenta, olhando para as famílias que o cumprimentam com desconfiança. “Aqui o Frei é muito forte. As pessoas ainda se lembram da reforma agrária que o pai dele fez quando era presidente nos anos 1960”, diz.
Com o microfone em mãos, ele argumenta para o público: “Eu sei que vocês estão com dúvidas, mas peço para que não desperdicem o voto. As pesquisas indicam que sou o único que pode ganhar de Piñera no segundo turno. Votar no Frei, é votar na direita”, martela.
Apesar das últimas pesquisas, pouco favoráveis – elas o colocam na terceira posição, com dez pontos de diferença para o segundo colocado, Frei – o “díscolo” como é o apelido usado para caracterizar seu caráter rebelde, mostra-se otimista. “Vamos ganhar”, repete, prometendo uma “grande surpresa” no domingo.
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*Texto e fotos.
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