O fotógrafo italiano Francesco Zizola se sente em casa no Brasil. Famoso pela cobertura dos grandes conflitos do mundo e seus desdobramentos, também dedicou muito tempo, entre 1992 e 1994, às crianças da rua no Brasil. Aliás, o tema da situação das crianças é central no trabalho dele, como testemunha a publicação, em 2004, do livro “Né quelque part” (Nascido em algum lugar), editado por Delpire Editeurs (França) e Fusi Orari (Itália). Foi o resultado de 13 anos de pesquisa em 27 países, retratando as condições de vida de crianças em lugares dilacerados pela guerra, a violência da rua, o trabalho infantil e as conseqüências da aids.
Convidado no Brasil para dar palestra e avançar num trabalho para a publicação de um livro a partir de fotos de Rio de Janeiro, Zizola deu entrevista ao Opera Mundi. Destacou as dificuldades do fotojornalismo, que vive a pior crise de sua história segundo ele, e especulou sobre o futuro do trabalho dos fotógrafos e jornalistas de maneira geral, num mundo marcado pela hegemonia da televisão e da internet. Ele lamenta que os fotógrafos e editores imitem a linguagem televisiva, pois considera esta uma concorrência inútil.
Como está o fotojornalismo hoje?
Quando se trata de fotojornalismo, é preciso distinguir entre culturas, países e meios de comunicação. O fotojornalismo nasceu e se desenvolveu na Europa, especialmente na França, mas agora, para entender as grandes transformações, devemos olhar para os Estados Unidos. De qualquer maneira, o fotojornalismo está vivendo talvez a pior crise da história. Antes, a única maneira de saber o que estava acontecendo era a leitura de semanários. Os mais famosos destes chamados “news magazines” usaram, a partir do pós-guerra, as sequências fotográficas para contar histórias. Com a imagem transmitida via satélite, este papel foi transmitido para a televisão. É a revolução simbolizada pela emergência da CNN.
Qual foi a reação dos fotógrafos frente a esta revolução?
Naquela época, esta transformação desafiou a existência do fotojornalismo, mas não desencadeou uma crise profunda. Ele refugiou-se em nichos cada vez mais restritos, que chegaram a ser uma razão de existir e conseguiam atrair ainda algum público. É que existe uma diferencia profunda de natureza entre a linguagem da televisão e a do fotojornalismo. A primeira é rápida, muito sincopada e superficial. A fotografia é um convite à reflexão. Tem que parar e olhar com calma. Se a foto for boa, esta parada pode durar bastante. É uma diferença que me atrevo a chamar de qualitativa.
Como esta adaptação virou crise?
A televisão tornou-se o método preferido de contar a história, isso ficou muito claro na época da queda do Muro de Berlim. Parecia que a televisão poderia estar em toda parte do mundo, instantaneamente. Frente a esta potência, o problema foi a reação dos editores de jornais. De maneira paradoxal, em vez de focar em uma informação específica para a imprensa, ou seja, mais sutil e aprofundada, os editores optaram por uma concorrência com a televisão, sujeitando o conteúdo dos jornais e das revistas à estrutura semântica da televisão. A idéia era copiar a velocidade, a acumulação de imagens e a superficialidade, seja na parte escrita ou gráfica. Isso se refletiu, por exemplo, nos pedidos de fotografias em cores. Antes, a linguagem do fotojornalismo era geralmente em branco e preto.
Foi um processo inconsciente ou pensado pelos editores?
Acho que uma das razões desta atitude foi a mudança do modo de gestão dos jornais. Até então, os jornais eram empresas que precisavam de lucros e da publicidade, mas o objetivo principal era fazer um bom jornal destacando informações para os leitores. Com a queda do número dos leitores e a entrada na estrutura do capital de fundos financeiros ou de empresas que nada têm a ver com a imprensa, o foco mudou. O mais importante passou a ser a publicidade, e não vender mais exemplares. Na visão dos donos da imprensa, o leitor virou pouco a pouco consumidor.
A compra de fotos também mudou. Antes, cada foto tinha um preço, que o editor pagava, seja para seu funcionário, seja para um freelancer. Agora, grandes agências como a Reuters oferecem uma assinatura com tudo : textos e fotos. Neste contexto, já não é mais rentável mandar um fotógrafo próprio para os eventos.
Qual foi o impacto sobre o fotojornalismo?
A generalização das fotografias em cores nos jornais. A diagramação também mudou. Antes, uma boa reportagem significava uma grande foto sobre duas páginas, com o texto. Isso foi substituído por várias imagens menores, que se alternam na mesma página. Também apareceram os mosaicos de fotos. Tudo isso para criar na imagem um ritmo que remete à televisão, o « zapping ». Porque além da televisão por satélite, a outra invenção que revolucionou a informação foi o controle remoto.
O senhor acha que a imprensa escrita está morta?
Está agonizando. Em primeiro lugar, por causa do erro fundamental dos editores, que optaram pela concorrência com a televisão. É uma batalha perdida: a televisão sempre será mais rápida. Por outra parte, a dependência da publicidade também agravou estes defeitos, afastando os leitores tradicionais. Com a internet, a imprensa perdeu outra oportunidade de se destacar como um meio mais elaborado e aprofundado. Agora, estamos frente a uma geração de jovens que nasceram com o computador e nunca compraram um jornal, não conhecem o cheiro de um jornal.
Há também um fator econômico e ambiental. Desde que a China tornou-se um ator econômico global e começou a consumir, passou a usar toneladas de embalagens, causando uma explosão do preço do papel. Se compararmos com os anos 80, o preço do papel aumentou de 30 a 40 vezes. Além disso, as exigências ecológicas em relação ao papel aumentaram significativamente. Agora tem que ser extraído de florestas plantadas, para frear o desmatamento. Tudo isso complica o modelo financeiro dos jornais. Como já falei, acho que vão subsistir alguns nichos, onde se acomoda um número limitado de fotógrafos.
A situação é diferente nos países emergentes?
Acho que a tendência é a mesma. Claro que é importante não generalizar. Nos países onde o nível de vida melhorou com o crescimento da economia, há um aumento do número de potenciais compradores de jornais. Mas seria um equívoco achar que vamos ver nestes países um processo similar àquele que conheceram Europa e Estados Unidos no pós-guerra. A revolução tecnológica já está mudando tudo, especialmente com a chegada do telefone celular. Nas aldeias africanas mais afastadas, assistimos a mudanças inéditas. E nem é o aparelho propriamente dito, mas o chip, com um número de telefone. Porque o aparelho, dá para alugar. Isso já mudou a economia.
O pequeno produtor de frutas que mora a duas horas de bicicleta de Nairóbi tinha que vender a um baixo preço seus produtos na beira da estrada. Agora ele pega o celular e entra em contato com um vendedor da cidade. No Quênia, nasceram bancos que fazem todas as transações via telefone celular.
E o mais importante é que o celular traz internet. Nas aldeias mais remotas, graças a um gerador, existe um internet café. Os jovens fazem fila para escrever e-mails, para se comunicar com amigos imigrantes ou procurar uma bolsa de estudos. Assim, mesmo naqueles lugares que, com um pouco de arrogância, pensamos que a imprensa escrita ainda tem futuro, a internet está mudando tudo.
Isto tem consequência sobre a informação nesses países?
Os jovens estão passando do nada para internet, entenderam que é o meio privilegiado para se inserir no mundo. Isso tem outra consequência: estes jovens também mandam notícias sobre seus países, contando o que está acontecendo, como um massacre em tal região etc. Estamos assistindo ao nascimento do “jornalista cidadão”. E também com a imagem. As pessoas têm agora um celular com uma câmera integrada, com a possibilidade de fotografar cenas inéditas. A maioria dos jornais topa publicar estas fotos, algumas de qualidade duvidosa. Mas pode melhorar. Tudo isso gera um debate interessante.
O que o senhor pensa da nova geração de jornalistas que fazem tudo: texto, fotos, sons, imagens?
Acho ruim para a qualidade. O jornalista “faz-tudo” é um bom negócio para editores que querem pagar pouco, com contratos precários. Para o jornalismo, significa produtos cada vez mais medíocres. Vejo também esta tendência como uma vontade de controle crescente, produzindo uma informação cada vez mais uniformizada. Por isso também acredito muito no potencial da internet, que favorece outras formas de expressão. No Google, ainda dá para controlar, já que seleciona os sites dependendo da audiência deles. Mas o Google já está desatualizado. O twitter é diferente, é muito mais horizontal e democrático. É por isso que em muitos países, surgem propostas legislativas para censurar a Internet. A batalha é sempre a mesma…
A televisão é filha do cinema, que é filho da fotografia. Isso supõe uma similaridade de linguagem…
Não existe mais uma visão do mundo sem a televisão. Ela invadiu nossas vidas em todo o planeta. A maneira de assistir à TV faz parte do DNA cultural. Eu mesmo percebo que faço cada vez mais fotos horizontais que verticais. Mas apesar de tudo isso, a fotografia é única. Quando uma pessoa tira uma foto, ela mata um movimento vital, que é congelado, torna-se imortal no momento. Vira documento. Isso é a força fundamental da foto. Não dá para fixar uma imagem na televisão. Esta imortalidade dá tempo para o espectador pensar. É também o que explica que as autoridades tenham tanto medo da fotografia. Desde a guerra do Vietnã, elas entenderam os efeitos colaterais desta linguagem. As fotografias de vítimas de ataques americanos foram determinantes para mudar a posição da opinião pública dos EUA. Lembra daquela criança fugindo dos bombardeios? Vírou um ícone. É com fotos como essa que se perde uma guerra.
Leia a segunda parte:
Relação entre governos e fotógrafos mudou depois da guerra do Vietnã
Veja abaixo uma seleção de fotos de Zizola:
© francesco zizola/noor

Khodjely, Uzbequistão, 1997 – Escola de recuperação para crianças com sérias má formações
© francesco zizola/noor

Kuito, Angola, 1996. Único cômodo da igreja da cidade intacto após bombardeio, banheiro é usado para guardar imagens sacras
© francesco zizola/noor

Salvador, 93. Menino que tentou esfaquear uma criança por roubar seu tênis
Francesco Zizola recebeu numerosos prêmios internacionais, incluindo a Foto do Ano no World Press Photo em 1996, documentando o drama das minas terrestres em Angola; sete World Press Photo Awards e quatro Pictures of the Year Award. É membro fundador da Noor, uma conceituada agência de fotojornalismo cujo nome significa luz em árabe (lê-se « nur ») e que reúne um time de grandes fotojornalistas originários de Europa, Estados Unidos, Austrália e Rússia, tais como Nina Berman, Jan Grarup, Stanley Greene, Samantha Appleton, Philip Blenkinsop, Jon Lowenstein, Kadir Van Lohuizen, Yuri Kozyrev, Pep Bonet e Francesco Zizola.
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