Ayotzinapa: um grito da humanidade
Crime de Estado e lesa-humanidade contra os estudantes da Escola Normal Rural Raúl Isidro Burgos, em Ayotzinapa, foi acompanhado pela solidariedade de milhões de pessoas do mundo inteiro, o que Che, certamente, consideraria a ternura dos povos

O crime de Estado e lesa-humanidade contra os estudantes da Escola Normal Rural Raúl Isidro Burgos, em Ayotzinapa, no Estado de Guerrero, no México, foi acompanhado pela solidariedade de milhões de pessoas do mundo inteiro, o que Che, certamente, consideraria a ternura dos povos. O livro “Ayotzinapa: um grito desde la humanidad” [Ayotzinapa: um grito da humanidade, em tradução livre] (México, Ocean Sur, 2015), é precisamente uma expressão dessa fraternidade por meio da Rede de Intelectuais, Artistas e Movimentos Sociais em Defesa da Humanidade, que é fundada no país em 2003 como uma resposta da intelectualidade latino-americana à guerra contra os povos, declarada pelos Estados Unidos depois dos atentados de 11 de setembro de 2001.
Foi muito significativo que, em sua mais recente reunião plenária, levada a cabo em Caracas, em dezembro de 2014, esta rede tenha aprovado por unanimidade uma declaração na qual expressamente apontou “Enrique Peña Nieto, presidente do México, em sua qualidade de comandante-em-chefe das Forças Armadas, como principal responsável pela tragédia de Ayotzinapa” e afirmou claramente: “Ayotzinapa sintetiza as agressões cometidas pelo império e pela oligarquia local contra o povo do México, mas é também o modelo de dominação, imposto pelo neoliberalismo, que não queremos para a humanidade”.
Com a entrada de 35 integrantes na rede, procedentes de diversos lugares, o livro traz um conjunto de reflexões analíticas de grande envergadura e sentidos poemas, como contribuição à luta dos pais, familiares e companheiros dos estudantes assassinados e desaparecidos e o castigo aos culpados, mas também para ajudar na construção de alternativas sistêmicas e civilizatórias nas quais crimes como o de Iguala nunca mais se repitam.
As ideias centrais desse esforço coletivo remetem ao exercício de um terrorismo de Estado, com manifestações globais, que leva ao planejamento e à execução da tragédia de Ayotzinapa, não como um ato isolado e excepcional, mas como parte de uma estratégia coerente e premeditada para submeter toda dissidência, resistência ou oposição por meio de uma violência múltipla, sistemática e cotidiana, uma guerra contra o povo difusa e assimétrica, não convencional, cujo propósito é aprofundar a expropriação, a pilhagem, a entrega dos recursos humanos, naturais e estratégicos em benefício do capital transnacional.
Nessa didática louca de violência, que se sintetiza em Ayotzinapa, se associam até se desfocar e se diluir em um só algoz com múltiplas máscaras, cabeças de hidra. E diriam os zapatistas: o chamado crime organizado, os aparatos do Estado (autoridades civis dos três poderes, forças armadas, policiais e paramilitares), a classe política que integra a partidocracia, os meios de comunicação que formam a ditadura midiática, a intelectualidade e a academia mediocrizadas, os setores corporativos e clientelares do sindicalismo oficialista, mas também, por omissão, os hesitantes, os escapistas, os que fingem desconhecer a realidade de um país devastado.

NULL
NULL
Vários dos autores situam o poder imperial atrás do poder formal que afirma governar para “mover o México” entre os atores intelectuais do crime de Estado e lesa-humanidade em Iguala: os Estados Unidos, principal consumidor de narcóticos e o mais importante vendedor de armas do mundo. Não se trata, na verdade, de “lutar contra o narcotráfico”, mas de controlar a eficiente e contínua passagem de drogas e corpos para o progressivo mercado binacional, conseguindo, além disso, a substancial inserção financeira da economia mafiosa com a economia “legal” do país do norte, enquanto fluem incontroláveis para o sul as armas para os múltiplos grupos armados legais e clandestinos a serviço do terror de Estado e da narcopolítica.

A um ano da tragédia de Iguala, fica claro também que é necessário dar nome e sobrenome à consigna de “foi o Estado”. Vários autores desse livro (e as conclusões de analistas e jornalistas investigativos) apontam para uma operação coordenada dos múltiplos atores presentes na cena do crime. Cada vez com maior certeza se fortalece a hipótese da responsabilidade do Exército Mexicano no assassinato e no desaparecimento dos estudantes normalistas. O relatório de Ayotzinapa do Grupo Interdisciplinar de Especialistas Independentes (GIEI, por sua sigla em espanhol) fortalece a hipótese da responsabilidade do Exército mexicano, que fez cair por terra a “verdade histórica” do governo de Peña Nieto, não apenas revelando dados falsos, omissões, suposições, tergiversações e mutilações da investigação da PGR, mas também permitindo indagar os atores que o governo tem protegido sistematicamente nesta e em todas as investigações sobre crimes de Estado no México: os militares.
A reportagem especial de Juan Veledíaz no semanário Processo em relação à filiação militar de 14 policiais de Iguala e da cidade de Cocula detidos por sua suposta participação na “operação coordenada” contra os normalistas, assim como os radiogramas e mensagens internas do Exército, fazem este jornalista supor “que na noite do dia 26 de setembro de 2014 e na madrugada do dia 27 entrou em ação um braço paramilitar no desparecimento dos 43 estudantes”.
Ao longo dos anos, venho insistindo sobre o papel dos grupos paramilitares aos quais o Estado delega o cumprimento de missões que as forças armadas regulares não possam levar a cabo abertamente. Esses grupos são ilegais ou impunes porque assim convém aos interesses do Estado. O paramilitar consiste, então, no exercício ilegal e impune da violência do Estado e no ocultamente da origem dessa violência.
Foi o Estado, foi o Exército! Vivos os levaram, vivos os queremos!























