Sexta-feira, 30 de janeiro de 2026
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Na última coluna eu dizia que prestamos muita atenção ao genocida e deixamos de lado os limpinhos que enriquecem com a necropolítica e a necroeconomia. Para me contrariar,  a notícia da semana foi o manifesto dos banqueiros e “economistas”, pedindo que “o governo central” atue para deter o descalabro da pandemia. 

Verdade que não foi a única. Saiu o general que confunde Amazonas com Amapá e entrou um cardiologista que inaugurou o mandato fazendo visita de cortesia ao InCor.  O presidente da Câmara, brincando de juiz de futebol de várzea,  mostrou o cartão amarelo e lembrou que existe o vermelho, embora ele não seja tonto de usar. E também tivemos sete senadores pedindo, na cara, a renuncia do cara que se orgulha de ter nos transformado em párias internacionais. 

Na semana em que atingimos 300 mil brasileiros mortos;  3 mil por dia e subindo;  colapso da rede hospitalar pública e privada e pré-colapso do sistema funerário, os bacanas da grana nacional publicaram um manifesto do qual, só à primeira vista, parece impossível discordar, mas que está absurdamente atrasado e é objetivamente inútil.

Para dizer o que lá está  – deve haver vacinação  em massa e um programa de distribuição de máscaras; é preciso um programa de renda emergencial e de apoio aos pequenos empresários e tem que haver coordenação nacional – os maiores banqueiros do país, os ex-presidentes de Banco Central e toda aquela elite de ternos caros e MBAs nas melhores universidades do planeta, precisaram de um ano?

Entre a elite de ternos caros, nenhuma palavra sobre o valor do auxílio emergencial, sobre a manutenção do teto de gastos, e o silêncio sobre o SUS

José Cruz/Agência Brasil

Entre os bacanas da grana nacional, as palavras estão há pelo menos um ano atrasadas

Mais revelador, como quase sempre, é o que não está dito.  Monica de Bolle, economista mas não rentista, insuspeita de petismo, põe o dedo nas feridas. 

Nenhuma palavra sobre o valor ou a duração do auxílio emergencial quando a cesta básica custa, na média nacional, 600 reais. O auxilio emergencial será menos da metade disso? E quatro parcelas, se até a velhinha de Taubaté sabe que não sairemos da pandemia antes de 2022?

Nenhuma palavra sobre a manutenção do teto de gastos, principal instrumento de necroeconomia. Repete-se que estamos em guerra mas omite-se que, em tempo de guerra, falar em equilíbrio fiscal é lesa pátria.

Mais escandaloso ainda é o estrondoso silêncio  sobre o SUS. Em plena catástrofe sanitária, com o país apontado internacionalmente como uma ameaça ao planeta, o Congresso acaba de aprovar uma dotação orçamentária para a Saúde igual ao período pré-pandemia. Não sei quantos pontos de exclamação dariam conta dessa aberração que “escapou” aos limpinhos.

O Valor Econômico, nestes dias, mostrou que “o mercado” está preocupado mesmo é em encontrar um “nome de centro” para 2022. Como não dá para acreditar que alguém vira bilionário por ingenuidade, só se pode concluir que o sonho dourado deles é uma necroeconomia sem necropolítica.

Os limpinhos gostariam que os cadáveres não aparecessem para sujar nossa imagem internacional e atrapalhar os dividendos. Só não descobriram, ainda, como fazê-lo.

(*) Carlos Ferreira Martins é professor titular do IAU USP São Carlos.