Terça-feira, 26 de maio de 2026
APOIE
Menu

Um homem é filmado, sob diversos ângulos, à beira da murada de um edifício alto – o suicídio está à espreita dele e de quem assiste ao vídeo. O homem canta um rap chamado Not Afraid – ele não está com medo, segundo repete, insistente, o refrão.

À diferença da maioria absoluta de seus pares, este rapper é branco. Chama-se Eminem e é um dos maiores vendedores de discos da história, com mais de 80 milhões de cópias computadas numa carreira discográfica iniciada em 1996.

Tudo que a grande mídia não mostra, do seu jeito.

Ícone Newsletter

Newsletter

Notícias internacionais, com análise crítica e independente. Sem filtros.
Ícone WhatsApp

Canal do WhatsApp

O mundo em movimento direto no seu celular. Informação pronta para compartilhar
Ícone YouTube

OM no YouTube

Opinião, contexto e coragem jornalística. Tudo no nosso canal. Sintonize em Opera Mundi

Na sequência de Not Afraid, o protagonista do vídeo começa a gesticular, esbravejar e vociferar, como é próprio desse gênero musical tipicamente norte-americano, e como é típico de Eminem em especial. Antes de o vídeo completar um minuto de duração, o protagonista dá um passo adiante na murada, eminente suicida.



Clipe

Mais lidas

Eminem, ou melhor, Marshall Mathers nasceu há 38 anos no estado nortista de Missouri. Descendente de escoceses, ingleses, alemães, suíços e poloneses, foi abandonado pelo pai antes de completar 1 ano, e viveu uma infância de privações que o aproximou da cultura hip-hop. Já adulto e integrado ao mainstream da indústria fonográfica, conquistou destaque único, como exceção agressiva num ambiente dominado por músicos negros.

Leia mais:

Bruce Springsteen já não canta que nasceu nos Estados Unidos

Os garotos estão mais felizes

Erykah Badu, porque a cor da pele ainda faz diferença no país de Michael Jackson e Hillary Clinton

Como convém a um garoto rebelde e a um artista que optou por tal gênero musical, fez fama e sucesso em cima não apenas de sua arte, mas também de polêmicas em série. Seus raps usam e abusam de provocações, não raro agredindo verbalmente colegas como Moby, Christina Aguilera e Michael Jackson. Esse último foi parodiado e ridicularizado por Eminem em Just Lose It (2004), que moveu o gênio soul Stevie Wonder a criticá-lo por “chutar um homem caído”.

Outro alvo da ira “eminemiana” foi George W. Bush, tratado no rap Mosh como “essa arma de destruição em massa que chamamos de nosso presidente”. A música foi lançada na semana anterior à reeleição de Bush, em 2004.

Antes, em 2003, Eminem havia sido investigado pelo Serviço Secreto norte-americano por ameaçar o presidente, nos versos de We As Americans: “Foda-se o dinheiro/ eu não rimo para presidentes mortos/ prefiro ver o presidente morto/ isso nunca é dito, mas há precedentes”.

A rebeldia do rapaz se manifesta por vias bem mais sombrias e perigosas. Com mais intensidade nos primeiros anos de sucesso (e antes de apontar dedo acusador moralista para Michael Jackson), Eminem causou repulsa explícita devido ao conteúdo frequentemente misógino, homofóbico e violento de suas letras. Nesse bojo, rimou o desejo de assassinar a própria esposa e foi processado pela mãe devido ao modo, digamos, desrespeitoso de tratá-la em seus discos. 

Se sempre houve quem protestasse contra seu veneno misógino e homofóbico, é preciso relembrar que, na contramão, esse homem à beira do precipício vendeu 80 milhões de cópias – uma aprovação silenciosa daquilo mesmo que horroriza uns poucos barulhentos? Seria Eminem um artista violento e preconceituoso, feito sob medida para um público preconceituoso e violento? Quem nasceu primeiro? Bush, Eminem ou os apoiadores de ambos?

O fato é que o rol de atos do homem à beira do precipício inclui ainda uma tentativa de suicídio documentada em 1996 e internações em clínicas de reabilitação por abuso de álcool, drogas e remédios para dormir (a insônia é uma das muradas onde esse artista tenta repousar).

Tudo isso integra Eminem ao rol dos popstars autodestrutivos indomáveis dos Estados Unidos atuais, à moda de Britney Spears ou Amy Winehouse. De volta ao vídeo de Not Afraid, o semblante fechado do músico, o tom dramático da melodia e a atmosfera soturna do cenário no qual ele estrebucha completam a moldura do quadro.

As ameaças suicidas prosseguem, conforme o protagonista surge atravessando uma rua em meio a trânsito intenso, ou preso num jogo labiríntico de espelhos que acaba quebrando com os pulsos.  O pulo se consuma lá pelo terceiro minuto: ele se joga no vazio da cidade que se interrompe num abismo – mas não morre, porque se põe a voar, feito super-herói.

Um climão melodramático reveste o rap choroso de Eminem, como de resto acontece também em detalhes menores ou maiores da pop music de Britney, Amy, Robbie Williams ou Lady Gaga. Os super-heróis suicidas desesperados são os donos da feroz indústria musical norte-americana nestes anos pós-11 de setembro. Mas, ora, por que seriam suicidas atormentados, se são super-heróis acima das dores terrestres? Ou, antes, como são heróicos e superpoderosos, se padecem de tanto desespero e sofrimento?

Siga o Opera Mundi no Twitter

Quem nasceu primeiro? Bush, Eminem ou seus apoiadores?

NULL

NULL

NULL