Sexta-feira, 30 de janeiro de 2026
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Leon Tolstoi, um dos grandes escritores da fabulosa literatura russa, um escritor entre os melhores de toda a literatura mundial, é autor de especial obra-prima, A morte de Ivan Ilitch.

Esta novela muitos a consideram, e com razão, a mais perfeita já escrita.

Na Rússia czarista, um juiz se vê diante da própria doença, mortal.

Antes do desenlace, tem tempo de olhar dolorosamente sua vazia vida, e o vazio da vida num país submetido à mais dura e mesquinha opressão.

Em certo momento, Ivan Ilitch pensa sobre o silogismo: “Caio é homem; todos os homens são mortais; logo, Caio é mortal”. E reflete: mas todos acham que a morte ocorre com Caio, jamais consigo.

Ao viver esta simples verdade, Ivan constata o engano generalizado, nada ledo.

Tais lembranças me ocorrem numa alusão à situação agora vivida pelo Brasil.

Grassa para muitos, com a quebra ampla da quarentena, imprevidente, insana euforia (estimulada por insanas carências de sobrevivência). Grassa também a covid-19.

Tudo leva à negação redobrada da realidade, de que o outro, o mortal da boca da caçapa (Caio), jamais pode ser ele.

Tenho escutado “argumentos” assim:

“Existem pessoas que não pegam o vírus”.

“E quem pega pode muito bem ficar curado”.

“Posso já ter pegado, assintomático, e já estar com anticorpos”.

Em ‘A morte de Ivan Ilitch’, de Leon Tolstoi, o personagem olha dolorosamente sua vazia vida, e o vazio da vida num país submetido à mais dura opressão

Bem, “a ignorância” – como disse um barbudo alemão, numa frase prosaica e verdadeira – “jamais foi útil a alguém”.

Nas pegadas do barbudo, que via a política como a atividade humana libertadora essencial, seguidores dele disseram explicitamente: a pior ignorância é a ignorância política.

É vero.

Em tempos de covid-19, neste Brasil de tantos males, país de escancarada vulnerabilidade à epidemia, já com pilhas de cadáveres, contados (por enquanto) às dezenas de milhares, a ignorância (no geral e a política em particular), aumenta de maneira exponencial a devastação.

Na hora do ar que falta e jamais chega, do teste que não é feito, do inalcançável respiradouro, será trágico constatar que o mortal da vez não é nenhum Caio, mas o maior conhecido de cada um.

(*) Antônio Augusto é jornalista. Texto publicado originalmente no Facebook do autor.