Quarta-feira, 8 de abril de 2026
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O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, disse hoje (23) em Brasília que seu país continua sofrendo pressões e imposições externas mesmo depois de cumprir as regras internacionais para o desenvolvimento do setor nuclear, e declarou apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva na reivindicação por um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU.

Em Brasília, aonde chegou na manhã desta segunda-feira, Ahmadinejad afirmou estar disposto a fazer um acordo com a AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) para comprar de outros países o urânio enriquecido necessário para as usinas nucleares iranianas, mas que, ainda assim, vem sendo acusado de não cooperar.

“Nós queremos comprar, mas quem vai vender impõe várias condições políticas e técnicas para nós. Isso não está certo. É o comprador que tem que impor condições”, afirmou.

Já Lula reiterou que o Irã tem direito a urânio enriquecido para fins pacíficos, tanto quanto o Brasil. “É simples. O que eu defendo para o Brasil defendo também para os outros”, afirmou o presidente, reforçando o compromisso assumido pelo colega iraniano no discurso, e também em reunião que ambos tiveram recentemente em Nova York, de que o programa nuclear iraniano não tem finalidade bélica.

Fernando Bizerra Jr./EFE

Na entrevista coletiva, Ahmadinejad declarou que a recente proposta de que o Irã compre o urânio já enriquecido de países como Rússia e França partiu do próprio governo iraniano, e não da AIEA. “Nós já temos a tecnologia necessária para fazer o enriquecimento do urânio a 20%, necessário para usarmos em nossas usinas elétricas. Mas, para evitar problemas e reabrir o diálogo com a comunidade internacional, fizemos essa proposta”, disse.

O presidente iraniano explicou que, na verdade, o Irã se propôs a entregar 1,3 tonelada de urânio enriquecido a 3,5% e depois comprar de volta a mesma quantidade enriquecida a 20%. No entanto, ele disse ter percebido que a outra parte não estava disposta a cumprir o acordo – embora, de acordo com regras da AIEA, seja permitido comprar e vender combustível nuclear para geração de energia.

“Fizemos essa proposta para abrir o diálogo, mas, se eles não querem, não aceitamos. Ainda estamos abertos à negociação. Queremos fazer um acordo, mas com base numa negociação justa, sem que outros imponham suas vontades”, completou, alegando que, para chegar um acordo “por poucos quilos de urânio”, não vai abrir mão dos seus direitos.

Ahmadinejad contou que já está sofrendo pressões internas no Irã para não levar a proposta adiante.

O presidente Lula, além de apoiar o Irã na questão nuclear, ressaltou ser a favor da paz no Oriente Médio “com a criação de um Estado palestino e a convivência pacífica com Israel” – uma referência a declarações de Ahmadinejad contra a existência do Estado judeu.

“Com esse espírito de união, recebi, além de Ahmadinejad, os presidentes de Israel, Shimon Peres, e da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, nas últimas semanas”, disse Lula, anunciando que retribuirá a visita aos três entre abril e maio de 2010. “Tem de haver outros interlocutores interessados na paz na região”, afirmou.

Reforma da ONU

Os dois presidentes falaram também sobre a necessidade de uma ampla reforma na ONU. “Temos defendido há 15 anos uma reforma profunda no Conselho de Segurança da ONU, com novos membros permanentes. A entidade tem que refletir a realidade atual, e não a de 1948”, disse Lula, em referência ao ano de criação do órgão. O iraniano concordou e defendeu a entrada do Brasil como membro permanente no Conselho de Segurança.

Para o professor de relações internacionais Heni Ozi Cukier, da ESPM, esse apoio, embora buscado há anos junto a diversos países, não deve ajudar de fato o Brasil na sua luta pelo assento permanente. Ele avalia que os entraves para conseguir a vaga estão, primeiro, em conseguir o apoio dos nossos “competidores” regionais que resistem à idéia – especialmente Argentina, México e Colômbia – e, em segundo lugar, que o Brasil precisa convencer os atuais cinco membros permanentes do Conselho (EUA, Rússia, Reino Unido, China e França). “Esses são os apoios mais importantes e mais difíceis de serem obtidos. Só depois é que o suporte manifestado pelo Irã seria útil”, diz.

Brasil e Irã declaram apoio mútuo em questão nuclear e no Conselho de Segurança da ONU

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