O Brasil e os irmãos Grimm
Há quem persista em dizer que apesar de tudo as instituições estão funcionando. A pergunta é: elas estão funcionando para quê?
Há quem persista em dizer que apesar de tudo as instituições estão funcionando. Isso me lembra um tempo em que se dizia de determinado candidato que ele era o mais preparado. Até que alguém fez a pergunta certa: preparado para quê?
Ou, no nosso caso, as instituições estão funcionando para quê? Alguém acha que o zigue zague do Supremo reforça a fé na isenção e estabilidade do Judiciário? O exemplo do Kassio com Ká traz a esperança de que o genocida fará as novas indicações ao Supremo preocupado com a defesa da Constituição que ele tem vilipendiado dia sim e outro também?
As mesas da Câmara e do Senado não estão agindo exatamente como propôs Salles na famigerada reunião do Ministério? Aproveitam a atenção da imprensa focada na CPI da COVID para fazer passar a boiada do desmonte do que ainda resta de Estado e de patrimônio nacional: venda da Eletrobrás; destruição do que resta das bases do serviço público; sucateamento ainda maior do SUS em pleno recrudescimento da contaminação e com a rede hospitalar à beira do colapso geral.
Ainda há, também, quem persista em acreditar que numa distinção entre os milhares de militares que integram o governo, do 4º. andar do Palácio do Planalto, aos cargos de terceiro e quarto escalão, passando pelos muito bem remunerados jetons dos conselhos das estatais ou companhias de economia mista e as “Forças Armadas enquanto instituição” supostamente consciente de seu papel constitucional.

Palácio do Planalto/Flickr
"As mesas do Senado e Câmara agem como propôs Salles: passando a boiada naquilo que resta do patrimônio nacional"
É bem verdade que estes têm cada vez menos argumentos. Do conto de fadas do início do governo, que nos tranquilizava porque o Exército, Guedes e Moro conteriam Bolsonaro nos limites da racionalidade restam as cinzas da gata Borralheira. Moro dançou, Guedes acabou de declarar que vai abrir os cofres “porque estamos em campanha” e o Exército, ora o Exército.
Alguém já disse que Bolsonaro parece ter um compulsivo prazer em humilhar os generais. Mais relevante é que ele tem conseguido fazê-lo seguidamente.
Agora coloca o comandante do Exército em cheque mate: diante do fato indiscutível de que Pazuello cometeu infração disciplinar (militar da ativa não pode participar de ato político) o comandante do Exército se desmoraliza se não o punir e se desmoraliza se puni-lo e seu ato for anulado pelo presidente, que tem poder para tal e ninguém duvida que o fará.
Restam por fim, os que creem que uma fração do empresariado poderia retirar o apoio inconteste que até agora deu ao presidente e a sua política genocida. Ou os que acham que o consórcio militar-empresarial-midiático-político-judicial poderia, depois de cinco anos, entregar civilizadamente a faixa a Lula ou a um “democrata de centro”.
Escrevo sem saber o alcance ou o impacto das manifestações. Mas Bolsonaro já deixou claro que vai trucar.























