Barrio Logan: centenário reduto mexicano em San Diego debate o endurecimento das leis de imigração nos EUA
Barrio Logan: centenário reduto mexicano em San Diego debate o endurecimento das leis de imigração nos EUA
Os largos muros grafitados em Barrio Logan ou como é chamado o bairro em inglês, Logan Heights, trazem impressa a cultura mexicana. Homenagens a santos e padroeiros, devoção à bandeira nacional, entre outros temas, surgem nessa parte “chicana” de San Diego, habitada há mais de 100 anos por mexicanos refugiados da revolução de 1910. O Parque Chicano, onde estão os murais, é o coração histórico do Bairro Logan e onde Opera Mundi discutiu com habitantes locais a imigração latina nos Estados Unidos e a mais recente lei anti-imigração do Arizona, também lar de milhares de imigrantes.
Federico Mastrogiovanni/Opera Mundi

Muro grafitado com imagem de Virgem Murales no Barrio Logan
Um grupo de mexicanos joga e confraterniza nas quadras do “frontão”, espécie de pelota basca. “O frontão é algo muito sério para esta comunidade”, explica Emilio, com corte de cabelo militar e bigode ralo. Apelidado de “Churro”, ele é originário de Jalisco, está há 25 anos nos EUA e acaba de obter a cidadania norte-americana. “Aqui se joga para ganhar: ganhar a partida, ganhar dinheiro e ganhar respeito.”
Os 20 homens na quadra, alguns jogando, outros tomando cerveja escondendo as latas, outros simplesmente conversando, são veteranos do bairro. Bairro Logan não parece o local perigoso que conquistou lugar nos noticiários a partir dos anos 1980 por causa da violência e dos frequentes tiroteios.
Federico Mastrogiovanni/Opera Mundi

Moradores do bairro jogam o frontão, jogo que se assemelha a pelota basca
“Logan sempre foi um bairro violento. Agora podemos caminhar tranquilamente, mas nos anos 1980 havia toque de recolher e tiroteios todo dia. No entanto, geramos também uma importante atividade política”, conta David, de 50 anos, que se define como um dos campeões de frontão de toda a Califórnia. Segundo ele, a comunidade sempre foi muito ativa e conectada com as comunidades mexicanas.
Atividades comunitárias são uma característica do bairro. Protestos como o de 10 de abril desse ano, em que moradores saíram às ruas para pedir a reforma da lei de imigração dos EUA, partem do Parque Chicano, símbolo da imigração mexicana e latino-americana e das lutas dos latinos. Em 1º de maio, os movimentos sociais do bairro Logan se manifestaram uma vez mais, contra a lei SB1070 do Arizona, considerada racista e perigosa. Eles também se mobilizaram em 29 de julho, quando a lei entrou em vigor.
Conforme explicou ao Opera Mundi Pedro Ríos, diretor do Comitê de Serviços Amigos das Américas em San Diego, a lei do Arizona se insere em um novo contexto de gestão da imigração, cujo objetivo é controlar o fluxo da mão-de-obra barata oriunda do México e América Central.
“Neste marco, se destacam iniciativas como a ‘Operação Streamline’, aplicada no Arizona e em partes do Texas”, afirmou Ríos. Todos os dias, explicou, cerca de 100 pessoas são capturadas tentando cruzar a fronteira. Já detidas, são culpadas por estarem sem documentos, recebendo penas de entre dois e três meses de prisão. “Então, quando são deportadas, os imigrantes partem com esse antecedente penal, embora não tenham cometido nenhum delito penal no passado.”
Comumente, os imigrantes tentam entrar de novo nos EUA e, graças à Operação Streamline, chegam com antecedentes criminais, embora o único crime tenha sido o de cruzar a fronteira sem documentos. “Delito que, para o governo federal, não é maior, e sim apenas administrativo”. Segundo Rios, o processo é sumário: “Nenhum dos que são presos têm chances de se defender, porque foram detidos cruzando a fronteira sem documentos e, com isso, já saem fichados como criminosos.”
A Operação Stremline diz que todos aqueles que ingressam ilegalmente nos EUA violam o artigo nº 1325 do Código Penal norte-americano, que criminaliza a entrada de imigrantes pela fronteira. O julgamento e a condenação perante um tribunal federal podem resultar na prisão federal e em uma condenação de até 180 dias, com a possibilidade de sentenças mais longas. Ao seres libertadas da prisão, estas pessoas que foram julgadas terão um registro de antecedentes penais e serão formalmente expulsas dos Estados Unidos.
“O objetivo da Operação Streamline é gerar um contexto no qual os trabalhadores migrantes, com a intenção de buscar trabalho, automaticamente sejam fichados como criminosos. É o processo de criminalização da população trabalhadora, que enviar dinheiro a suas famílias”, afirmou Ríos.
A nova lei SB1070, no Arizona, é uma tentativa de mudar o status de quem não tem documentos – embora a juíza Susan Boltn tenha suspendido os artigos mais polêmicos. Ela diz que a cor da pele não deve ser a única razão para que a detenção de um veículo e a verificação de documentos. Deve haver pelo menos outra razão – por exemplo, o farol quebrado, algo que está fora de ordem -, mas, quando se detém uma pessoa caminhando na rua, é principalmente pelo aspecto, pela cor da pele.
“A mesma patrulha fronteiriça já usava esses parâmetros raciais para deter um carro antes da aprovação da lei. Aqui, a polêmica surge porque se apresenta em âmbito estadual”, afirma Pedro Ríos. “O ponto é que se trata de uma discriminação de classe. Se estudarmos a história das leis de imigração dos EUA, veremos que sempre se criaram situações em que certas classes de pessoas foram excluídas”. Visitando Coronado, uma das localidades mais ricas de San Diego, pode-se ver mexicanos ricos de classe alta, e o fato de eles serem mexicanos não foi um obstáculo para cruzar a fronteira, pois eles têm dinheiro para poder estar aqui, explicou Rios.
“No Arizona, há uma cultura que não vê os mexicanos como pessoas e sim como aqueles que limpam o quintal, são babás, zeladores. Não merecem serviços básicos, que sustentam a dignidade do ser humano”, conclui Ríos.
Entre os murais do Parque Chicano começa a entardecer. No meio da praça, onde se ergue um monumento ao México, junta-se um grupo de baile com camisetas que dizem “orgulho mexicano”, que faz a tradicional dança dos concheros, interpretada por jovens, na mesma hora, no centro do bairro de Coyoacán ou diante do Templo Mayor, no centro histórico do Distrito Federal.
Federico Mastrogiovanni/Opera Mundi

Grupo de baile fazendo a dança dos concheros no tradicional Parque Chicano
David descansa no banco após ter ganho a quarta partida consecutiva de frontão, ao lado de Carlos, 35 anos mais novo, com uma cicatriz no flanco e uma expressão de assombro. “É uma indecência o que estão fazendo com os imigrantes neste país. Há 30 anos, se você queria trabalhar, dava duro e podia construir uma vida. Hoje trabalho em construções, como muitos mexicanos. Minhas mãos e as de meus irmãos construíram milhares de casas neste país, e agora a polícia nos detém só porque temos cara de mexicanos, como se isso fosse um crime por si só.”
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