Domingo, 10 de maio de 2026
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Para o economista equatoriano Alberto Acosta, o levante das forças policiais ocorrido no Equador em 30 de setembro – que culminou com a retenção do presidente Rafael Correa em um hospital e a posterior tentativa de assassiná-lo – parece ter sido premeditada. Em entrevista ao jornal brasileiro Brasil de Fato por correio eletrônico e publicada nesta quinta-feira (7/10), ele destaca que várias ações simultâneas, como protestos em quartéis e tomadas de aeroportos, reforçam tal suspeita.



De acordo com Acosta, ex-ministro de Energia e Minas do governo Correa e ex-presidente da Assembleia Constituinte, a insatisfação de policiais e alguns setores militares com a lei de serviços públicos foi “aproveitada e exacerbada por uma direita golpista que se opõe ao governo”. Segundo ele, há fortes indícios, inclusive, do envolvimento do ex-coronel e ex-presidente Lucio Gutiérrez, destituído da presidência em 2005, após levante popular.



Para Acosta, no entanto, o mal estar com a gestão Correa é generalizado entre as forças populares, devido, principalmente, à “prepotência” do mandatário. “Se o governo continuar com essa postura pouco democrática, fechando o diálogo com organizações sociais, criminalizando os setores populares e não escutando as diversas opiniões da sociedade, temo que esse tipo de acontecimento possa se repetir”, alerta.



Leia, a seguir, a entrevista com Acosta ao Brasil de Fato:

Quais são as raízes do ocorrido no dia 30?

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À primeira vista, parece que foi simplesmente um motim de um grupo de policiais e alguns soldados, que se sentem afetados por alguns ajustes previstos na lei de serviço público. Segundo eles, policiais e militares seriam prejudicados porque algumas bonificações são eliminadas.

O senhor está de acordo com o ponto de vista de Rafael Correa, de que tal rechaço à mudanças na lei de serviços públicos foi um pretexto para uma tentativa de golpe de Estado?

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Tudo indica que esse foi o detonador do problema. O grave é que, na realidade, segundo o governo, policiais e militares sairiam beneficiados porque se, por um lado, as bonificações foram eliminadas, o salário aumentou substancialmente. Isso indica que, por um lado, faltou informação oportuna de parte das autoridades oficiais, e, por outro, esse mal estar, infundado ou não, foi aproveitado e exacerbado por uma direita golpista que se opõe ao governo.

E o que o senhor pensa a respeito das especulações de que o ex-presidente Lucio Gutiérrez (destituído em 2005, após revolta popular) esteve por trás do incidente?

Existem muitos pontos ainda pouco claros no ocorrido. É estranho que a oficialidade não tenha tomado nota do mal estar existente. Onde estiveram os serviços de inteligência? Ou estes também estavam em complô, mas se escondiam para não serem levados a julgamentos especiais? Há poucos dias, um grupo de líderes estudantis irrompeu no seio da Assembleia Nacional, que está localizada em um edifício muito bem custodiado e de relativamente fácil defesa. Talvez isso tenha sido possível porque membros da polícia estavam comprometidos. No dia 30 de setembro, em pouco tempo, pôde-se ver que a rebelião policial havia sido preparada com antecedência. Foram vários os quartéis, em todo o país, nos quais, simultaneamente, os policiais se amotinaram. Também, em vários recintos militares, como o Ministério da Defesa, soldados protestaram. Dois aeroportos chave foram bloqueados: Quito e Latacunga; lá, os soldados seguravam cartazes claramente elaborados com antecedência. A Assembleia Nacional foi fechada pela polícia e os parlamentares da base do governo eram impedidos de entrar quando tentavam organizar uma resposta de defesa à democracia a partir do poder legislativo; enquanto isso, os parlamentares do Partido Sociedade Patriótica, do ex-coronel e presidente Lucio Gutiérrez, entravam tranquilamente. Devemos lembrar que o partido de Lucio está conformado por um bom número de ex-policiais e ex-militares. E, junto aos sublevados ativos, registrou-se a presença de vários policiais e militares da reserva.


A jornalista Eva Golinger escreveu que a polícia equatoriana “está profundamente penetrada pelos EUA”. Isso é verdadeiro? Em que medida isso foi decisivo para a rebelião?

Um golpe de Estado bem-sucedido contra o presidente Correa teria sido, sem dúvida alguma, proveitoso para interesses dentro e fora do país. Por exemplo, em Washington não devem estar muito felizes pelo fato de Correa, cumprindo o mandato constitucional, encerrou a presença de tropas estadunidenses na base de Manta. Também é verdade que, até há pouco tempo, várias unidades da polícia eram financiadas e controladas diretamente pela embaixada dos EUA. Do mesmo modo, são muitos os oficiais desse setor da força pública e das Forças armadas que receberam instruções em escolas militares estadunidenses. No entanto, para se chegar a conclusão de que foi um golpe organizado fora do país, seria preciso termos mais informações. No momento, acho que não precisam mais programar algo assim, pois têm enraizados no Equador distintos agrupamentos políticos, econômicos e, inclusive, armadas, com capacidade de cumprir com os desígnios do Império, sem necessidade de que este ordene expressamente.


E o que se pode dizer em relação ao financiamento da USAID e do NED a organizações equatorianas? Eva Golinger diz que há, inclusive, fundos para setores ou membros de algumas organizações indígenas, como a Conaie e o Pachakutik.

Esta jornalista está realmente equivocada, pelo menos nesse ponto. O que pretende com essa afirmação? Fazer crer que o movimento indígena é financiado pelas entidades citadas? Nesse aspecto, ela demonstra um desconhecimento da realidade nacional. O pronunciamento de um dirigente do Pachakutik a favor do golpe não significa que o movimento indígena o apoiou.

O senhor acredita que o ocorrido é um sintoma da perda de apoio de Correa em alguns setores da população? Quais seriam as razões dessa perda?

Existem outras explicações para entender o ocorrido no dia 30 de setembro. Para começar, a prepotência do governo, que começa a cobrar a fatura. O presidente e seu governo não sabem dialogar. Não respeitam as posições contrárias. Muitas vezes, as atropelam. Impõem leis, inclusive, sem respeitar as opiniões dos parlamentares de sua própria bancada. Foram tomadas decisões políticas e aprovadas leis – apoiadas por Correa – que vão contra a Constituição de 2008. Há vários mal estares simultâneos. Além dos policiais militares, estão descontentes os trabalhadores públicos, estudantes e professores universitários, mineiros, camponeses que se opõem à grande mineração, indígenas e sindicalistas, entre outros setores populares. O grave é que a prepotência do governo, somada à resistência das oligarquias a perder seus privilégios, explica este ambiente de intolerância em que vivemos. Se o governo continuar com essa postura pouco democrática, fechando o diálogo com organizações sociais, criminalizando os setores populares e não escutando as diversas opiniões da sociedade, temo que esse tipo de acontecimento possa se repetir.

Correa perdeu apoio de parte de sua base na Assembleia. Por quê?



O governo não tem maioria absoluta na Assembleia. Conta com 54 de 124 parlamentares. Em Montecristi, quando a atual Constituição foi elaborada, o movimento governista teve 80 de 120 cadeiras. Os principais problemas nesse campo surgiram por sua incapacidade de dialogar e construir coletivamente um cenário de expectativas compartilhadas com as forças sociais que vêm lutando há décadas por mudanças radicais no país. Isso explica por que o governo do presidente Correa se encontra órfão do respaldo dessas forças. No dia 30, houve, inclusive, alguns grupos de esquerda que aplaudiram o levante policial, como o MPD (PCMLE), alguns sindicatos de trabalhadores públicos e certas agrupações estudantis. Enquanto que outras organizações, como a Conaie, a maior e mais importante matriz do movimento indígena, condenou a tentativa de golpe e convocou a defender a democracia no marco da Constituição, mas não se somou à defesa ativa do governo.


Como a população em geral vem reagindo à atual situação?

É difícil saber neste momento qual é o sentimento majoritário da sociedade. Pessoalmente, acho que prima um ambiente de grande tristeza e frustração pelo acontecido. Podem-se encontrar todas as explicações possíveis, mas nenhuma justificativa. Portanto, rechaçando qualquer tentativa golpista, devemos entender que é indispensável a construção democrática de uma sociedade democrática.





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“A rebelião policial foi preparada com antecedência”, acusa ex-ministro de Correa

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