Domingo, 10 de maio de 2026
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Quem teve a oportunidade de visitar a exposição Zanele Muholi: Beleza Valente, no Instituto Moreira Salles (IMS), em São Paulo, pôde prestigiar o trabalho de uma fotógrafa e ativista visual – ela despreza o termo “artista visual”, em prol de uma arte realmente militante –, que viveu um duplo caráter de opressão durante o Apartheid, em vigor na África do Sul entre 1948 e 1994. Não foi apenas a identidade negra que sofreu nas mãos do regime segregacionista, identidade essa que representava no país mais de 80% da população. Várias leis foram implementadas para reprimir o que eles consideravam como “doença mental”: a homossexualidade, e outras configurações de gênero e sexualidade que fugiam à regra da heteronormatividade.

Sabe-se que os Khoekhoe, povo indígena da hoje África do Sul, mantinham relações que, hoje, podemos categorizar como não-normativas. Alguns termos de hoje podem não se aplicar ao contexto e à temporalidade da África do Sul da época, mas, concretamente, as relações homossexuais eram parte da cultura desse povo. Com a colonização e a introdução do cristianisno no país, essas formas de relação – prefiro não utilizar o termo identidade, para não soar anacrônico –, logo foram tratadas com a mais pura violência. Na esteira desse processo, a organização sul-africana Find New Words, dentre outras iniciativas, busca criar e registrar palavras e termos africanos que possam exemplificar as diversas identidades de gênero existentes no continente, como  Tshelabong (), Gabane (), Qhawekhazi (), entre outras.

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Voltando ao apartheid, foram vários os momentos de repressão, como no Forest Town Raid, em 1966; a Immorality Amendment Act (Lei de Emenda à Imoralidade), de 1969, que criminalizava “atos sexuais” cometidos por homens em festas; e o The Aversion Project (Projeto Aversão) que, entre 1971 e 1989, realizou uma série de castrações químicas e tratamentos de aversão elétrica, com o objetivo de “curar” civis e militares sul-africanos da homossexualidade. Mas foi o fim do apartheid e a ascenção de Nelson Mandela à presidencia do país – e, claro, a resistência de organizações LGBTQIAPN+ nas ruas do país –, que possibilitaram uma série de mudanças que colocaram a África do Sul como uma das vanguardas pela igualdade de gênero. Em 1990, na cidade de Joanesburgo, foi realizada a primeira Parada do Orgulho LGBT no continente africano. Com a nova constituição do país, implementada em 1994, outras leis e políticas foram implementadas, em prol da igualdade de gênero, e contra a opressão concreta e ideológica – o que não mudou completamente o paradigma no país, que segue tendo enfrentamentos em organizações como, por exemplo, o Congresso de Líderes Tradicionais da África do Sul, que constantemente tenta derrubar certas garantias constitucionais para as populações LGBTQIAPN+. É dentro desse pequeno histórico que emerge o trabalho de Zanele Muholi.

Nascida em 1972, ela viveu quase duas décadas sob o regime de segregação. Em 2003, após concluir um curso de fotografia avançada em Joanesburgo, passou a registrar o dia-a-dia e a realidade de seus semelhantes. Em 2009, recebeu um título de mestrado em Toronto, Canadá, com uma dissertação que buscou mapear a história visual da identidade de lésbicas negras na África do Sul pós-apartheid. Em 2014, se tornou docente honorária de vídeo e fotografia na Universidade das Artes de Bremen, na Alemanha. Mas o trabalho de Zanele tem seu poder principal fora da academia. Seu trabalho busca desconstruir o imaginário que ligava a AIDS às populações africanas e LGBTQIAPN+, e criar novas formas de representações de gênero, fora dos padrões impostos pelo colonialismo, e consequentemente, pelas burguesias africanas – basta lembrar que, de 54 países africanos, 32 deles criminalizam populações LGBTQIAP+. O trabalho de Zanele é uma troca, e ela chama os fotografados de “participantes”, pela maneira como eles, de forma livre, podem escolher como e onde querem ser retratados. Constantemente comparada ao maior sociólogo da história dos Estados Unidos, W.E.B. Du Bois, Zanele subverte as representações típicas dos negros sul-africanos, e junto dessa liberdade que os participantes de suas fotos possuem, cria um arquivo fotografico em que o senso comum se desmancha no ar.

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De maneira documental, ela busca não apenas criar uma memória da comunidade LGBTQIAP+, mas uma memória que parta de pressupostos visuais dos próprios integrantes dessa imensa comunidade. Esse processo se desmembra em diversas séries, como Faces e fases, e abrange desde pessoas trans, lésbicas, gays, não-binárias, queers, entre outras identidades, mostrando que a luta comum contra o machismo e o patriarcado passa, também, pela memória.

Ao mesmo tempo em que a África do Sul comporta uma mesquita aberta a homossexuais, liderada pelo imã Muhsin Hendricks, alguns cientistas sociais defendem que o novo apartheid, no país e no continente, é direcionado tão somente contra as identidades LGBTQIAP+. Frente um misto de neocolonialismo e filosofias africanas que tratam a sexualidade desde uma perspectiva binária, até uma visão completamente homofóbica, o trabalho de Zanele é uma política visual que visa, no fim das contas, o fim da opressão e o direito à existência – algo que o Apartheid buscou dizimar.

(*) Marco Aurélio, mais conhecido como Marcola, é estudante de história e fotógrafo documental nas horas vagas. Escreve e pesquisa o rap, o samba e outros temas da cultura popular brasileira.