Sexta-feira, 3 de abril de 2026
APOIE
Menu

Esperava a notícia da morte de Henri Alleg.

Faleceu ontem, quarta-feira (17/07), mas saíra praticamente da vida no ano passado quando, em férias numa ilha grega, sofreu um AVC. O seu cérebro foi tão atingido que a recuperação era impossível.

Ficou semi-hemiplégico e passou os últimos meses numa clínica, caminhando para o fim numa existência quase vegetativa. Reconhecia os filhos, dizia algumas palavras, mas o seu discurso tornara-se caótico. Ligou-me a esse homem uma amizade tão profunda que sinto dificuldade em a definir.

Reprodução Twitter @idataover

Henri Alleg faleceu na última quarta-feira (17/07)

Aos 90 anos passou uma semana em V.N de Gaia, comigo e a minha companheira, e pronunciou, então, na Universidade Popular do Porto, uma conferência sobre a Argélia e os acontecimentos que abalavam o Islão africano. Pelo saber histórico e lucidez, impressionou quantos então o ouviram.

Admirava-o há muito, quando o conheci na Bulgária,em l986, durante um Congresso Internacional. A empatia foi imediata, abrindo a porta a uma amizade que se reforçou a cada ano.

Henri, após o 25 de abril, foi correspondente de L’ Humanité em Lisboa. Não tive, então, oportunidade de o encontrar. Mas no último quarto de século visitou Portugal muitas vezes. A Editora Caminho publicou três livros seus (SOS América, O Grande Salto Atrás e O Século do Dragão) e a Editora Mareantes lançou a tradução portuguesa de La Question ( A Tortura), o livro que o tornou famoso e contribuiu para apressar o fim da guerra da Argélia.

Amava Portugal, especialmente o Alentejo da Margem Esquerda do Guadiana, e admirava muito o Partido Comunista Português.

Participou em Portugal de diferentes Encontros Internacionais e, numa das suas visitas a Lisboa, foi recebido pela Comissão dos Negócios Estrangeiros da Assembleia da Republica, debateu ali com deputados de todos os partidos grandes problemas do nosso tempo, e foi depois aplaudido pelo plenário.

Recordo também o interesse excepcional suscitado pela sua passagem pelo Brasil e Cuba, onde o acompanhei nas suas visitas àqueles países.

A complexidade do sentimento de admiração que Henri Alleg me inspirava levou-me a escrever sobre ele e os seus livros mais páginas do que ao longo da vida dediquei a qualquer outro escritor. Elas aparecem em livros meus e em artigos publicados em jornais e revistas de muitos países. Evito portanto repetições.

Recordo que ao ler La Grande Aventure d’Alger Republicain, o choque – é a palavra- foi tão forte que sugeri numa conferência que o estudo desse livro deveria figurar no programa de todas as Faculdades de Jornalismo do mundo.

O que encontrei de diferente em Henri Alleg?

Refletindo sobre o fascínio que aquele homem exercia sobre mim, conclui que a admiração nascia da firmeza das suas opções ideológicas, de uma coragem espartana e de um eticismo raríssimo.

Mais de uma vez lhe disse que via nele o modelo dos bolcheviques do ano 17.

Henri apareceu-me como o comunista integral, puro, quase perfeito. Não conheci outro com quem me identificasse tão harmoniosamente no debate de ideias.

É de lamentar que Mémoire Algérienne não tenha sido traduzido para o português. Nesse livro de memórias, que é muito mais do que isso, Henri, nos capítulos finais, permite ao leitor imaginar o sofrimento do comunista que acompanha o rápido afastamento, após a independência, dos dirigentes da FLN dos princípios e valores que tinham conduzido os revolucionários argelinos à vitória sobre o colonialismo francês. Pagou um alto preço pela autenticidade com que se distanciou do poder em Alger Republicain, o seu diário, fechado por Houari Boumedienne, herói da luta pela independência.

Pesado foi também o preço que pagou na França, onde, após o regresso à Europa, foi secretário de Redação de L’ Humanité, então órgão do CC do Partido Comunista Francês.

Henri Alleg denunciou desde o início a vaga do euro comunismo que atingiu os partidos francês, italiano e espanhol, entre outros. Criticou com frontalidade a estratégia que levou o PCF a participar em governos do Partido Socialista que praticaram políticas neoliberais.

No belo livro que escreveu sobre a destruição da URSS e a reimplantação do capitalismo na Rússia fustigou os intelectuais que, renunciando ao marxismo, passaram em rápida metamorfose a defensores do capitalismo e a posições antissoviéticas. Não hesitou mesmo em criticar o próprio secretário-geral do PCF, Robert Hue, considerando a orientação imprimida ao PCF como incompatível com as suas tradições revolucionárias de organização marxista-leninista.

Mas, contrariamente a outros camaradas, travou o seu combate de comunista dentro do Partido como militante.

Tive a oportunidade na França, de registar,em assembleias comunistas a que assisti, o enorme respeito que Henri Alleg inspirava quando tomava a palavra. Verifiquei que mesmo dirigentes por ele criticados admiravam a clareza, o fundamento e a dignidade do seu discurso crítico.

"Não conheci outro com quem me identificasse tão harmoniosamente no debate de ideias", opina Miguel Urbano Rodrigues

NULL

NULL

Nos últimos anos, apesar de uma saúde frágil, compareceu em programas de televisão, voltou a Portugal e revisitou a Argélia onde foi recebido com entusiasmo e emoção. Nos EUA, as suas conferências suscitaram debates ideológicos de uma profundidade incomum, com a participação de comunistas e acadêmicos progressistas. E quase até ao AVC que o abateu, percorreu a França, respondendo a convites de Federações Comunistas e outras organizações. A juventude, sobretudo, aclamava- o com ternura e admiração.

A morte da companheira, Gilberte Serfaty, em 2010, foi para ele um golpe demolidor. “Não mais posso sentir a alegria de viver…” – respondeu-me quando o interroguei sobre o peso da solidão. Ela, argelina, era também uma comunista excecional. Contribuiu muito para organizar com o Partido a sua fuga rocambolesca da prisão francesa de Rennes, para onde fora transferido da Argélia.

Muitas vezes, quando ia a França, instalava-me na sua casa de Palaiseau, nos subúrbios de Paris. Henri, que era um gourmet e um grande cozinheiro, recebia-me com autênticos banquetes e preparava um maravilhoso couscous, acompanhado de vinhos argelinos.

Na última visita a Palaiseau antes da sua doença, minha companheira e eu participamos de um jantar inesquecível. Eramos cinco: nós, Henri, Gilberte e o filho, Jean Salem, já então um filósofo marxista de prestígio internacional. Recordo que nessa noite passamos o mundo em revista. Henri irradiava energia; amargurado com o presente cinzento da humanidade, falou do futuro com a esperança de um jovem bolchevique.

Repito: Henri Alleg foi um revolucionário e um comunista exemplar.