Segunda-feira, 6 de abril de 2026
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Algumas considerações sobre o caso do ataque à revista Charlie Hebdo, que matou 12 pessoas na última quarta-feira (07/01) em Paris.

(1) É possível separar o fato bruto do sistema de informação globalizado que produz impressões e afetos a seu respeito?

(2) Os atiradores mataram 12 pessoas, deixaram 11 feridas – 4 delas em estado grave;

(3) Não é preciso nenhum aparato político ou ideológico para que tenhamos profunda compaixão pelas vítimas e seus familiares. A tristeza e a indignação é ilimitada, incondicional e incontestável. Portanto, não há nada a ser dito sobre isso. Dizer não bastaria;

(4) Gostaria de falar, então, sobre o sistema de informação que envolve o fato;

Agência Efe

Ataque à sede da revista satírica 'Charlie Hebdo' deixou 12 pessoas mortas na última quarta-feira (07/01) em Paris

(5) O que significa a insistente comparação com o 11 de setembro? Os horizontes do mundo são os mesmos? Devemos esperar uma nova Guerra ao Terror, dessa vez, apoiada pela esquerda, que pretende defender a liberdade de expressão?

(6) A urgência de preservar a liberdade de expressão repetida à exaustão parece querer ser o amparo de uma reação política e militar;

(7) Se, no 11 de setembro, atingiram um símbolo do poder político, ontem teriam atingido um símbolo mundial da liberdade de expressão.

Considerações sobre o caso: "A urgência de preservar a liberdade de expressão repetida à exaustão parece querer ser o amparo de uma reação política e militar"

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(8) A impressão é que não houve unicamente uma violência brutal e injustificável, mas um ataque àquilo que é o coração da liberdade de expressão do mundo – que, não por acaso, fica na França; (9) Essa é uma forma não só de sequestrar o fato, mas também de envolver os afetos do mundo numa empreitada reacionária, que já vinha se delimitando na França e em parte da Europa;

(9) Essa é uma forma não só de sequestrar o fato, mas também de envolver os afetos do mundo numa empreitada reacionária, que já vinha se delimitando na França e em parte da Europa;

(10) Mas gostaria de permanecer na questão da liberdade de expressão. A linha do Charlie era de crítica ao Islã (e outras religiões, ainda que eu só tenha encontrado apenas uma ou duas críticas ao sionismo). Embora, fosse um jornal que se queria de extrema esquerda, muitas charges serviam de material ao que havia de mais conservador e repulsivo na França, a saber: Marine Le Pen;

(11) Usar o “humor” e a “liberdade de expressão” para “denunciar” sistematicamente o Islã teria quais efeitos sobre a população muçulmana na França? Que tipo de ruptura revolucionária representavam essas charges? Na prática, as denúncias de um islamismo opressor alimentavam a islamofobia, talvez mais opressora do qualquer religião;

(12) Algumas charges ironizavam e negavam que Israel tivesse atingido escolas palestinas. E tantas outras minimizavam a importância do estupro e a opressão sofrida pelas mulheres. Não eram apenas desnecessárias, mas abjetas. Pareciam enfrentar oprimidos e opressores, como se ambos tivessem a mesma força;

(13) É preciso respirar e viver o luto dissociado de um revanchismo acrítico. Dissociado das impressões e afetos que já vem prontos e embalados para o mundo representar. É preciso de tempo para estar apenas triste e perplexo com as mortes provocadas não por uma religião, mas por extremistas, que usam uma interpretação da religião para justificar a sua violência. Assim como – me parece – uma interpretação deste fato pode também nos levar a reagir violentamente.
 
(*) Daniela Lima é escritora e pesquisadora do Laboratório de Filosofias da Alteridade (Instituto de Filosofia-UFRJ).