Sábado, 25 de abril de 2026
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As milhares de ligações recebidas por um serviço telefônico criado pela Igreja Católica para receber denúncias de abusos sexuais cometidos por padres serviram para medir a gravidade do assunto na Alemanha e preocupar a população. Bastou um dia de funcionamento para o sistema entrar em colapso: mais de quatro mil chamadas foram registradas.

Sem ter ideia da proporção que o projeto teria, a coordenação destinou três pessoas para atender as chamadas do disque-denúncia. Ao final do expediente, apenas 165 ligações foram atendidas, frente às quatro mil e 600 tentativas.

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O serviço telefônico foi inaugurado pela Igreja na tentativa de retomar a confiança dos fiéis em meio aos consecutivos escândalos de abuso sexual envolvendo padres católicos. A iniciativa, no entanto, já deu sinais de que o efeito pode ser contrário.

Movimentos de oposição ao catolicismo têm se espalhado rapidamente pela internet. Stefan Flury é líder de um deles, chamado “Gegen den Kindermissbrauch in der Kirche” (Contra o Abuso de Crianças na Igreja). Ele pede transparência e justiça. “É chocante a quantidade de pessoas que tem relatado abusos. A violência mental e psicológica sofrida por essas crianças não pode ser acobertada. É preciso punir os culpados com rigor, ou será o fim da Igreja”, declarou Stefan.

Sequência de fatos e efeitos colaterais

A nova série de escândalos envolvendo padres pedófilos na Alemanha começou em janeiro desse ano e surgiu de dentro do Colégio Jesuíta Canisius, um dos mais tradicionais do país. Padre e então professor de educação física na instituição de elite berlinense, Wolfgang S. confessou por meio de uma carta aberta ter abusado sexualmente de alunos na época em que trabalhava na escola.

A direção do colégio, a Igreja alemã e o Vaticano sabiam do caso há mais de uma década, mas mantiveram segredo. O ex-padre vive atualmente na América do Sul.

Cerca de 500 alunos estariam entre as potenciais vítimas de abuso sexual na escola, entre 1975 e 1983. Desde o início do ano, 20 pessoas procuraram a justiça para denunciar abusos dentro do Canisius.

A carta de Wolfgang desencadeou centenas de denúncias em todo país. Na Igreja, além da moral abalada, o efeito colateral é também financeiro. Todos os dias, dezenas de pessoas têm cancelado remessas à instituição, que custa a cada cidadão o equivalente a mil e 700 reais por ano.

Uma pesquisa realizada pela revista alemã Focus aponta que 26% de 613 entrevistados pretendem cancelar os vínculos com a Igreja.

“Eu deixei de contribuir com a Igreja há cinco anos. Mais do que nunca estou certo de que fiz a escolha certa. Sempre que puder, vou incentivar amigos a não financiar essa sujeira”, afirma o veterinário Otho Gebhard Petzel.

Papa alemão

Joseph Ratzinger não pediu desculpas à Alemanha pelos crimes cometidos contra seus compatriotas. A tão esperada retratação pública pelos recentes escândalos nunca veio.

No país onde nasceu, Bento XVI começa a colecionar rejeição. Na mídia, o assunto “renúncia” é cada vez mais discutido. Mas a Igreja ainda tem fôlego. São pessoas de fé inabalável que defendem que a culpa seja dos agressores, e não da instituição.

“Quando vou à igreja vou com fé em Deus, e não nos padres. O que eles fazem não me diz respeito, cada um vai pagar a sua conta” declarou Dúnio Silva, 25 anos, nascido em Portugal e criado na Alemanha.

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Alemanha: disque-denúncia contra Igreja é inundado de ligações e preocupa população

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