A terra, substrato da violência na Colômbia
Como as disputas por terra e petróleo resultaram nos conflitos do Bogotazo e na formação dos grupos paramilitares
A partir de 1946 (sob a presidência do conservador Mariano Ospina Perez (1946-1950), aumenta a violência, registando-se uma exponencial influência das falanges espanholas. Assiste-se a uma crescente onda de greves e de paralizações solidárias, impulsionados, sobretudo, pela CTC. Identificando a CTC como uma inimiga das classes dominantes, que ele então representava politicamente, Mariano Perez cria, em junho de 1946, a UTC (União de Trabalhadores da Colômbia) – fortemente ligada à Igreja – e impulsiona a criação de grandes grêmios industriais e comerciais.
Leia aqui o restante da série especial 'Colômbia: terra, história e violência':
Colômbia: influência norte-americana, violência e questão agrária
História colombiana: conflitos entre liberais e conservadores
O imperialismo americano, por seu lado, havia já consolidado a sua posição hegemônica na Colômbia.
Os donos de terras continuam a armar-se e a violência, entretanto, alastra-se: “Em novembro de 1946 acontecem distúrbios tão sérios que o governo pensa em declarar perturbada a ordem pública na região de Bogotá” (Guzmán Campos e al., 1962 [2005], p. 43) e assina, no mesmo mês de novembro, um decreto “declarando o estado de sítio em todo o departamento do Vale” (Guzmán Campos e al., 1962 [2005], p. 43). O liberal Jorge Eliécer Gaitán publica no órgão do seu movimento, o jornal Tribunal Liberal, o editorial “Sem mais sangue” (“No más sangre”), no qual insta ao presidente Ospina Pérez a terminar com a onda de barbárie e de violência.
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Plantações em Cauca, na Colômbia
Os paramilitares, por seu lado, semeiam o terror nas zonas rurais; os pájaros [pássaros] “com suas incursões, produziram o desterro de elementos liberais das populações, estendendo, rapidamente, sua ação depredatória sobre a área rural, causando numerosas vítimas e alterando assim a composição política de províncias inteiras” (Guzmán Campos e al., 1962 [2005], p. 47).
Depois dos governos liberais que o precederam, a presidência de Ospina Pérez vai ser responsável pela ascensão da repressão estatal sobre o movimento sindical e outras organizações campesinas e indígenas. Apesar disso – antes do grande golpe contra o movimento sindical e campesino, que o desintegraria, a 9 de abril de 1948 –, várias foram as lutas e protestos registados entre 1945 e 1948[i].
A luta de classes que precede a primeira onda de violência: o exemplo da Tropical Oil Company
A ocupação do solo e subsolo colombiano, numa aliança entre a burguesia nacional (ainda que pouco desenvolvida e altamente dependente) e estrangeira, com vista à extorsão das suas matérias-primas, tinha como interesses fundamentais a extração de carvão, de ouro e de petróleo. Essa exploração, aliada à férrea exploração dos trabalhadores colombianos, teve de enfrentar uma grande resistência destes. Os monopólios instalados na Colômbia foram, assim, centros de confrontos classistas, sendo que entre os trabalhadores se aliavam, gradualmente, as reivindicações de ordem laboral às reivindicações de ordem nacional.
A Tropical Oil Company é uma das multinacionais instaladas na Colômbia, no início do século, que exemplifica o início da colonização do solo e subsolo colombianos, para extração de petróleo, através de uma exploração desenfreada da força de trabalho do operariado.
Em 1906, o Presidente da República Rafael Reyes (1904-1909) entrega a Roberto De Mares a concessão, durante 30 anos, de exploração do petróleo nas selvas de Carare Opón, no Magdalena médio. De Mares desde logo vislumbra uma aliança com setores da burguesia estadunidense, com vista a que investidores estrangeiros usufruíssem do solo e subsolo que lhe fora concessionado. Em fevereiro de 1916, De Mares assina um acordo com Michael I. Benedum, Joe C. Trees e George W. Crawford, os quais dão nascimento à Tropical Oil Company – Troco (subsidiária da Standard New Jersey). A Tropical Oil Company instala-se em Barrancabermeja (centro de Colômbia, no rio Magdalena), em 1921, obtendo uma taxa de mais-valia baseada num capitalismo brutal que exigia dos trabalhadores longas jornadas de trabalho e salários baixos. Dois anos depois, em 1923, forma-se o sindicato dos trabalhadores das petroleiras, a Sociedad Union Obrera, que apenas conseguirá ter personalidade jurídica em 1954, quando, então, muda de nome para Unión Sindical Obrera (USO).
Desde a criação do sindicato que as lutas dos trabalhadores foram gradualmente se alargando. Nos anos 1940, para além do combate às suas condições de vida e de trabalho precárias, o sindicato lutou, sobretudo, pelo fim da concessão estatal a De Mares (que já deveria ter se encerrado em 1936) e pela nacionalização do petróleo colombiano. Neste sentido, uma grande luta brota no ano de 1947, a qual, assentando já as bases da greve geral que viria a verificar-se no ano de 1948, demonstra o alcance das reivindicações dos trabalhadores:
Para os trabalhadores do petróleo, esta luta adquiria horizontes políticos mais amplos, por estar ligada a uma proposta alternativa sobre a soberania econômica colombiana: a nacionalização do petróleo. Como costumava suceder durante suas mobilizações, os petroleiros conseguiram que suas aspirações sobre o futuro da concessão de Mares ultrapassassem os espaços meramente sindicais e chegasse à opinião pública em geral (Vega e al., 2009, p. 36).
É assim que, em 7 de janeiro de 1948, se inicia uma greve que vai aliar reivindicações laborais a reivindicações nacionais. O governo, em defesa dos interesses do capital estrangeiro, envia militares para atacar os grevistas. O futuro sindicato USO, contudo, logra estabelecer alianças com outros setores da população, pelo que a luta pela nacionalização do petróleo colombiano, contra a concessão a De Mares, se estende a todo o povo colombiano. Vários sindicatos apoiam a greve dos trabalhadores da petroleira; a Federação Nacional de Ferrovias, por exemplo, emite o seguinte comunicado: “apoiar integral e irrestritamente os companheiros petroleiros que declararam greve, uma vez que este movimento tem a defender não apenas os interesses dos trabalhadores, mas também a integridade da pátria” (cit. por Peralta, 2013, p. 395). A greve e o apoio solidário de trabalhadores de diferentes ramos da produção teve um tal impacto que é aprovada, em 27 de dezembro de 1948, uma lei que define o fim da concessão a De Mares e que impulsiona a criação da Ecopetrol (Empresa Colombiana de Petróleos):
A reversão da concessão de Mares e a nacionalização do petróleo colombiano se constituíram em aspectos centrais das lutas dos trabalhadores petroleiros da União Sindical Obreira. As condições laborais e de vida, as injustiças a que eram submetidos os trabalhadores e a exploração dos hidrocarbonetos através de um sistema concessionário de tipo colonial, que fazia com que a multinacional ficasse com mais de 90% dos lucros do petróleo, foi moldando a estrutura orgânica, ideológica e política do movimento operário petroleiro (Peralta, 2013, p. 398).
Segundo Peralta (2013), esta greve marca o nascimento do nacionalismo e do anti-imperialismo dos trabalhadores colombianos, podendo ser considerada como a última grande greve operária com dimensões nacionais. Ainda segundo Peralta (2013), é a partir de então que o centro de gravidade da confrontação de classes passa da cidade para o campo, o qual se consolida depois do dia 9 de abril de 1948.
O período de Grande Violência: 1948-1953
Em 1948, inicia-se o denominado período de Grande Violência – Presidências da República durante este período: Mariano Ospina Perez, conservador (1946-1950); Laureano Gómez, conservador (1950-1951); Roberto Urdaneta Arbeláez, conservador (1951-1953); General Gustavo Rojas Pinilla (1953-1957), ditadura militar (a qual coincide com a formação de guerrilhas).
banrepcultural.org

Tributo a Jorge Eliécer Gaitán, parque Nacional

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Em janeiro de 1948, comunidades do Cauca (cordilheira ocidental) são atacadas, enquanto no Norte de Santander o governo declara o estado de sítio; em fevereiro, os trabalhadores municipais de Bogotá entram em greve, enquanto no Magdalena médio os trabalhadores, como acima referimos, combatem o império da Tropical Oil Company.
Em 9 de Abril de 1948, o candidato presidencial do Partido Liberal, Jorge Eliecer Gaitán, é assassinado a mando da oligarquia colombiana “em associação com a CIA (…) desatando a violência partidária da década de 1950, que produziu mais de 300 mil mortos civis” (Comunicado 42 aniversario de las FARC-EP in Resistencia, 2006, p. 31).
Candidato presidencial do Partido Liberal, com fortes possibilidades de ser eleito, Eliécer Gaitán não pretendia, contudo, criar uma alternativa ao capitalismo. Nesse sentido, apesar de, em determinados momentos, Gaitán se ter oposto ao investimento de capital estrangeiro na economia do país (Cf. Peralta, 2013), nomeadamente na indústria petroleira,
Tal não significava que seu programa fosse per se anticapitalista ou anti-imperialista. O nacionalismo gaitanista deplorava o servilismo da oligarquia, mas não se opunha ao investimento estrangeiro; sua posição se reduzia ao fato de que “era preciso tratar os colombianos tão bem como os forasteiros”. Tal nacionalismo, apesar de ter algumas variantes com respeito à concepção da grande burguesia, não constituía um problema para os Estados Unidos, uma vez que defendia que se tivesse “uma colaboração sincera da nação do norte no processo de desenvolvimento industrial dos países latino-americanos” (Peralta, 2013).
Assim sendo, Gaitán não pretendia alterar as relações de produção do modo de produção capitalista, mas antes acentuar a necessidade de uma forte intervenção estatal no marco do capitalismo, numa tentativa de diminuir as contradições entre o capital e o trabalho. Tinha, contudo, uma forte influência no movimento sindical e o respaldo de uma grande maioria de trabalhadores.
Gaitán personificava, igualmente, a luta que se travava entre a pouco desenvolvida burguesia industrial nacional e os donos de terras. Com efeito, dificilmente os liberais poderiam fazer uma aliança (sob a liderança de Gaitán) com os proprietários de terra, contra os quais Gaitán havia combatido nos anos trinta. Por outro lado, permanecia entre a memória dos donos de terras e da oligarquia financeira a denúncia que aquele havia feito do massacre das bananeiras. Desta forma, com a presença de Gaitán, “a aliança da oligarquia liberal-conservadora se tornava, se não impossível, pelo menos extremamente difícil. Não restava, por isso, outra alternativa à grande burguesia proprietária de terras que não fosse uma aliança com a oligarquia liberal-conservadora, eliminá-lo [Gaitán] e acusar o comunismo internacional pelo crime cometido” (Ocampo, 1980).
Quando a notícia do assassinato de Gaitán chega a todo o país, verificam-se vários levantamentos armados e, durante uma dezena de dias, a Colômbia encontra-se numa situação pré-revolucionária (contudo, sem condução política):
Para um marxista não há dúvida de que a revolução é impossível sem uma situação revolucionária, mas nem toda situação revolucionária conduz à revolução. Quais são, de maneira geral, os indícios de uma situação revolucionária? Estamos certos de não nos enganarmos ao indicar os três principais pontos que seguem: (1) A impossibilidade para as classes dominantes manterem sua dominação de forma inalterada: crise da “cúpula”, uma crise da política da classe dominante abre uma brecha através da qual avançam o descontentamento e a indignação das classes oprimidas. Para que a revolução estoure, não basta que “os de baixo não queiram mais” viver como antes, mas é preciso também que “os de cima não possam” viver como até então; (2) Um agravamento, além do comum, da miséria e dos sofrimentos das classes oprimidas; (3) Um desenvolvimento acentuado, em virtude das razões indicadas antes, da atividade das massas, que se deixam saquear tranquilamente (sic) nos períodos “pacíficos”, mas que, nos períodos agitados, são empurradas, tanto pela crise de conjunto como pela própria “cúpula”, para uma ação histórica independente (Lênin, 1916).
Os dez dias em que se verificaram conflitos na capital, quando conservadores e liberais entram em confronto, ficaram conhecidos como Bogotazollanos orientais, tradicionalmente liberais, surgem grupos de autodefesa campesinos armados, o que, gradualmente, torna esta região colombiana num centro operativo da resistência.
Depois do assassinato de Gaitán e da greve de 51 dias dos operários da Tropical Oil Company, estabelece-se, em Barrancabermeja, a Comuna de Barranca (14 dias). Em assembleia, os habitantes de Barrancabermeja, liderados pelos operários petroleiros, criaram uma Junta Revolucionária. Edifícios da administração pública foram tomados (correios, telégrafos, prefeitura), assim como a Tropical Oil Company, bombas de gasolina, meios de transporte e meios de comunicação.
A agitação e organização de movimentos populares, na cidade como no campo, tem como resposta uma forte repressão estatal. Esta onda de violência perdurará até 1953 e corresponderá a um plano esboçado nas altas esferas do governo conservador, com a cumplicidade do capital estrangeiro, nomeadamente estadunidense, que utilizará a Polícia numa campanha de perseguição feroz a comunistas, sindicalistas, líderes campesinos e a liberais progressistas.
Dos diversos grupos armados que então se formaram, um dos mais conhecidos foi liderado pelo liberal Guadalupe Salcedo Unda (2.000 homens), nos llanos orientais; outro grupo armado formou-se em Sumapaz (província do departamento de Cundinamarca), organizado por Juan de la Cruz Varela (que entra no PCC, em 1950), enquanto, no departamento de Tolima, vários focos guerrilheiros de orientação comunista (de onde provém Marulanda) dariam, mais tarde, origem às FARC-EP: “O governo conservador instalado no poder dispunha da Polícia e do Exército para agredir-nos, os liberais desarmados, inclusive, até os machados e as facas nos confiscavam com o passar do tempo, para que os conservadores unidos à Policia nos encontrassem desarmados” (Marulanda Vélez, 2006, p. 3). Ao contrário, na vereda chulavita (departamento de Boyacá – centro-oriente), o governo, através da polícia boyacense, vai constituindo grupos armados, provenientes das fileiras do Partido Conservador, que vão fortalecendo o paramilitarismo.
[i] Em Maio de 1947, uma greve geral dos transportes é considerada ilegal pelo governo, o qual suspende, então, a pessoa jurídica da CTC. No mês de julho do mesmo ano acontece, em Bucamaranga, o V Congresso Comunista, onde ocorre uma cisão: um grupo é liderado por Gilberto Vieira White e outro por Augusto Durán. Com efeito, no III Congresso do PCC, em 1938, o secretário-geral então nomeado, Augusto Durán, assume uma postura reformista, a tal ponto que o Partido muda de nome para Partido Socialista Democrático. No IV Congresso, em 1948, a linha reformista perde, Vieira White é designado secretário-geral e o partido retoma o nome de Comunista Colombiano. O grupo de Durán, no qual se encontravam dirigentes como Joaquín Moreno Días e Luis Morantes (alias, Jacobo Arenas), desvincula-se, então, do PCC. Luis Morantes reintegrará, depois, novamente o PCC, e fará parte do seu Comitê Central.
Bibliografia:
CANTOR, Renan Vega e al. Petróleo y protesta obrera: la USO y los trabajadores petroleros en Colombia. T. I. Bogotá: Nomos, 2009. Consultado em 19 de julho de 2014, em: http://www.rebelion.org/docs/163485.pdf
FARC-EP. “Comunicado 42 aniversario de las FARC-EP: col el inicio de 48 combatientes, Marquetalia es Colombia entera avanzando hacia la victoria”. Resistencia (Colômbia), outubro de 2006, p. 30.
FARC-EP (Marulanda Velez). “La operación Marquetalia”. Resistencia (Colômbia), outubro de 2006, p. 10-12.
G. Guzman Campos, O. Fals Borda et E. Umana Luna, La violencia en Colombia. T. I. Bogotá: Ediciones Tercer Mundo, 2005 [1962].
LENIN, Vladimir Ilitch. O oportunismo e a falência da II Internacional (janeiro de 1916). Consultado em 19 de julho de 2014, em: marxists.org/português/lenin/1916/01.falencia.htm#topp
OCAMPO, José Fernando. Colombia siglo XX. Estudio Histórico y antologia. T. I (1886-1934). S/C: Ediciones Tercer Mundo, 1980. Consultado durante os meses de setembro e de outubro de 2014, em: http://www.moir.org.co/-COLOMBIA-SIGLO-XX-Estudio-.html
PERALTA, Edgar Andrés Caro Peralta. “El petróleo es de Colombia y para los colombianos: la huelga de 1948 en Barrancabermeja y la reversión de la Concesión De Mares”. Anuario de Historia Regional y de las fronteras (Universidad Industrial de Santander, Bucamatanga, Colombia), vol. 8, n° 2, 2013. Consultado em 1 de outubro de 2014, em: http://revistas.uis.edu.co/index.php/anuariohistoria/article/view/3876























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