Não acredite em mim: quem ganha com o petróleo barato
Em setembro de 2014, barril do petróleo chegava a U$ 95,89. Quase um ano e meio depois, mesmo barril vale menos de U$ 40,00. Sinônimo de crise em todo o mundo petrolífero? Bem, nem tanto…
Busque no histórico de qualquer portal financeiro e verifique você mesmo: em setembro de 2014, o barril do petróleo chegava a U$ 95,89. Hoje, quase um ano e meio depois, o mesmo barril vale menos de U$ 40,00. Sinônimo de crise em todo o mundo petrolífero, certo? Bem, nem tanto… depende em que parte do mundo você está.
Também não é preciso concordar redondamente com este colunista para perceber que o petróleo esteve, está e estará quase sempre ligado a guerras e conflitos armados em menor ou maior escala. Olhe para uma das principais crises europeias – o fluxo imigratório – onde há quase um letreiro luminoso gritando “Síria” e “Estado Islâmico” (EI) para qualquer pessoa que pesquise apenas a primeira página de resultados encontrados sobre o tema no Google.
Assim, uma explicação para o baixo custo do óleo no mundo poderia ser uma das inúmeras tentativas de por fim aos conflitos da Síria e de refugiados e europeus, como forma de enfraquecer o EI, correto? Também não é tão simples assim. Os EUA, principal inimigo do Estado Islâmico, são, desde 2015, o maior produtor de petróleo do planeta. À primeira vista não parece, portanto, a melhor das táticas manter baixo o preço do seu próprio produto. Então, por que petróleo barato pode ser vantajoso aos ianques?
Flickr/CC

Preço baixo do barril não significa necessariamente crise em todo o mundo petroleiro
O petróleo tem sua própria organização internacional – ou cartel, depende do lado do mundo para o qual você olha – para ajudar a regular o preço do barril. O último relatório da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), datado de fevereiro deste ano, afirma que 2015 foi “um ano excepcional para a extração de petróleo”, numa tradução tão simplória que nem é preciso perder tempo estudando para lembrar que quanto mais se excede a oferta, menor o preço e, consequente, a taxa de lucro.
Além disso, sabe-se que o país de Obama coleciona desafetos. Entre eles, a Venezuela, também membro da OPEP e que, em 2015, propôs à entidade limitar as exportações e tentar segurar o preço do barril em patamares mais lucrativos. O país de Maduro é extremamente dependente de petróleo. Mas sua proposta não foi – até agora – sequer ouvida. O que levou o secretário geral da OPEP ter que vir a público negar que exista uma estratégia, que vise prejudicar Venezuela, Irã e Rússia, outros desafetos norte-americanos. {{não acredite em mim – Yahoo! Finance}}.
Aliás, Estado Islâmico, Venezuela, Irã e Rússia estão na lista dos que mais perdem com o baixo preço do petróleo. E não é preciso fazer muitas alusões aos filmes de espionagem para saber que EUA e Rússia não andam com as relações diplomáticas em alta conta.
A Rússia é a principal fornecedora de gás natural da Ucrânia. Mais do que isso, é pela Ucrânia que passam os dutos que abastecem a Europa com o gás russo. A região é, portanto, primordial aos interesses europeus e americanos. Mas, no final de 2013, um governo provisório, na Ucrânia, favorável à União Europeia (UE), acabou gerando graves conflitos e até um referendo na península da Crimeia, que aprovou sua adesão à Rússia. Apesar da reprovação ocidental, Vladimir Putin incorporou o território. Não por acaso, uma das primeiras sanções impostas pelos EUA à Rússia – segundo os americanos como resposta por “desestabilizarem a região” – foi ao maior conglomerado de defesa e tecnologia da indústria petrolífera russa (Rostec), como você pode conferir neste mesmo Opera Mundi.
Até pouco tempo, o gás exportado pela Rússia era mais barato e fácil de extrair que o gás americano (gás de xisto). Para se produzir o gás natural a partir do xisto, era preciso mais tecnologia e maior dano ao meio ambiente (pois seu invólucro e modo de extração são diferentes). Mas os EUA avançaram tecnologicamente a ponto de fazerem a extração por meio da chamada fratura hidráulica se tornar viável. Foi exatamente esse o fator que os colocou como maior produtor mundial de Petróleo, no ano passado.

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Com isso, houve uma corrida para expandir essa produção por parte das grandes petrolíferas do mundo – Chevron, Shell, e Exxon – multinacionais americanas que por mais de cinco anos investiram em projetos de exploração na Europa, China e… Rússia. Mas com as sanções norte-americanas, estas empresas começam a desistir destes projetos. E não sou eu quem vai pedir que você acredite em mim, o americano The Wall Street Journal é quem afirma, neste artigo de março de 2015.
Com a desistência das petroleiras, os países nos quais esta exploração aconteceria perdem. Assim, a baixa do preço do petróleo se torna um excelente fator para enfraquecer antigos desafetos norte-americanos, como Rússia, Irã, Venezuela. É também um fator bastante favorável para auxiliar refinarias americanas que, ineficientes, competem com rivais extremamente preparados. Ainda que alguns parceiros menos eficientes sejam prejudicados pelo baixo valor.
É o caso do México, outro grande exportador de petróleo bruto – e outro país dependente dessas exportações, que sofreu recentemente com a baixa dos preços. A Pemex, estatal mexicana, pouco depois de fechar acordo com o país de Obama, teve que fazer fortes cortes em seus investimentos {{não acredite em mim – El País}}. A baixa do óleo bruto é a principal razão {{não acredite em mim – O Globo}}, especialmente depois do acordo comercial com Washington, no qual exporta óleo bruto e importa derivados da terra do Tio Sam. Mesmo assim, o acordo será mantido, já que a Pemex não possui tecnologia para exportar os derivados.
A tática de baixar o preço do petróleo no mundo não é, no entanto, uma mais seguras a se adotar. Isso porque a China tem aproveitado o preço baixo para estocar petróleo (e derivados) e se preparar para uma eventual alta dos preços. Ao mesmo tempo, a exportação de hidrocarbonetos nos EUA, impulsionada justamente pela eficiência na extração do gás do xisto, é baseada em pequenas empresas, muito mais vulneráveis a crises do que as grandes petroleiras.
Ainda assim, para os Estados Unidos este é um preço mais baixo a pagar do que o custo político de outra guerra no Oriente. Especialmente quando quem conduz a política externa norte-americana é um presidente ganhador de um Nobel da Paz, cujo discurso sempre se antagonizou à pregação militar republicana.
Além disso, a baixa consegue, ao mesmo tempo, prejudicar Irã, Venezuela e Rússia, e deixa o México ainda mais dependente das petroleiras norte-americanas. Soma-se a isso as recentes descobertas do pré-sal, e um senador brasileiro que prometeu levar vantagens à Chevron {{não acredite em mim – Wikileaks}} e que elaborou um projeto de lei para ampliar a participação estrangeira nele. Junte o caldo todo com a histórica preocupação norte-americana de manter sua influência no Oriente Médio. Coloque no forno por alguns minutos e retire. A receita do lucro dos EUA com a baixa do petróleo está pronta, basta servir.
Pode não ser simples, nem fácil de acreditar. Mas o preço do petróleo estar baixo não é sinal de prejuízo. Na verdade, para alguns, pode até ser bem lucrativo. Só depende de qual parte do mundo você olha.
(*) Victor Amatucci é editor do Blog ImprenÇa {{não acredite em mim}}























