Domingo, 26 de abril de 2026
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Ele não é afro-americano e pode ter estudado numa escola de elite em Londres. Mas, depois do debate na TV na última quinta-feira (15/4) entre os principais candidatos a primeiro-ministro nas próximas eleições britânicas, dia 6 de maio, o líder do Partido Liberal-Democrata britânico, Nick Clegg, conquistou o país de uma maneira que lembra a chegada de Barack Obama ao poder nos Estados Unidos.

A “cleggmania” já se espalhou no Reino Unido, especialmente entre os jovens, com o instituto de pesquisas YouGov colocando o líder dos chamados LibDems com 33% das estimativas de votos. Em contraste, os conservadores da oposição – favoritos até uma semana atrás – caíram para segundo lugar, logo atrás, com 32%, e os trabalhistas – no governo há 13 anos – vêm com 26%.

Stefan Rousseau Pool/Efe



Tranquilo e jovial, Clegg ganhou simpatia de eleitores após debate

O burburinho sobre Clegg se manteve na entrevista coletiva do candidato com a imprensa estrangeira, antes do segundo debate na TV, nesta quinta-feira (22/4), sobre assuntos externos.

“Se vocês estão esperando alguém no estilo de Churchill ou Obama, aviso que vão ficar decepcionados”, disse Clegg ao começar a entrevista.

 

Ajudado pelo estilo tranquilo e aparência jovial, o líder LibDem conseguiu capitalizar o clima antipolítico no país, após um escândalo dos gastos parlamentares ocorrido no ano passado, o que tirou o manto de “mudança” vestido pelo candidato conservador David Cameron, de 43 anos, a mesma idade de Clegg. E, de quebra, essa diferença levou tanto o líder Tory quanto o atual primeiro-ministro, Gordon Brown, a serem vistos como representantes dos “velhos partidos”.

“Quanto mais eles [Brown e Cameron] atacam um ao outro, mais eles soam como a mesma coisa”, disse Clegg na frase mais marcante do último debate.

Economia

Mas os liberal-democratas não são tanta novidade na política britânica. Embora o partido na forma atual tenha sido fundado apenas em 1988, a legenda é descendente direta dos Whigs, um dos dois partidos britânicos nascidos no século XVIII e rivais históricos dos Tories (conservadores) até a ascensão trabalhista, no início do século XX.

 

A alegação repetida de que os LibDems representam a justiça social, prometendo baixar impostos para pessoas de baixa renda, enfrentar o poderoso setor financeiro e criar um “imposto das mansões” sobre propriedades milionárias, conquistou a atenção pública. Isto se mantém apesar de outras promessas serem controversas, como a de cindir os bancos ao separar suas áreas de varejo e de investimentos, o que levou analistas a alertar que isto acabaria com o status de Londres como capital financeira da Europa se a medida for implantada unilateralmente.

 

Para alívio do mercado, no entanto, Clegg admite a necessidade de reduzir o enorme déficit orçamentário britânico, que se estima chegar a 11,8% do PIB este ano – um dos maiores entre as grandes economias do mundo. De fato, ele já foi até mais explícito do que os adversários sobre a necessidade de cortar gastos. Disse, por exemplo, que seu partido já identificou 15 bilhões de libras (cerca de 40 bilhões de reais) que podem ser economizados ainda no orçamento público deste ano. Mas pouco foi esclarecido sobre de onde sairia esse dinheiro.

Política externa

 

Na política externa, Clegg defende uma mudança mais brusca que os outros partidos, pedindo laços mais próximos com países emergentes, como Brasil, Chile e Índia, e que a relação com os EUA seja transformada numa “amizade entre iguais”. Clegg faz questão de lembrar que seu partido foi o único a se opor à guerra no Iraque. Surpreendentemente para os britânicos, ele é contra qualquer ação militar contra o Irã, preferindo sanções internacionais mesmo que não funcionem.

“Ainda não vi nenhuma opção militar realista, e a conversa sobre ataques na verdade enfraquece as forças anti-regime”, disse Clegg na coletiva. Ele promete, se for eleito, retirar os soldados britânicos do Afeganistão durante o próximo mandato, apoiar a reforma do FMI e do Banco Mundial, e substituir o sistema de armas nucleares.

O sistema de voto distrital do Reino Unido, semelhante ao norte-americano, faz com que só um candidato seja eleito em cada circunscrição, levando ao voto útil, o que acaba tendendo ao bipartidarismo. Isso faz com que seja altamente improvável para o partido de Clegg obter maioria dos assentos do parlamento, já que seu eleitorado é espalhado pelo país. Mas, a não ser que os conservadores consigam mais de 40% das cadeiras, os partidos do Reino Unido provavelmente terão de formar um governo de coalizão pela primeira vez em 40 anos. Se a “cleggmania” continuar a se espalhar pelo país, a chave do número 10 da rua Downing pode ir parar nas mãos de Nick Clegg.

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Candidato azarão aumenta chances de vencer eleições britânicas

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