Terça-feira, 28 de abril de 2026
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A campanha do primeiro turno das eleições presidenciais na Colômbia chegou ao fim neste sábado (29/5), marcada pelo uso intenso da internet e das plataformas de relacionamento, pela primeira vez no país vizinho. O que chamou a atenção, porém, foi o fato de um dos candidatos ter se tornado protagonista do que seria uma série de trapaças e táticas questionáveis. O governista Juan Manuel Santos foi contestado por veículos de comunicação colombianos no último mês por ter usado armadilhas – ou “picardias”, como ele próprio definiu suas jogadas midiáticas – contra outros candidatos e a favor de si mesmo.

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Tudo começou quando Santos, favorito no início, foi superado por Mockus nas pesquisas. A fim de se recuperar, o governista decidiu recrutar para sua campanha o marqueteiro venezuelano J. J. Rendón, que já participara da campanha de 2006 com o Partido de la U. No meio político, Rendón é conhecido como um especialista na “clínica do boato”, uma estratégia de comunicação para divulgar versões falsas sobre uma figura pública com o objetivo de gerar uma percepção negativa. Trata-se de uma verdadeira campanha suja contra outros candidatos, incluindo montagens, chantagens e difamação. Na época, em 2006, isso motivou uma polêmica sobre a expulsão do venezuelano da Colômbia. No debate, representantes do Partido de la U, do Cambio Radical e até mesmo do Polo Democrático concordaram que Rendón estava por trás de várias armações contra partidos e candidatos. O marqueteiro foi então tentar a sorte em outros países.

EFE



O candidato governista, Juan Manuel Santos: campanha acusada de baixar o nível


Na disputa presidencial de 2004 na República Dominicana, o então candidato Leonel Fernández (hoje presidente) denunciou que Rendón estava por trás de uma armação contra ele com o uso de uma gravação falsa. Histórias semelhantes são contadas na Venezuela, onde o assessor apoiou o “sim” no referendo sobre a saída do presidente Hugo Chávez em 2004. Em Honduras, recentemente, Rendón assessorou o candidato Porfirio Lobo, que ganhou as eleições. “O presidente Álvaro [Uribe] me recomendou a Lobo”, disse o marqueteiro em uma entrevista. Em abril do ano passado, no México, Rendón assessorou um dos candidatos ao governo do estado de Veracruz. Fez circular o boato de que o candidato era pedófilo, e este apontou Rendón como autor da acusação.

A chegada de J.J. à campanha colombiana coincidiu com uma mudança na estratégia de Santos na internet. Em 4 de maio, quando anunciou uma reformulação de sua campanha, o candidato explicou que o novo enfoque incluiria uma estratégia agressiva na internet e nas chamadas “mídias sociais”. Quando os usuários do Facebook favoráveis a Santos se multiplicaram rapidamente, o portal de internet LaSillaVacía analisou os perfis e encontrou um padrão suspeito. Muitos perfis eram recém-criados, sem foto ou com o logotipo do Partido de la U, e tinham poucos amigos, também recém-criados. Todos eram fãs unicamente da página de Santos.

O site também denuncia que há usuários fantasmas atuando em favor de Santos. Eles criam perfis falsos em poucos minutos e usam o mesmo IP (ou seja, o mesmo computador) para publicar comentários em vários sites apoiando o candidato sem argumentação. Os comentários são repetidos de modo idêntico nos fóruns e não há interação com os demais usuários. Os que apoiam os outros candidatos definem esses comentários como pré-pagos. O LaSillaVacía constatou que são oferecidos pagamentos a estudantes da Universidade Cooperativa da Colômbia para que eles participem de comunidades online apoiando Santos. Segundo o LaSillaVacía, são oferecidos entre 500 e 600 mil pesos por mês aos estudantes. Eles devem trabalhar oito horas por dia, seis dias por semana, e postar em média 500 comentários por dia. A universidade, uma das maiores do país, apoia abertamente o candidato governista. Seu reitor, César Pérez, é um líder liberal investigado por um massacre em 1998, no qual morreram 43 pessoas.

A campanha de Santos negou categoricamente a acusação.

Outra polêmica foi um anúncio no rádio a favor de Santos que usa uma voz semelhante à de Uribe para dizer: “Vamos deixar claro de uma vez por todas. Na Colômbia, quem decide somos nós, os colombianos. Temos de decidir o caminho que queremos seguir. Eu confio em Juan Manuel.” A campanha de Santos insiste que o uso da imitação da voz de Uribe na publicidade é “pura picardia”. Em uma discussão com o candidato, o jornalista Darío Arizmendi, da rádio Caracol, respondeu que a picardia “é uma coisa que nós, colombianos, devemos combater, e é o motivo de nossa atual situação”. O jornalista também criticou duramente a presença de J. J. Rendón.

EFE



Outdoor da campanha de Santos, que contratou marqueteiro conhecido por usar “clínica do boato”


Alguns usuários da internet pesquisaram a definição de “picardia” nos dicionários e a publicaram em vários fóruns: “baixeza, ruindade, vileza, trapaça ou maldade”.

Chantagem

Mas o questionamento mais contundente vem de uma investigação do telejornal Noticias UNO sobre o programa de renda mínima “Famílias em Ação”, do governo de Uribe. O telejornal descobriu que, em pelo menos uma ocasião, durante um comício de Santos em Bucaramanga (nordeste do país), os beneficiários foram forçados a participar. Segundo o noticiário, as famílias assinaram os formulários de presença sob a ameaça de perder a ajuda.

“Dizem que, se você não vem e não assina o formulário, fica sem a bolsa do Famílias em Ação para os filhos”, contou um beneficiário aos jornalistas. “Sinto-me pressionado, pois sou um trabalhador e tive de deixar o serviço para vir assinar o suposto formulário, a fim de poder receber os 100 mil pesos que concedem a meu filho de oito anos”, afirmou outro.

Santos pediu que o caso seja investigado e que os eventuais responsáveis sejam punidos. Mas acrescentou: “Muitos não querem que eu chegue à presidência da República e por isso fazem todo tipo de guerra suja”.

Violência virtual

A boa notícia é que a campanha eleitoral que está prestes a acabar na Colômbia foi, além da mais incerta, a mais calma e pacífica das últimas décadas.

Até hoje, as campanhas colombianas eram marcadas por carros-bomba e ocupações de vilarejos pela guerrilha, enquanto em outras cidades os paramilitares decidiam quem podia concorrer e qual seria o voto dos eleitores. Eram ocasiões em que a polícia e o exército criavam resultados para depois apresentá-los à opinião pública. Foi o caso, por exemplo, dos carros-bomba que a polícia encontrou em Bogotá em 2006 e que se mostraram “falsos positivos”. Foi a primeira vez que a imprensa usou essa expressão. Só no pleito de 1990, foram assassinados três candidatos à presidência. Desta vez, os candidatos percorreram o país e entraram em contato com o povo em grandes manifestações.

Até o momento, o único problema de ordem pública foram algumas ameaças contra Antanas Mockus por meio do website de relacionamentos Facebook.

*Tradução: Alexandre Moschella.

Campanha na Colômbia foi marcada por suspeita de guerra suja na internet

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