Terça-feira, 27 de janeiro de 2026
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Para entender um fenômeno social é necessário, antes, compreender suas origens. 

Após a tragédia do 11 de setembro, a direita republicana nos EUA criou uma rede massiva de think-tanks anti-islâmicos, centrada na propagação da ideia do “Choque de Civilizações”, de Samuel P. Huntington. Segundo esta tese, a arquitetura geopolítica do novo milênio se constituiria não por meios comuns, mas por uma colisão entre o Oriente Islâmico, bárbaro, e o Ocidente cristão, “secularizado” e esclarecido. Uma das figuras centrais na propagação dessas ideias, John Bolton, teve papel chave na administração Trump e terminou demitido, foi Conselheiro de Segurança dos EUA na ONU, participando também anteriormente da administração Bush e sendo ávido na defesa da Guerra do Iraque, tendo admitido também participação no planejamento de golpes de Estado. 

Essas ideias, após anos de maturação e desgaste, chegaram ao Brasil por meio dos cursos do falecido Olavo de Carvalho, e tiveram protagonismo na atuação de Ernesto Araújo, ex-ministro das Relações Exteriores de Bolsonaro, atuando em toda a arquitetura da ideologia extremista de Pablo Marçal, postulante à prefeitura de São Paulo, o polo comercial mais importante do Brasil. Atualmente, crescem em meios pentecostais e evangélicos radicais no Brasil.

Seguem alguns trechos de seu livro, intitulado “A Destruição do Marxismo Cultural”, onde Marçal defende abertamente a violência contra muçulmanos:

“Uma das estratégias, inclusive usada por Maomé, foi a imigração em massa de Meca, onde estava sendo perseguido, para outra cidade, Medina. Após alguns anos, consolidando seu poder, Maomé reconquista Meca depois de um derramamento de sangue pouco visto na História da Humanidade! Este fenômeno é chamado de ‘hégira’ e está sendo utilizado nos dias de hoje, em escala global, inclusive com claros mecanismos de ocupação demográfica, terrorismo e doutrinação para alcançar o objetivo final do Islã Mundial (a Europa está sendo devastada e aterrorizada por este tipo de estratégia)!

Pablo Marçal (PRTB) durante entrevista ao canal TV Brasil Central.
(Foto: TV Brasil Central / Reprodução Youtube)

Enquanto isto, muitos cristãos se sujeitam à condição de ‘defensores’ da liberdade religiosa e migratória destes grupos ligados a esta ‘Religião’. O ingênuo argumento é que são populações que podem ser alcançadas através do Evangelismo. O problema é estatístico e demográfico. Ao contrário do que se prega, as taxas de conversão são mínimas e a maneira como estes imigrantes agem, blindando sua fé em guetos em todo o mundo, dificulta, e muito, qualquer projeto evangelístico. Ainda, são populações hostis e fechadas ao mundo exterior. Prova é o avanço da chamada ‘sharia’, a lei islâmica, mesmo em países ocidentais. Como afirmado, por viver em guetos, sujeitam-se aos seus costumes, língua, leis e religião, praticamente impedindo a influência da cultura ocidental e muito menos do Cristianismo. Criam um Estado Islâmico, à semelhança do que Maomé fez em Medina e depois em Meca, em um modelo de dominação milenar, simplesmente reproduzido pelos líderes religiosos respectivos ao longo dos séculos. Trabalham também em células e são muito ativos. 

A resistência cristã ao Islamismo, a exemplo do que ocorreu no período das cruzadas (século XI ao século XIII da Era Cristã), sempre se deu militarmente. Infelizmente, não há outro remédio. Ao contrário do que se apregoa, as Cruzadas foram necessárias e fundamentais para libertar a Europa da dominação islâmica e mantê-los afastados.”

Como já apontado, tais ideias não são novas, mas foram criadas em laboratório e propagadas no intuito de justificar a demonização de povos islâmicos, gestando internamente o clima para o apartheid e a segregação social, e externarmente para guerras infindas e sem sentido, que enriquecem apenas o complexo industrial norte-americano.

Tal ideologia, no entanto, possui um longo lastro de destruição, morte e genocídio por onde passa. Ainda nos anos 1990, foi utilizada para justificar o massacre de Srebrenica, na Bósnia, onde dezenas de milhares de muçulmanos foram brutalmente assassinados em pouquíssimo tempo e mulheres muçulmanas exploradas por militares sérvios como escravas sexuais. 

Em Angola, igualmente, foi instrumentalizada para justificar a destruição de mesquitas. No Myanmar, tal visão alimentou extremistas budistas que, até o momento, cometeram um dos maiores genocídios do séc. XXI, expulsando mais de 700 mil muçulmanos da etnia Rohingya de seus lares, chacinando violentamente mais algumas dezenas de milhares, enquanto o mundo assiste silencioso.

Na Noruega, o extremista Anders Breivik, que em seu manifesto propagou ideias idênticas às de Pablo Marçal, de novas Cruzadas, cometeu um massacre que matou mais de 70 muçulmanos, postando ainda vídeos no Youtube sob um perfil intitulado “Knights Templar 2083 (Cavaleiros Templários 2083)”, se autoproclamando o “Cavaleiro Templário da Noruega”.

Na Nova Zelândia, em 2019, o extremista Brenton Tarrant adentrou a Mesquita de Christchurch enquanto transmitia seu massacre ao vivo nas redes sociais. Ao todo, mais de 50 muçulmanos foram mortos enquanto rezavam. Em seu fuzil, a imagética das cruzadas, assim como a frase “Deus Vult”, podiam ser vistas, mais uma vez traçando um paralelo com as ideias defendidas por Pablo Marçal. 

Ironicamente, a direita brasileira é historicamente amigável aos povos islâmicos. D. Pedro II fez uma ampla viagem pelo território otomano, no séc. XIX, sendo um ávido orientalista, firmando o “Tratado de Amizade” com os otomanos e dando início à imigração formal de libaneses e sírios ao Brasil. 

Ainda no período do regime militar, por sua vez, todos os presidentes se posicionaram favoravelmente à Causa Palestina e à Solução de Dois-Estados para a questão, tendo Figueiredo feito inclusive um discurso na ONU que reafirmava o compromisso brasileiro com a autodeterminação dos palestinos – já que foi a aproximação com a Liga Árabe que salvou o Brasil da Crise do Petróleo. 

Marçal, por sua vez, diz que os próprios palestinos estão se matando, e que as crianças desmembradas, dilaceradas e despedaçadas que aparecem em vídeos são bonecos – já que o exército israelense possui competência e precisão milimétricas. Tudo, obviamente, motivado pela mentalidade cruzadista do Choque de Civilizações. 

Ironicamente, não é no conservadorismo brasileiro histórico que ideias semelhantes às de Pablo Marçal encontram lastro, mas no crescimento do narco-pentecostalismo, em especial das favelas controladas pelo traficante Peixão, do Complexo de Israel, da facção do Terceiro Comando Puro, no Rio de Janeiro. 

Peixão, um pentecostal extremista, tem perseguido umbandistas, candomblecistas e, mais recentemente, até mesmo católicos, utilizando fardamento idêntico ao de Israel em seus soldados do tráfico e, assim como Pablo Marçal, tem grande fascínio pelo Estado de Israel.

No Brasil, religiões minoritárias possuem um histórico de perseguição e preconceito, ora velado, ora aberto. É o caso da Umbanda, do Candomblé, dos kardecistas e também dos muçulmanos. 

Recentemente nós do História Islâmica produzimos um documentário a respeito desta perseguição, que vai desde a retórica violenta, propagada por figuras como Pablo Marçal, até casos de agressão física, motivados exatamente por este discurso, como o caso de uma irmã muçulmana que perdeu oito dentes após ser covardemente espancada. As maiores vítimas, no caso da nossa comunidade, são as mulheres, facilmente identificadas por extremistas em virtude do uso do véu. 

A pergunta que levantamos e deixamos como alerta às autoridades é: até quando esse discurso inflamatório, violento e anti-brasileiro será propagado contra nós impunemente, por figuras como Pablo Marçal, que agora se postula à maior prefeitura do país, até que surja um Brenton Tarrant ou um Anders Breivik, cometendo massacres contra muçulmanos? 

(*) Ali Abdul Hakam é muçulmano sunita, cientista político e coordenador de assuntos geopolíticos do projeto História Islâmica


Referências:
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