Sexta-feira, 30 de janeiro de 2026
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Desde que me aventurei, anos atrás e um pouco à revelia, por este mister de escrevinhador semanal, na fronteira o mais das vezes imprecisa entre a coluna e a crônica, sempre tive uma particular dificuldade com as últimas semanas do ano.

Os indefectíveis balanços do ano que se exaure me parecem um exercício entre o inócuo e o presunçoso, especialmente os embalados nas pompas das retrospectivas.

Neste mundo multiforme, fragmentado e desigual, para que serve e a quem, além da autoestima do escrevinhador, escolher entre miríades de fatos desconexos os que merecem ser lembrados e os que se condena ao esquecimento?

E na outra direção do mesmo e sazonal problema tampouco me sinto à vontade para fazer previsões, apontar tendências ou pior ainda, expressar desejos.

Sim, eu sei que, antes do nascimento, real ou simbólico, do pequeno refugiado nazareno, os seres humanos já haviam se dado conta da circularidade da vida, do retorno permanente das estações e da necessidade de saudá-los e regozijar-se pela descoberta de que o sol voltaria a levantar-se.

Também sei que ao longos dos século que se seguiram ao nascimento do pequeno ser que teria emergido da manjedoura para salvar a humanidade de não se sabe muito bem qual pecado, houve um esforço de gerações e gerações em aproximar e identificar o solstício que, por lei natural, se repete a intervalos fixos e aquele nascimento que por definição foi único e tão fortemente singular que sua eventual repetição significará o final dos tempos.

Não há novidades, nos dizem os historiadores das religiões, em adaptar os novos deuses aos rituais antigos. Nem no fato de que tais manifestações de gratidão por termos chegado a mais um marco desse permanente retorno, e de esperança na possibilidade de aqui estarmos na próxima volta, sejam expressas com dança e música, com alegria e comida e bebida.

Sabemos há muito que não se pode submeter a fé aos ditames da lógica, mas viver no Brasil de hoje estira todos os limites da fé ou da lógica

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Que devemos saudar ao final deste ano? Que quase 80 milhões de brasileiros não tenham um prato de comida sobre a mesa?

Sabemos há muito que não se pode submeter a fé aos ditames da lógica. Mas viver no Brasil de hoje estira todos os limites da fé ou da lógica.

Que devemos saudar ao final deste ano? Que apenas 628 mil famílias tenham tido ao menos uma cadeira vazia nas comemorações natalinas? Que quase 80 milhões de brasileiros e brasileiras, majoritariamente mulheres e negros, não tenham um prato de comida sobre a mesa ou a certeza de que o terão amanhã?

Devemos ficar satisfeitos porque aqueles que não comungam da fé reconhecerão o Herodes e muitos dos que a afirmam são incapazes de vê-lo?  Devemos associar ao espírito natalino dos deputados cristãos a aprovação de um orçamento em que as Forças Armadas terão mais recursos do que a educação, a saúde, a habitação e o saneamento juntos?

E qual é a particular leitura das escrituras que afirma o direito à vida do não nascido, mas nega ao que já nasceu o direito à vacina?

Com mais dúvidas do que nunca sobre o que escrever num final de ano, este foi, para mim, marcado entre dois polos.

O de Cristina Serra que nos lembrou de todas as razões pelas quais alguns de nós aprenderam a resistir. De Ailton Krenak a Thiago de Mello e seu “faz escuro mas eu canto porque a manhã vai chegar”.

Mas também o de Anderson Claro, ele próprio exilado de sua terra, a nos lembrar, na sua fala cortante de brasileiro que conhece a pobreza: “Não há Natal. Não temos que fingir. Jesus está nas ruas. Sozinho. Ele não está celebrando nem o próprio nascimento. Lembre-se disso”.

*Carlos Ferreira Martins é professor titular do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP São Carlos