Domingo, 26 de abril de 2026
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Preservar a herança cultural do nosso tempo e gerenciar 16 milhões de artigos escritos em 250 idiomas. Esse é o desafio da Wikipedia, a mais famosa das enciclopédias digitais. Um desafio que perpassa diversos aspectos e dilemas criados pela crescente digitalização da informação. O assunto foi debatido em São Paulo entre os dias 27 e 29 de abril durante o Simpósio Internacional de Políticas Públicas para Acervos Digitais.

Mathias Schindler, diretor de projetos da divisão alemã da Wikimedia Fundation, explica o primeiro desafio da Wikipedia: “dar um caráter de enciclopédia para a publicação, pois ela não é uma simples coleção de ensaios e também não pode ser classificada como um banco de dados”.

Schindler falou sobre a aceitação da Wikipedia como fonte de informações: “A Wikipedia é um site ótimo para iniciar uma pesquisa na Internet e um lugar péssimo para encerrar uma busca por informações”. Ele sugere a leitura das fontes usadas na elaboração do artigo e as outras referências citadas.

“Gostaria que a Wikipedia se consolidasse como um repositório de mídia”, diz Schindler. O alemão defende que o material seja licenciado através do Creative Commons e assim, fique livre para uso “por conta da dificuldade em definir a fronteira entre o uso pessoal e uso comercial”.

De acordo com Schindler, os usuários desempenham papel importante para a Wikimedia: eles são responsáveis pelo feedback dos metadados dos arquivos subidos para a enciclopédia online. E incentiva os usuários a postar conteúdo e use uma licença Creative Commons: “torne os dados públicos e livres para uso. Não deixe que a sua preocupação com a qualidade dos metadados te impeça de escrever”.


Parcerias

Frederic de Martin falou sobre a Gallica, projeto francês de biblioteca digital. A iniciativa surgiu em 1997, ainda no governo do presidente Mitterrand. Os números da Gallica dimensionam a importância do projeto: mais de um milhão de documentos, sendo 63 mil livros, 9800 mapas, 730 mil jornais e 123 mil fotos, além de 14 mil documentos de outras 12 bibliotecas parceiras.

Duas são as apostas da Gallica para atingir os usuários: a apresentação dos dados, adotando uma folha de rosto padrão para os documentos e uma única ferramenta de busca, permitindo ao usuário acessar informações dentro dos textos. A biblioteca digital francesa também “se insere na Internet por meio das redes sociais, como o Twitter e o Facebook”, conta Martin.

Para conseguir sustentabilidade financeira, a Gallica conta com apoio governamental, acordo com parceiros provedores da tecnologia de digitalização e acordos comerciais com livrarias e editoras. “Um usuário pode ler um trecho de um livro na Gallica e a partir dali, ir ao site da editora e comprar a versão digital ou mesmo a versão física do livro”, explica Martin.

Objeto-livro

Já a biblioteca Brasiliana aposta no apoio da USP e da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) para digitalizar seu acervo. O ponto de partida foi a doação dos livros do bibliófilo José Mindlin para a USP. “Juntou-se o barateamento das técnicas de digitalização com a necessidade de tornar o conteúdo desses livros disponíveis em meios digitais”, explica Pedro Puntoni, professor da USP.

A Fapesp entrou no projeto como financiadora da máquina de escaneamento que digitaliza os livros sem a necessidade de cortar o livro original. Puntoni cita José Mindlin, inspirador da biblioteca para a escolha desse modelo de digitalização: “Temos apego e queremos preservar o objeto-livro”.

Definir métodos e padrões para a criação de arquivos de livros digitais é uma das preocupações de Puntoni. Toda a documentação técnica será disponibilizada e em setembro haverá um seminário para discutir esse tema. Um dos pilares dessa padronização foi “o uso de software livre e adoção de uma plataforma aberta, permitindo que outras bibliotecas possam adaptar essas ferramentas”, diz Puntoni.

Puntoni diz que esses projetos não irão competir com as bibliotecas físicas: “queremos ter conteúdo original e achamos necessária uma política pública para prover a Internet com conteúdo em português”, afirma.

Modelo de negócios

Os gestores de bibliotecas digitais admitem a dificuldade de achar o modelo de negócios ideal, equilibrando a sustentabilidade financeira dos projetos e a necessidade de remunerar os detentores de direitos autorais. Esse tema foi contemplado no debate que contou com a presença de Paul Keller (Creative Commons da Holanda) e  Ivo Corrêa (Google Brasil).

Keller conta que o projeto holandês exigirá 173 milhoes de euros, sendo 148 milhões vindos do Ministério da Educação da Holanda. Segundo ele, os objetivos são digitalizar e contextualizar o acervo cultural do país, permitir o uso educacional desses arquivos usando licenças Creative Commons e gerar novos serviços a partir desse material. Ele conta que a preocupação da Holanda é terminar a digitalização dos arquivos até 2013 para que o material não se perca: “boa parte desses arquivos corre risco de deterioração”.

Estudo realizado pela Universidade de Amsterdã mostra os efeitos macroeconômicos do projeto: 7 milhões de euros serão gerados diretamente pelo projeto. Outros 138 milhões de euros serão pagos pelos usuários: 92 milhões para parceiros do consórcio e outros 46 milhões para quem é dono dos direitos autorais. Cerca de dois terços desse montante estão relacionados aos usos educacionais dos conteúdos.

Alguns dos problemas relacionados à sustentabilidade das bibliotecas digitais são os custos com o processo de digitalização e as obrigações financeiras após a conclusão dos projetos. Segundo Keller, “a forma de pagamento deve ser definida antes de digitalizar os arquivos”. Ao mesmo tempo, ele considera que “o processo de digitalização dos acervos culturais é algo inevitável e não pode ser deixado na mão do mercado”.

Uma opção para agilizar o processo jurídico para obtenção dos direitos de reprodução é o modelo opt-out – cataloga-se o acervo e depois se consegue a permissão dos detentores dos copyrights. Isso obriga os donos dos direitos autorais a “virem atrás da remuneração em vez da biblioteca ter que lutar para conseguir acordo com todas as partes envolvidas”, explicou.

Transparência

Ivo Corrêa, diretor para Políticas Públicas e Relações Governamentais do Google, começou sua explanação citando um dos possíveis usos da digitalização de arquivos: a busca em arquivos judiciais. Num momento onde se pede mais transparência na administração pública, uma ferramenta assim ajudaria em projetos de fiscalização do poder público.

Corrêa aproveitou o tema jurídico para mostrar o descompasso entre a legislação de direitos autorais e a “vida econômica dessas obras”. Segundo ele, “a cada ano são lançados um milhão de livros no mundo e a vida econômica média desses produtos é de apenas 15 meses”. No entanto, a propriedade sobre os direitos autorais pode se estender por mais de 100 anos.

Digitalizar essas obras serve a dois propósitos, de acordo com Corrêa: “evitar que o material se perca, pois pode haver interesses sociais e acadêmicos nessas obras e também ajudar as editoras a saber quais temas são pesquisados pelos internautas. Isso permitiria às empresas saber quais livros devem ser reeditados, ajudar no desenvolvimento de novos produtos. É uma boa integração entre meios digitais e impressos”.

Um dado apresentado por Correa revela o potencial dos acervos digitais: a cada minuto, os usuários postam 30 horas de vídeo no YouTube. O player de vídeos do Google já é a segunda ferramenta de busca mais usada na Internet. E para ele, todo esse conteúdo não pode ser previamente controlado: “É impossível monitorar violações com um volume tão grande de mídia”, finalizou.

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Bibliotecas digitais buscam sustentabilidade financeira e padrões de apresentação de dados

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