Quando 'A Era do Wikileaks' começou, há um ano, com o 'Assassinato Colateral' no Iraque
Quando 'A Era do Wikileaks' começou, há um ano, com o 'Assassinato Colateral' no Iraque
A terça-feira (03/05) marcou exatamente um ano desde que o Wikileaks,
que existia há três anos mas só obtinha atenção esporádica nos Estados
Unidos, causou comoção mundial com a divulgação de seu vídeo Collateral
Murder (Assassinato colateral), que mostrava a morte de civis
iraquianos, incluindo dois funcionários da Reuters, em ataques de
helicópteros norte-americanos. Este seria o primeiro de quatro
importantes vazamentos do WikiLeaks nos meses subsequentes – os outros
foram os “dários de guerra” do Iraque e do Afeganistão e o escândalo dos
telegramas, todos supostamente passados pelo soldado Bradley Manning,
ainda preso em regime de semi-isolamento em uma cela em Quantico.
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Assim, recapitulemos como o Collateral Murder – e O Ano do WikiLeaks
– se tornaram realidades. Um trecho de meu novo livro, Bradley Manning:
Truth and Consequences (Bradley Manning: verdade e consequências).
O primeiro sinal do que estava por vir surgiu no início do ano,
quando o WikiLeaks, por meio do Twitter, fez um pedido público de ajuda
para decodificar um vídeo descrito como “ataques a bomba dos EUA contra
civis”. Por algum motivo, o grupo sugeriu o dia 21 de março como uma
possível data de divulgação.
A organização, no entanto, lutava por financiamento. Julian Assange,
de 38 anos, havia pedido doações para que pudesse preparar o que
descreveu como centenas de milhares de páginas de documentos
relacionados a “bancos corruptos, o sistema de detenção dos EUA, a
guerra no Iraque, a China, a ONU” e outros temas. Uma fundação alemã
supostamente providenciou cerca de 1 milhão de dóalres para a conta do
WikiLeaks, abrindo o caminho para um 2010 bastante movimentado.
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Intrigado com as atividades do WikiLeaks, o jornalista da revista
New Yorker Raffi Khatchadourian enviara um e-mail a Assange, e depois
conversara com ele ao telefone, estabelecendo um certo grau de
confiança. Assange mencionou o vídeo em termos um pouco vagos. O
jornalista sabia que o vídeo se tornaria um furo se fosse divulgado. Ele
queria escrever sobre o Wikileaks de qualquer modo e, com a autorização
de seu editor, voou para a fria Reykjavik, na Islândia, no final de
março.
Khatchadourian, autor de The Kill Company (algo como “A companhia da
morte”, sobre a Operação Triângulo de Ferro no Iraque), e de um perfil
de Adam Gadahn (um norte-americano que ingressou na Al-Qaeda),
certamente foi visto por Assange como um bom homem para esse trabalho.
Em uma casa recém-alugada que logo foi apelidada de “bunker”,
Khatchadourian encontrou uma equipe de meia dúzia de voluntários que
haviam se juntado ao alto e grisalho Assange e preparavam a divulgação
do vídeo de 38 minutos feito de uma cabine de pilotagem no Iraque,
batizado de Projeto B. Assange havia dito ao proprietário da casa que
eles eram jornalistas cobrindo a erupção vulcânica que então atrapalhava
o tráfego aéreo na Europa. Ele escolhera a Islândia para a missão
secreta depois de passar algum tempo no país ajudando a redigir uma lei
com sólidas provisões em defesa da liberdade de expressão. Algumas
pessoas envolvidas naquela luta, entre elas uma parlamentar, Birgitta
Jonsdottir, agora estavam engajadas no Projeto B.
Também estava envolvido Rop Gonggrijp, um famoso hacker e empresário
holandês que conhecia Assange intimamente. Como Khatchadourian
descreveu em sua longa reportagem na New Yorker dois meses depois,
Gonggrijp “tornou-se o gerente e tesoureiro não-oficial do Projeto B,
fornecendo cerca de dez mil euros ao WikiLeaks para financiá-lo”.
O vídeo, em um disco rígido no bunker, ainda estava nos estágios
iniciais de edição. Conforme Khatchadourian escreveu mais tarde, Assange
não identificou a fonte do vídeo, afirmando apenas que a pessoa estava
infeliz com o ataque de helicóptero no Iraque.
O jornalista registrou a descrição de Assange a seus colegas sobre o
conteúdo do vídeo: “Na primeira fase, vocês verão um ataque baseado em
um erro, mas certamente um erro bastante negligente. Na segunda parte, o
ataque é claramente um assassinato, de acordo com a definição de uma
pessoa comum. E na terceira parte vocês verão o assassinato de civis
inocentes no caminho de soldados perseguindo um alvo legítimo.”
Assange trabalhava dia e noite, editando as cenas e excluindo
qualquer elemento que pudesse revelar o responsável pelo vazamento,
enquanto tentava decidir se divulgaria o vídeo completo e/ou uma versão
mais curta, com comentários, mais amigável para o espectador. O vídeo
ainda não tinha nome. Ele considerou “Permissão para Engajar” antes de
escolher “Assassinato Colateral”. O jornalista da New Yorker citou-o
dizendo a Gonggrijp: “Queremos derrubar esse eufemismo de 'danos
colaterais', para que as pessoas, sempre que o usarem, pensem em
'assassinato colateral'.”
Muito tempo se gastou analisando o vídeo em busca de indícios de
alvos iraquianos carregando lança-granadas ou fuzis AK-47. Assange
avistou aparentes armas, mas na maioria dos casos isso não foi
conclusivo. Ele desistira de pedir ajuda a especialistas militares, pois
estes não haviam sido “muito solícitos” ao saber que o objetivo era uma
divulgação pelo Wikileaks.
Quebrando o código de confidencialidade, Assange despachou dois
repórteres islandeses para Bagdá para notificar as famílias dos mortos
ou feridos no ataque, incluindo a mãe de um menino e uma menina que
estavam em uma van conduzida pelo pai. Assange queria preparar as
famílias para a atenção pública, mas também obter alguns detalhes
reveladores sobre o que acontecera naquele dia.
Assange fez uma confissão a Khatchadourian. Sim, ele tentara
“minimizar os danos” a indivíduos em seu trabalho, mas o Wikileaks não
podia gastar todo o seu tempo checando cada detalhe. Ele sabia que
alguns vazamentos poderiam prejudicar inocentes – “danos colaterais, se
você quiser” – e que um dia os membros do Wikileaks poderiam “sujar as
mãos de sangue”.
Finalmente, Assange concluiu a versão editada, com 18 minutos, que
cobria os dois primeiros ataques. Ele também usou uma citação de
abertura, de Orwell: “A linguagem política é criada para fazer com que
mentiras soem verdadeiras e o assassinato seja respeitável, e para dar
aparência de solidez ao puro vento.” A introdução também incluiria
informações sobre a morte de dois funcionários da Reuters e a
investigação do Exército inocentando tripulantes nesse evento. O vídeo
tratava da delicada questão das armas em terra observando que “alguns
dos homens pareciam estar armados [mas] o comportamento de quase todos
era relaxado”.
No bunker, Assange previu: “O vídeo mostra o que a guerra moderna se
tornou e, a meu ver, as pessoas, depois de assisti-lo, sempre que
ouvirem sobre um certo número de baixas resultantes de combates com
apoio aéreo próximo, entenderão o que está acontecendo. O vídeo também
deixa claro que civis são listados como insurgentes automaticamente, a
menos que sejam crianças, e que espectadores mortos não são sequer
mencionados.”
*Texto originalmente publicado no The Nation
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