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Friso Gentsch/Efe (24/04/2010)

Um protesto realizado no último sábado (24/4) na Alemanha reascendeu a polêmica discussão sobre o uso da energia atômica. Mais de 120 mil pessoas se reuniram para pedir o fechamento das usinas nucleares em atividade no país.

Os manifestantes formaram uma “corrente humana” ao longo de 120 quilômetros e de mãos dadas contornaram três usinas nucleares nos arredores de Hamburgo (FOTO ACIMA). Dois dias depois da mobilização, o tema ainda é destaque nos principais noticiários alemães. Os organizadores do protesto tentam pressionar o governo para que o ciclo de vida das usinas nucleares na Alemanha seja interrompido o mais rápido possível.

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Durante as eleições legislativas do ano passado, conservadores e liberais – partidos que formam a atual coalizão – haviam se comprometido a ampliar os esforços do governo para acelerar o processo de fechamento das usinas.

Passados alguns meses das eleições, a chanceler Angela Merkel admitiu que pretende prolongar o funcionamento das usinas por mais 28 anos, em razão da falta de alternativas energéticas viáveis num curto prazo. Desativar as usinas atômicas está na legislação da Alemanha. A expectativa era de que, até 2020, o país estivesse completamente livre da energia nuclear.

Kay Nietfeld/Efe (24/04/2010)



Corrente humana é formada ao redor de usina em Brokdorf, no norte

“Se o governo não cumprir com a promessa de acelerar a desativação das usinas, os protestos serão cada vez maiores e cada vez mais frequentes. Não vamos parar de pressionar. Mais de dois terços da população quer o fim da atividade nuclear da Alemanha, isso não pode ser simplesmente ignorado”, afirmou Luise Neumann-Cosel, uma das organizadoras do protesto

A sombra de Tchernobil

O protesto do final de semana  foi programado para acontecer dois dias antes da tragédia de Tchernobil – o maior acidente nuclear da história. Em 26 de abril de 1986, uma explosão dentro de uma usina, na cidade ucraniana de Tchernobil, provocou a morte de quase 10 mil pessoas, que foram contaminadas pelos efeitos da radiação.

“As nossas usinas ficam em áreas de grande densidade populacional. Um tipo de acidente como o de Tchernobil provocaria uma catástrofe ainda maior, não só na Alemanha como em toda a Europa. Não se pode ignorar os riscos”, disse Jana Schütte, estudante de 25 anos, presente ao protesto.

Em 2007, um incêndio na usina nuclear de Krümmel, perto de Hamburgo, deixou a população em pânico e fez aumentar a rejeição contra essa fonte  energética.

Dependência e contras

De todos os países da Europa, a Alemanha é o país que mais se destaca na utilização de energias renováveis – 11% de toda força gerada no país vem de fontes alternativas, como a energia eólica, térmica e a biomassa. Mas as usinas ainda são responsáveis por 26% da energia produzida no país, sendo essa a segunda maior fonte. A principal é o carvão.

Em outras nações do continente, como a França, a situação é bem diferente. O governo parisiense construiu toda a base energética do país no nuclear. Segundo a AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica), mais de 75% de toda a energia gerada no país são de origem atômica.


Mariana Aldano/Opera Mundi


Para o coordenador de engenharia nuclear do Eco Instituto de Darmstadt, Cristian Küppers, a energia atômica tem sido alvo de preconceito na Alemanha, não pelos seus reais efeitos, mas em razão de mitos alimentados por instituições ambientais e até mesmo pela mídia.

“A probabilidade de um outro incidente como o de Tchernobil acontecer é remota. As pessoas têm tratado as usinas como uma bomba-relógio que pode explodir a qualquer momento, isso é absolutamente irreal”, afirmou ao Opera Mundi, referindo-se ao fato de que reatores no modelo da ucraniana, sem os edifícios de contenção, já foram desativados.

Além disso, diz o cientista, estudos colocam a geração de energia em usinas nucleares entre as atividades industriais mais seguras do planeta. Ele lembrou que a indústria do carvão já fez muito mais vítimas do que todos os incidentes nucleares da história.

Küppers reconheceu que o lixo nuclear é sim uma questão que deve ser observada de perto, mas minimiza os riscos. “O lixo nuclear produzido por uma usina não é pior do que outros tipos de dejetos, como uma 'pedra de granito'. É preciso sim buscar uma solução melhor para o lixo – o que já tem sido feito. No entanto, encerrar o ciclo da energia nuclear seria um erro e as pessoas que hoje protestam vão pagar caro por isso num futuro próximo”, reforçou.

Pioneirismo

A tecnologia nuclear que hoje possibilita a geração de energia foi descoberta por um alemão. Em janeiro de 1939, o químico Otto Hahn anunciava o sucesso dos testes que comprovavam a fissão nuclear. Foi a partir da descoberta de Hahn, por exemplo, que os estadunidenses construíram a bomba atômica, arma usada sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagazaki na Segunda Guerra Mundial.

Os estudos em busca de geração de energia começaram poucos meses depois, e continuaram após o início da guerra. O setor tinha apoio do governo nazista de Adolf Hitler.

Mas foi a Inglaterra, em 1956, que a primeira usina nuclear com fins comerciais foi inaugurada. A Alemanha entrou na era da energia nuclear quase uma década mais tarde. As atividades comerciais da usina de Biblis – a primeira do país – só começaram em agosto de 1975.

Brasil

A primeira usina nuclear do Brasil começou a operar comercialmente em 1982. Angra 1 foi comprada de fornecedores estadunidenses, sem transferência de tecnologia.

Foi um acordo com a Alemanha, em 1975, que permitiu que o Brasil fizesse parte do seleto grupo de potências nucleares. O Tratado de Cooperação Nuclear, assinado em Bonn, determinava que o Brasil teria disponível toda tecnologia alemã para o desenvolvimento do setor.

A usina Angra 2 começou a funcionar em 2000, sendo hoje considerada uma das mais bem equipadas do mundo. Angra 3, que já está praticamente pronta, será uma réplica de Angra 2, construída  a partir da tecnologia alemã.

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Alemães protestam contra energia nuclear, mas governo mantém projetos

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