Terça-feira, 12 de maio de 2026
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O Instituto Nacional de Estatísticas e Censos da Argentina (INDEC) anuncia nesta quarta-feira (14/09) o índice de inflação do mês de agosto, que deve ficar entre 6,5% e 7%. Os principais analistas, consultores e bancos do país calculam que 2022 terminará com uma inflação de 99,4%. Apesar do impacto social do constante aumento de preços, o governo não parece disposto a aplicar reformas estruturais. O objetivo é levar a situação até as eleições de outubro do ano que vem e deixar o custo político para o próximo governo.

Com os números divulgados nesta quarta-feira a Argentina consolida um nível ainda mais elevado de inflação, depois dos 7,4% de julho. Num único mês, os argentinos atingem a inflação que vários países percorrem ao longo de um ano.

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Nos primeiros oito meses de 2022, a inflação acumulada supera os 55%, a maior desde 1991, quando o país saía de uma hiperinflação. Nos últimos 32 meses de governo do presidente Alberto Fernández, o acúmulo chega a 219%.

A sondagem mensal do Banco Central argentino com os principais consultores e bancos do país indica uma expectativa de 95% em todo 2022. Quando a pesquisa se concentra apenas nos consultores que mais acertam nesses cálculos, a previsão anual pula para 99,4%.

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Em entrevista com a RFI, Daniel Artana, economista-chefe da Fundação de Investigações Econômicas Latino-americanas (FIEL), uma referência no país, explica que, para a FIEL, a inflação deste ano deve fechar em 112,4%.

“O governo tem desvalorizado a moeda num ritmo cada vez mais veloz, acima de 6% ao mês. Os salários formais têm procurado reajustes nesse mesmo ritmo. Portanto, é difícil que a inflação mensal fique abaixo disso. Sem um plano de estabilização, a inflação deve oscilar entre 6% e 7% até o final do ano”, prevê Daniel Artana.

Tensão social

A Fundação Mediterrânea, outra referência no país, fez um estudo comparativo entre as principais economias da América Latina. Segundo os dados da instituição, o aumento de preços de alimentos e bebidas na Argentina é, em média, cinco vezes maior do que nos demais países da região. Na comparação com o Brasil, por exemplo, a alta foi 3,9 vezes superior nos primeiros sete meses deste ano.

O aumento de preços dos alimentos impacta com mais força nos mais pobres, elevando o ambiente de tensão social. “Obviamente, há uma grande indignação social diante de uma dinâmica inflacionária complicada. A inflação passou de 3% a 7%. Isso gera tensão”, observa Artana.

Em agosto de 2021, a inflação ficou em 2,5%, um patamar elevado. Um ano depois, quase triplicou.

“Com uma inflação de 6% ao mês, a projeção anual fica em 101%. Com 6,5%, pula para 113%. E a Argentina tem tido meses acima de 6,5%”, ilustra Artana. O efeito desse nível inflacionário sobre salários e aposentadorias é a perda do poder aquisitivo, o que gera tensão social.

O governo tem tirado proveito do nível elevado de inflação. O reajuste de salários e aposentadorias chega três meses depois. Os atrasos aos fornecedores do Estado e as dívidas atrasadas representam um silencioso ajuste.

A partir deste mês, começaram os aumentos nas contas de energia elétrica, de gás e água. O impacto desses aumentos virá na inflação dos próximos meses.

Até agora, os ajustes têm recaído sobre o setor privado. Os gastos da política se mantêm iguais e não há no horizonte nenhuma reforma estrutural para diminuir o tamanho do Estado. Em vez de um plano de estabilização, o que se vê é um plano de “ganhar tempo”.

Segundo dados divulgados pelo INDEC, em um mês, argentinos atingem inflação que vários países percorrem ao longo de um ano

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Argentina consolida um nível ainda mais elevado de inflação, depois dos 7,4% de julho.

“Um plano de estabilização requer medidas que permitam dizer, por exemplo, de quanto será a desvalorização mensal da taxa de câmbio. Mas com 6% ou 7% mensais de desvalorização da moeda, a inflação não será menor do que isso. A desvalorização tem sido feita em parcelas. Portanto, vamos ter inflação alta durante bastante tempo porque não querem desvalorizar de uma vez”, prevê Artana.

Plano “ganhar tempo”

O plano de “ganhar tempo” foi a estratégia para contornar a situação de emergência que se viu nos últimos dois meses, com a forte desvalorização do peso argentino, com o nível crítico de reservas do Banco Central e com a total falta de credibilidade do governo diante do mercado.

“A chegada de uma nova equipe econômica, com uma visão mais realista, ajudou a descomprimir a situação de instabilidade. Foi muito importante ganhar tempo, mas não é suficiente para chegar até o final do mandato em dezembro do ano que vem. Os problemas não foram resolvidos e não estamos perto disso”, explica Daniel Artana.

Analistas políticos entrevistados pela RFI interpretam que a estratégia de “ganhar tempo” pretende chegar até as eleições de outubro do ano que vem.

“Essa estratégia não é para ganhar as eleições. O governo sabe que não ganha. O objetivo é eleger a maior quantidade de governadores e de legisladores provinciais e nacionais. Com 30% das câmaras, pode bloquear o próximo governo, desgastando-o e mostrando-se como opção em 2017”, indica à RFI o analista político e consultor, Jorge Giacobbe.

“O governo faz a seguinte conta: percebe que as suas chances eleitorais são baixas. Então, se pergunta qual é o sentido de pagar o custo político de um forte ajuste para deixar o caminho livre para um próximo governo da oposição. Preferem esticar esta situação e que o custo de reformas estruturais fique para o próximo presidente”, aponta à RFI o cientista político Lucas Romero.

O ministro da Economia e presidenciável, Sergio Massa, pretende contornar a emergência, diminuindo a emissão monetária, fortalecendo as reservas do Banco Central e melhorando as contas públicas, mas sem avançar com necessárias reformas, como o mercado gostaria de ver.

Balanço positivo

Massa reuniu-se com o presidente Alberto Fernández na Casa Rosada para um balanço da missão aos Estados Unidos, onde se reuniu com agentes do mercado e com investidores, além das autoridades do Banco Interamericano de Desenvolvimento e do Banco Mundial.

As duas reuniões principais foram na segunda-feira (12/09) com a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional, Kristalina Georgieva, e com a secretária do Tesouro, Janet Yellen.

O resultado foi positivo. O ministro Sergio Massa disse o que o FMI queria ouvir, e o FMI indicou que vai aprovar a revisão das contas do segundo trimestre, prevista no acordo financeiro fechado em março. Espera-se um anúncio oficial do FMI nesta sexta-feira (16/09).

Sergio Massa prometeu que vai cumprir com a meta de superávit fiscal de 2,5% do PIB neste ano e que o Banco Central vai recuperar reservas. Todos esperam por reformas que resgatem a credibilidade da Argentina para voltar aos mercados e aguardam por um plano para baixar a inflação como ponto de partida para a estabilização da Economia.

No entanto, o ano que vem é um ano eleitoral, quando os governos na Argentina gastam mais; não menos. “Não há no horizonte nenhum plano de estabilização, muito menos de reformas. Vão manter uma disciplina num ano eleitoral? Se olharmos o descontrole fiscal do ano passado, quando houve eleições legislativas, explicamos os custos que estamos pagando na primeira parte deste ano”, questiona Daniel Artana.

Tanto o ministro da Economia, Sergio Massa, quanto a vice-presidente, Cristina Kirchner, têm planos eleitorais, normalmente contrários a um ajuste.