Domingo, 10 de maio de 2026
APOIE
Menu

Abaixo estão algumas pistas para descobrir os rumos dos acontecimentos globais e, a partir da América Latina, levá-los em consideração na hora de agir.

1. Consolidação da disputa bipolar pela hegemonia mundial

A China e os Estados Unidos, sem dúvida, lideram a disputa pela hegemonia mundial, embora nada indique que o confronto entre eles se agrave. Pelo contrário, dadas as condições de reprodução global do sistema capitalista, poderiam acabar cooperando entre si sem abrir mão de espaço na referida disputa.

Tudo que a grande mídia não mostra, do seu jeito.

Ícone Newsletter

Newsletter

Notícias internacionais, com análise crítica e independente. Sem filtros.
Ícone WhatsApp

Canal do WhatsApp

O mundo em movimento direto no seu celular. Informação pronta para compartilhar
Ícone YouTube

OM no YouTube

Opinião, contexto e coragem jornalística. Tudo no nosso canal. Sintonize em Opera Mundi

A China, com um crescimento médio de 9,9% ao longo de 30 anos, tornou-se o principal produtor industrial do mundo, apesar da guerra econômica e financeira declarada pelos Estados Unidos. Por exemplo, a “guerra dos chips” foi iniciada pelos norte-americanos para “liquidar a concorrência” asiática, mas em vez disso acabou fortalecendo China, melhorando a qualidade da produção de chips e reduzindo a lacuna tecnológica anteriormente existente. Dada a natureza cooperativa da produção global, é provável que os grandes produtores de chips – Estados Unidos e China – acabem por se associar.

Por outro lado, a China é o maior credor externo dos Estados Unidos e, para saldar essa dívida, deve ter sucesso na sua economia. Nesta lógica, exclui-se a destruição mútua num horizonte temporal longo, abrindo antes a necessidade de um espaço comum que lhes permita partilhar a hegemonia mundial nesse período. Se o rumo dos acontecimentos visa configurar um cenário de hegemonia compartilhada, é altamente provável que, paralelamente, tenhamos uma fase de turbulência global onde a América Latina terá que definir o seu papel correspondente. Avançar para a construção de uma opção diferente da sujeição neocolonial poderia ser o caminho a seguir.

Mais lidas
2. Crise e regulação do sistema capitalista mundial

Desde o final do século XX, tem sido destacado o poder do sistema capitalista para estabelecer mecanismos de autorregulação capazes de lidar com as crises periódicas que se seguiram à Grande Depressão. Contra a crise ambiental, o ambientalismo começou a caminhar. A explosão populacional justificou processos de planeamento rigorosos. A escassez de mão de obra ou, melhor ainda, o seu custo no processo produtivo foi em grande parte compensada com tecnologia e inteligência artificial. As crises financeiras tiveram o Estado como seu grande salvador, etc.

​Embora o sistema capitalista carregue consigo o germe da sua própria destruição (Marx), também está demonstrando grande poder para lançar mecanismos de autorregulação que inspiraram ilusões como a do “fim da História” (Fukuyama). A autorregulação não confere eternidade ao sistema, com todos os seus males e virtudes, especialmente com as suas crises, agora territorialmente localizadas, sem se tornar ainda a “crise global do sistema capitalista”.

É por isso que enquanto a Ásia cresce e adquire o seu sistema capitalista com produção dominante, o Ocidente (especialmente a Europa e o Japão) experimenta processos de crise de magnitude variável. Não é mero detalhe o fato de que, enquanto o Ocidente se estremece o comércio intra asiático de incrementa: já é 40% do comércio regional, e as estimativas apontam que, nos próximos anos, 55% do comércio mundial terá origem na Ásia, no Oriente Médio, na África e na América Latina. Tudo isso sob a liderança chinesa, que controla 80% da rede regional de produção manufatureira. É o projeto de “Cinturão e Rota” em ação, em formato capitalista e mobilizando os 144 países que têm em Pequim o seu principal parceiro comercial e financeiro.

PixHere

3. Crise ecológica sem soluções à vista

As emissões de CO2 em 2023 serão superiores às de 2022, ultrapassando a marca de 40,9 gigatoneladas, o que serve de alerta, já que há muito pouco o que se pode ser feito para evitar um desastre. Os principais emissores (China, Estados Unidos, Reino Unido, União Europeia e Índia) olham para o lado e continuam a queimar combustíveis fósseis. Se a tendência continuar, a temperatura poderá aumentar 1,5% (em 7 anos) e 1,7% (em 15 anos), deixando, mais uma vez, os Acordos de Paris, relativos às mudanças climáticas, como letra morta. Dentro de 40 anos, viveremos um colapso climático.

Este problema não é apenas uma questão técnica porque, dadas as suas dimensões e impacto na humanidade, torna-se uma questão filosófica e política, que nega a capacidade moral e ética do capitalismo para responder aos desafios das alterações climáticas. Tudo parece indicar que é necessária uma nova civilização (S. Huntington, 1996) fundada em valores diferentes da predatória “modernidade capitalista”.

4. Integração latino-americana, quase um desejo

A integração, tão ilusória na nossa região, parece ser a esperança de escapar ao estado de sujeição em que a América Latina viveu durante a sua história. Somos possuidores de imensos recursos naturais que o desenvolvimento do sistema capitalista necessita, mas que ainda assim os depreda. Cobre, petróleo, urânio, lítio, cobalto, zinco, madeira, entre outros, estão no subsolo e na superfície de todos os países da região. Poderia tornar-se um fator de poder, se a direção dos acontecimentos fosse compreendida.

Se tudo continuar como antes, estes recursos deixarão de existir nas próximas décadas, desencadeando escassezes e crises industriais sem precedentes. Embora a China tenha consolidado o seu estatuto de “aspirador global de matérias-primas”, a América Latina poderá ser o grande fornecedor soberano das mesmas, com possibilidades de desenvolvimento industrial.

Nos próximos 10 anos, o crescimento econômico da China dependerá exclusivamente da sua procura interna. Antes de 2030, o país concentrará 25% do consumo global, e depois mais de 40%. Este cenário é uma oportunidade para a América Latina.

(*) Nilo Meza é economista e cientista político peruano.
(*) Tradução Victor Farinelli.