Sábado, 11 de abril de 2026
APOIE
Menu

 

Todo dia é a mesma rotina. Adrian Massini, 77 anos, salta da cama às quatro horas da manhã, veste um colete azul e uma boina antes de ir ao Mercado de Liniers, a maior feira de gado da Argentina. Procura ser sempre um dos primeiros para assistir à chegada dos rebanhos. Em seguida, toma um café e aguarda o início do leilão. Com 66 anos de experiência, é o mais antigo comprador de gado do mercado.

Um sino badala: é o sinal de que o vendedor, chamado de “consignatário”, está chegando a seu estande. O ritual se repete várias vezes por dia. O “consignatário” percorre um corredor estreito, com vista para as trinta fileiras de currais cheios de vacas e bois à venda. Quando o sino se cala, o leilão pode começar. É uma corrida. Uma multidão de compradores caminha atrás do vendedor, enquanto veteranos como Massini preferem ficar montados em seus cavalos. Basta levantar um dedo para aumentar a aposta. Uma pressão enorme para os compradores.

“Na verdade, o trabalho se tornou difícil. Antes, não era tão corrido, 30 mil animais eram vendidos por dia. Para nós, os compradores, era bom, dava para escolher. Agora, quando chegam 10 mil animais ao mercado, já é um grande dia”, conta Massini, ajustando a boina. Quando perguntado sobre o motivo, o senhor encolhe os ombros: “Não sei. A política e a economia mudaram tudo. É outro mundo. Não entendo o que está acontecendo”, diz o veterano, apontando para dezenas de currais vazios ao seu redor.

Massini sente saudades de outros tempos. Ele se lembra das fazendas enormes, onde pastava o gado sob a proteção do “gaúcho”, o mítico cowboy argentino. Ele não está sozinho. Todos os domingos, dezenas de nostálgicos reúnem-se na Feira de Matadores, na rua vizinha ao mercado de Liniers, em torno de uma estátua do gaúcho. Eles assistem danças folclóricas de todas as regiões argentinas e comem o famoso “choripan” – um sanduíche com lingüiça –, tomando um gole de mate. Mas todos sabem que constituem uma minoria. O gaúcho que a festa comemora não existe mais. Pouco a pouco, as fazendas tradicionais desaparecem, por falta de rentabilidade. 

Veja vídeo de danças folclóricas feito pela nossa reportagem:

Hoje, a nova tendência é o “feed-lots”, a criação intensiva. Dezenas de animais ficam amontoados em currais minúsculos, para engordarem em tempo recorde. Há muito tempo a pecuária adquiriu essa forma na Europa e nos Estados Unidos, mas na Argentina, é uma revolução. Juan Carlos Eiras, um dos primeiros a abandonar a criação tradicional, em 1992, ainda se lembra da desconfiança dos colegas. Hoje, ele é o dono de um “feed-lot” de 8 mil cabeças de gado, em Magdalena, cem quilômetros ao sul de Buenos Aires.

“Ainda existe uma enorme resistência cultural por parte dos produtores, que acham que a carne argentina tem que ser o resultado de um pasto natural”, conta. Ele não tem paciência. Nos “feed-lots”, os custos de produção caem drasticamente, tal como os riscos. Na criação tradicional, um animal que pasta leva em média 30 meses para chegar ao peso de abate. Na sua empresa, o tempo cai para 12 meses, 14 no máximo.



Mercado de Liniers: oferta caiu e o trabalho dos compradores ficou mais difícil



Imune ao clima

A economia de espaço também é significativa. Antes, um animal tinha um hectare para si. Agora, 15 metros quadrados. Os caprichos da meteorologia não são mais um problema, como explica Eiras. “No ano passado, a Argentina passou por uma terrível seca. Em fazendas tradicionais, muitos animais morreram por falta de alimento. Eu não tive nenhum problema, dei aos rebanhos a ração de grãos e vitaminas todos os dias. Os animais têm crescido a um ritmo normal”, lembra.

Em sua cruzada, Eiras encontrou aliados preciosos: os supermercados. “Ao contrário dos açougues tradicionais, os supermercados precisam vender peças idênticas. Essa padronização da carne é impossível na natureza: cada animal come segundo seu apetite, ou segundo a qualidade do pasto. No entanto, aqui conseguimos produzir carcaças de bovinos praticamente idênticas”, justifica. A mudança do setor pecuário é muito rápida. Em 2003, eram apenas 100 os produtores a seguirem o exemplo de Juan Carlos. Hoje, são mais de 2 mil, que produzem 40% da carne argentina.

A outra explicação para a mudança está na concorrência com a agricultura. Desde o início da década, o preço dos cereais – como soja, trigo e milho – aumentou 300%. É o resultado da explosão da demanda mundial, particularmente da China e da Índia. A paisagem mudou: os lugares onde os rebanhos pastavam são agora cobertos por enormes tapetes verdes, a maioria de soja. Entre 2003 e 2008, 11 milhões de hectares passaram da pecuária para a agricultura. “Para se adaptar, uma parte dos produtores colocou seu gado em um campo pequeno, enquanto a outra abandonou a atividade para se dedicar à agricultura”, explica Eiras.

Isso provoca o temor da falta de gado. Durante muito tempo, a Argentina foi o primeiro exportador mundial de carne; agora, é o sétimo. A maioria da produção (85%) é consumida pelo mercado interno. O estoque de 55 milhões de bovinos não cresce mais. “Atualmente, os animais sacrificados não são substituídos, o que significa que a produção diminui ao longo do tempo, elevando o preço da carne. Isso pode provocar um problema político sério”, acredita Cristian Bianqui, vice-presidente da Aprocaboa (Associação de Produtores de Carne Bovina Argentina).

Para garantir que a produção de carne não diminua, o governo introduziu subsídios para os “feed-lots”, acelerando assim o desaparecimento da fazenda tradicional. O objetivo é continuar a fornecer carne barata para o mercado interno, muito voraz. Cada argentino consome anualmente em média 70 quilos de carne, um recorde mundial.



Apetite por carne: para atender à grande demanda, o governo subsidia a produção

Leia também:

Segunda parte – “Rei da soja” não possui um hectare sequer, nem máquinas

Terceira parte – Disputa entre governo e agronegócio teve lances de tragédia grega

A luta da tradicional pecuária argentina para resistir ao avanço da soja e outros cereais

NULL

NULL

NULL