Aldeia natal de Saramago pretende criar roteiro turístico sobre autor
Aldeia natal de Saramago pretende criar roteiro turístico sobre autor
Além das inúmeras homenagens feitas a José Saramago em vida – estátua, fundação, nome de rua e de biblioteca – Azinhaga, sua aldeia natal, planeja adicionar um roteiro turístico com base na obra do escritor, falecido no dia 18 de junho. “Serão os caminhos de Saramago” diz Vítor Guia, subprefeito da região.
A aldeia localiza-se a aproximadamente 100 km de Lisboa, possui 2.000 habitantes, o Mercado fecha na hora do almoço e as bicicletas não precisam de cadeado. Nos finais de semana, não há transporte público para percorrer os 7 km que a separam da cidade à qual pertence, Golegã, capital portuguesa do cavalo. A praça é o centro.
Nela, um Saramago talhado em bronze passa o dia rodeado de companhia. Maria Adelaide Gonçalves, 66 anos, chega curiosa com a sirene do bombeiro. “Não li os livros dele, são muito eruditos”, diz. “Famoso mesmo era o tio dele, Cláudio, que vivia fazendo festa pelas ruas.”
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Do escritor, que foi para Lisboa ainda bebê, poucos lembram do menino que visitava a avó nas férias – “a Zefa, que criava porcas”, diz um. A maioria o vê como o filho famoso que quebrava o cotidiano quando aparecia. “Ele veio duas ou três vezes, mas nunca cheguei perto. Ficava toda gente em volta”, dizem Patrício Nini Vasslo, 73 anos, e Custódio Jorge, de 82. Era para ter acontecido de novo no último sábado, na primeira noite do Festival Sete Sóis Sete Luas, apadrinhado pelo escritor e levado à aldeia por ideia dele.
Vitor Sorano
Praça de Azinhaga
Saramago estaria presente na inauguração de uma exposição em sua homenagem, baseada no livro Pequenas Memórias, que escreveu sobre sua infância. Com a ausência, o assunto das conversas dos azinhagueiros eram os inúmeros painéis com imagens de burros de uma instalação artística do italiano Olivier Toscani, também parte do festival.
“Fizemos questão de manter exatamente como havia sido planejado, é a melhor forma de homenageá-lo. Ele queria fazer uma oferta à sua aldeia natal”, diz Marco Abbondanza, diretor do projeto que promove a cultura periférica alicerçado na obra e nas ideias do escritor. Do amor dos personagens Baltazar Sete Sóis e Blimunda Sete Luas, contados em Memorial do Convento, extraiu-se a ideia do “o amor entre as diversas culturas”, afirma o diretor.
A passarola – máquina voadora inventada pelo Padre Bartolomeu de Gusmão em 1709, outra história do livro – trouxe a celebração da razão do homem. Já a proposta de criar uma união das culturas do sul em oposição ao domínio cultural anglo-saxônico remete à imagem do destacamento da Península Ibérica do Continente Europeu, que o escritor relata em Jangada de Pedra. Azinhaga é a menor das 25 pequenas e médias cidades de 10 países onde o evento ocorre neste ano.
SARAMAGO TURÍSTICO
É de Pequenas Histórias que sairão os Caminhos do Saramago. “Queremos retirar do livro o percurso que ele fazia quando vinha de férias a Azinhaga e assinalar os pontos com excertos, gravados em madeira ou acrílico. Os locais são bonitos e é uma forma de trazer o turista e de as pessoas terem um mapa para poderem seguir.”, comenta o subprefeito.
O plano é inaugurar em um dos aniversários do escritor – o de nascimento ou de morte – ou da Fundação José Saramago, criada em 2008. Essa ideia começou há uns dois anos e estava previsto que no dia da inauguração, Saramago percorresse o trajeto de charrete.
A junção das imagens do escritor e da aldeia começou, antes do Nobel, em 1988, quando o que é hoje uma tímida ruela ganhou seu nome, segundo Guia. “É a mais importante de todas. Mostra que os moradores tinham carinho e admiravam Saramago.” Em 1998, quando o escritor recebeu o prêmio por Memorial do Convento, uma placa foi colocada pela organização local em frente onde ele teria nascido. A casa não existe mais.
Em 2002 foi inaugurada a biblioteca que leva seu nome. O processo se acelerou, porém, a partir de 2006, depois que Guia se tornou presidente da Junta e, afirma, houve um estreitamento da relação do escritor com a administração da aldeia. Em 2006, Saramago lançou o livro Pequenas Memórias em Azinhaga. “Enchemos um pavilhão com 2.000 pessoas. Na dedicatória, ele colocou: “ao amigo Vítor Guia, a quem fiquei a dever um dos dias mais felizes da minha vida'”. Em 2008, uma das maiores e mais importantes ruas da aldeia foi batizada com o nome de Pilar del Río, companheira de Saramago, se encontrando com a do escritor o que ele considerou como um novo casamento. No mesmo ano, foi inaugurada a Fundação José Saramago, na praça.
Simone Cunha
Além de homenagear o escritor e dinamizar a cidade culturalmente, a conexão com a aldeia traz ganhos econômicos, mas que só aparecem na conversa quando se pergunta por eles. “Posso lhe dizer que, ainda nesse sábado, esteve um grupo de 40 a 50 pessoas para ver a biblioteca, foram nos cafés, esplanada, acabaram por fazer comércio e fazem movimentar a aldeia em volta do Saramago.”
Dias assim são exceção, mas não raros. Segundo Ana Maria Hughes, funcionária da fundação, os dias em que só há visitas de usuários de internet gratuita contrapõem-se aos que recebem excursões de professores e moradores de cidades vizinhas. Além dos computadores – procurados por crianças e idosos –, a fundação tem uma livraria, uma biblioteca para consulta no local e uma sala onde a cama dos avós de Saramago está guardada junto com fotos do escritor e artigos de época, para compor o ambiente.
Chamam-no Casa Museu. “As pessoas que seguem a obra dele sabem que não é a casa original, mas os que vêm por curiosidade pensam que é a casa onde ele nasceu.” Na sua impressão, desde a morte o movimento subiu “um pouquinho”.
Azinhagueira, saiu também quando nova da cidade. “Sempre me lembro de meus pais dizerem que o Saramago nasceu aqui. Desde pequenita.” Embora tenha encontrado com o escritor diversas vezes, lamenta que a movimentação que o acompanhava nas visitas a impediu de agarrar uma conversa mais longa. “Não tive a oportunidade de lhe perguntar sobre algumas personagens de sua obra.”
GRANDES MEMÓRIAS
“Já disse tudo o que tinha a dizer para os jornalistas”, diz, logo ao abrir a casa, Otelina Nunes, de 86 anos, indicada como uma das únicas moradoras a ter convivido com escritor antes da fama. Fala do amigo de infância no presente, chama-o de Zé. No sábado (10/07), diz, deixou de lado pela primeira vez o preto que usava desde a morte de Saramago e colocou uma blusa vermelha.
Triste com a notícia do falecimento, com dores no joelho, o marido mal e o neto fazendo aniversário, ela foi levada para ser fotografada junto à estátua. “Minha casa ficou cheia, tiraram todas as recordações que guardo numa caixa e espalharam tudo por aqui em busca de um foto dele no barco que eu o emprestava.” O nome do Zé, segundo Otelina, foi usado até por golpistas que lhe tentavam empurrar tapetes pretensamente persas. “Chegou um homem dizendo que queria deixar comigo um presente para o Zé. Entrou, sentou, conversou muito, depois foi ao carro e voltou cheio de tapetes, pedindo 50 euros.”
Simone Cunha
A amiga relembra o escritor com recortes do jornal local
Dona Otelina viu várias fases do escritor e do ser humano José Saramago e não separa os dois na hora de falar. As histórias vão das paixões da adolescência até o amor por Pilar, das conversas que tinham na casa dos pais até as discussões sobre religião, do amor do menino pelo rio Almonda, que banha a aldeia, até a importancia que ele passou a ter em Azinhaga depois do Nobel.
A artísta plástica Teresa Chàfer, que realizou um trabalho com outros dois escultores para a exposição, conclui “Acho que essa paz que se respira em Azinhaga alimentou Saramago.”
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