Sexta-feira, 17 de abril de 2026
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Os rumores de golpe de Estado no Paraguai nunca acabaram. A abertura democrática, iniciada com a queda de Alfredo Stroessner em 1989, tem levantado, ao longo de duas décadas, inúmeras versões sobre a possibilidade de quebra institucional.

O único que não sofreu a ameaça de um golpe foi o general Andrés Rodríguez (1923-1997), que governou o país até 1993 desde o golpe que liderou contra o sogro de seu filho, Stroessner, que morreu no exílio no Brasil em 2006. 

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No início do mandato de Rodríguez se falou do ressentimento dos considerados stroessneristas, mas seu governo nunca sofreu a intenção real de uma tomada de poder por meio de uma deposição.

Depois, os presidentes Wasmosy, Cubas, González Macchi, Duarte Frutos (em menor medida) e Lugo agora, tiveram de superar boatos, informações erradas e inclusive tentativas golpistas.

Wasmosy

Juan Carlos Wasmosy assumiu o poder em 1993 como o primeiro civil eleito em eleições livres e transparentes. Sua eleição, no entanto, sempre carregou denúncias de haveria ocorrido fraude eleitoral durante as primárias do partido, com o objetivo de tirar do caminho o caudilho Luis María Argaña. Os rumores se converteram em informações concretas quando o senador Juan Carlos Galaverna reconheceu em 2008 que havia fraudado as primárias do Partido Colorado para designar Wasmosy como candidato.

O período de governo de Wasmosy (1993-1998) começou de uma maneira bastante tranquila, mas terminou com um mal estar político e militar. O fato principal foi o rompimento da relação com o então general Lino Oviedo, elemento fundamental e pilar militar de seu governo com as forças armadas.

Houve boatos de que um desentendimento quanto à construção de uma segunda ponte sobre o Rio Paraná, que uniria Paraguai, Brasil, além da ponte da Amizade (Cidade do Leste e Foz de Iguaçú), próxima à região chamada de tríplice fronteira (o projeto não foi concretizado até 2010), agravou a situação.

As diferenças entre Wasmosy e Oviedo chegaram ao ponto mais crítico em abril de 1996, quando o então homem forte das forças armadas ameaçou com um golpe de Estado caso fosse tirado do cargo. Houve crise e intervieram a OEA (Organização dos Estados Americanos) e várias embaixadas, entre elas a do Brasil e dos Estados Unidos. O conflito foi superado, mas nunca totalmente esclarecido.

O feito foi caracterizado como tentativa de golpe de Estado e os dedos acusadores apontaram em direção a Oviedo e seus seguidores. O então chefe do exército foi aposentado, se lançou na arena política e ganhou as primárias do Partido Colorado. Mas uma condenação a 10 anos de prisão pela tentativa de golpe em 1996 o privou de competir pelo assento presidencial em 1998.

Cubas

Assassinato e resignação. Sem Oviedo no caminho, foi formada a dupla colorada Raúl Cubas Grau e Luis María Argaña, que foi eleita em 1998 sem distúrbios com a Aliança Democrática, oposição representada por Domingo Laíno e Carlos Filizzola. Cubas era aliado de Oviedo e Argaña, inimigo.

O clima no âmbito militar não havia se acalmado. Oviedistas e argañistas, mimetizados no uniforme militar, não colaboraram para um processo tranquilo.

Desde a suposição da dupla forçada Cubas-Argaña, a tentativa de golpe nunca se concretizou. A pior crise política começou em março de 1999, com o assassinato do então vice presidente Argaña. As ruas de Assunção se encheram de manifestantes. Houve enfrentamentos, mortos e feridos. Os militares saíram de seus quartéis, porém, os objetivos não estavam claros. O rumor de golpe novamente retornara. Depois de negociações políticas, finalmente terminou o processo, com a renúncia de Cubas em 28 de março.

Oviedo fugiu do país e ficou foragido por vários anos, até que decidiu se entregar à Justiça. Mais tarde, foi absolvido da culpa e dos processos judiciais pelos acontecimentos de 1996 e os assassinatos de 1999.


González Macchi

Presidente não eleito e golpe falido. Luis Ángel González Macchi, na linha de sucessão por ser presidente do Congresso Nacional, diante da renúncia de Cubas, assume a presidência em 28 de março de 1999. Seu governo foi instável e considerado um dos mais corruptos. Não se pode esquecer o clima tenso que haviam deixado o chamado “Março Paraguaio” e a ala oviedista, tanto no plano político como militar, ameaçou em diversas ocasiões com golpe.

Um fato grave que passou despercebido aconteceu em 18 de maio de 2000, quando tanques do Primeiro Corpo do exército se deslocaram das bases até a sede do congresso. Eles se posicionaram em frente ao prédio e um deles chegou a disparar. As marcas do ataque ficaram em algumas das colunas. Dentro do prédio estavam parlamentares de vários partidos, reunidos justamente por causa da instabilidade política.

A consideração do governo foi de que houve um golpe frustrado. Mas, para os acusados (os oviedistas), foi um autogolpe frustrado. Os responsáveis pela mão-de-obra militar, segundo o governo, foram políticos e militares ligados a Lino Oviedo. Na mesma noite, foram presas pessoas próximas ao então foragido da Justiça. Alguns deles reivindicaram o que a Constituição estabelecia em relação à “situação de rebeldia”, que a população pode fazer denúncias em caso de abuso de poder. Meses depois, todos os presos foram absolvidos.

Os rumores de golpe, logo depois, fizeram parte do governo de González Macchi até o final do mandato, em agosto de 2003. A instabilidade política, as denúncias de corrupção, o mal-estar nas forças armadas e o descontentamento popular levaram vários setores a analisar a possibilidade de derrubar o presidente – o que, no final, não aconteceu.

Duarte Frutos

Em 2003, Nicanor Duarte Frutos assumiu a presidência, acompanhado pelo vice Luis Alberto Castiglioni. Acabaram sendo a última dupla colorada no governo desde a ascensão do partido, em 1947.

Durante o governo, não houve fatos que cogitassem a possibilidade concreta de um golpe de Estado, embora os boatos, em menor medida, continuassem.

Poucos meses depois de assumir, o governo denunciou a existência de um plano para assassinar o presidente. A denúncia foi feita na véspera de Duarte Frutos voltar das férias no Brasil com a família. Por trás do atentado, estariam os “setores da máfia”, embora colaboradores do presidente tenham insinuado que também haveria militares envolvidos. A denúncia não resultou em nada. A mídia “abafou” a informação e, uma semana depois, o assunto caiu no esquecimento, com a sensação de que tudo foi uma invenção para distrair as críticas que Duarte Frutos estava recebendo por sair de férias enquanto o país afundava na pobreza e em protestos sociais.

Durante o governo, Oviedo se entregou à Justiça. Foragido desde o caso dos assassinatos de março de 1999 e condenado pela tentativa de golpe de 1996, acabou absolvido pouco depois de voltar ao país. Ficou a sensação de que ele havia chegado a um acordo político com Duarte Frutos. O objetivo seria dividir a oposição. Oviedo foi candidato à presidência por seu partido, a Unace. Recebeu votos que, supostamente, poderiam ter sido dados para Lugo. Finalmente, o ex-bispo venceu em 20 de abril de 2008, com folga.

Lugo

Como vice-presidente, Lugo teve na chapa Federico Franco. Um acordo entre partidos da oposição, denominado Aliança Patriótica para a Mudança (APC, em espanhol) conseguiu finalmente tirar o Partido Colorado do poder.

Pouco antes de iniciar o mandato, Lugo denunciou que setores que não queriam perder privilégios estavam planejando um golpe de Estado. O dedo acusador do ex-bispo apontou para Lino Oviedo e o ex-presidente Duarte Frutos. O governo, que não apresentou provas, não se retratou da denúncia. Ao contrário, reiterou-a em inúmeras ocasiões, insistindo que setores da máfia e políticos não abandonam a possibilidade de interromper o “processo de mudança” por meio de um golpe. As denúncias do presidente repercutiram até como uma mudança generalizada na cúpula militar.

A última versão de golpe de Estado foi registrada na virada de 2009 para 2010, em meio a uma crise institucional gerada por uma decisão da vara constitucional do Supremo – formada por juízes do tribunal de contas porque todos os ministros se declararam impedidos – que restaurou dois ex-ministros do Supremo (Carlos Fernández Gadea e Bonifacio Ríos), afastados dos cargos por um julgamento político em 2003.

Parlamentares da oposição falaram de um “autogolpe”, lançaram timidamente a possibilidade de um golpe no estilo de Honduras e de que as forças armadas poderiam sair às ruas. O clima se distendeu um pouco com a determinação do plenário do Supremo Tribunal de anular a decisão da vara constitucional.

A crise foi superada, mas o ambiente continua tenso no Paraguai, um país prestes a completar 21 anos de vida democrática depois da derrubada do ditador Alfredo Stroessner. O país vizinho continua mergulhado em um clima no qual falar de possibilidades de golpe de Estado é cotidiano. É uma sombra que não deixa o Paraguai em paz.

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