Terça-feira, 26 de maio de 2026
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Primeiro com Bolívar, depois com José Martí no século XIX, e até hoje, os pensadores da América Latina se esforçam para alertar sobre as ofensivas das nações coloniais e neocoloniais para impedir primeiro a independência e depois a unidade latino-americana.

Essa ofensiva da nações europeias e norte-americanas influenciou as elites autóctones que promoveram esforços de toda natureza para que cada país latino-americano se tornasse uma cópia dos países centrais do capitalismo. Martí, no artigo Agrupamento dos Povos da América, de 1883, dizia:

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“Como meninas em estação de amor voltam os olhos ansiosos pelo ar azul, em busca de galhardo noivo, assim vivemos suspensos de toda ideia e grandeza alheias, quer tragam o selo da França ou da América do Norte; e ao plantar astutamente, em solo de certo Estado e de certa história, ideias nascidas em outro Estado e em outra história, perdemos as forças de que necessitamos para apresentar-nos ao mundo – que nos vê carentes de amor e como entre nuvens – compactos no espírito e unidos na marcha, oferecendo à terra o espetáculo jamais visto de uma família de povos que avança alegremente a passos iguais, em um continente livre. Lemos Homero: acaso foi mais pitoresca, mais ingênua, mais heróica a formação dos povos gregos que a de nossos povos americanos?”

Martí critica nesse texto a influência do pensamento liberal importado da Europa e dos EUA. Ao ironizar o deslumbre pela história europeia, simbolizada na citação aos gregos, ele reflete nossa fraqueza latino-americana de nos olhar como uma só nação, de nos apoiarmos mutuamente.

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O século XXI caminha para sua segunda década e a batalha de Martí, apesar de grandes avanços, continua com inimigos. Os avanços são vistos na chegada ao poder de governos progressistas que – em maior ou menor grau – defendem a solidariedade política ou econômica das nações latino-americanas.

Das várias observações que a esquerda faz ao governo Lula, o maior elogio pode ser feito à política externa. Desde o início, ainda em 2003, Lula já demonstrava uma maior aproximação com as nações do “sul”. Por mais que algumas práticas econômicas se aproximassem dos modelos neoliberais anteriores, a política externa que defendia a auto-determinação, o desenvolvimento econômico e a integração da América Latina eram os pontos altos do governo.

Em junho de 1884, Martí já defendia essa união no artigo Livros de Hispano-Americanos e Rápidas Considerações: “Povo, e não povos, dizemos de propósito, por não nos parecer que há mais de um, do Bravo à Patagônia. Uma há de ser, visto que o é, a América, mesmo que não o quisesse; e os irmãos que lutam juntos ao final em uma colossal nação espiritual, hão de se amar depois”.

Falsa atenção

No entanto, a indústria jornalística, principalmente a brasileira, rejeita ferozmente essas tentativas de integração, o que fica mais evidente na cobertura da semana de 22 a 26 de fevereiro de 2010, que marcou a cúpula da América Latina e Caribe em Cancún (México) e a última viagem oficial de Lula pelo continente.

Um observador desatento diria que a indústria jornalística dá grande atenção ao tema pois, por dias seguidos, os jornais estão dando mais do que notas de pé página ao tema e, em alguns caso, dão até a capa.

Porém, como já dito em outros artigos e como foi defendido na dissertação de mestrado A Solidão da América Latina na Grande Imprensa Brasileira, a quantidade de material publicado não significa que a América Latina ocupe um lugar de destaque. Pelo contrário, a região continua a ser tratada pela imprensa como um quintal, com governos despreparados ou autoritários. E, como observou Martí, ainda no século XIX, a referência continua sendo os EUA e a Europa como modelos. “Andamos tão apaixonados por povos que têm pouca liga e nenhum parentesco como os nossos”.

No editorial de 25/2/2010, o Estado de S.Paulo mostra o que Martí já condenava. O editorial se reproduz também nas abordagens das coberturas durante a semana: críticas à posição brasileira de apoio à reivindicação da Argentina na questão das Ilhas Malvinas e à visita de Lula a Fidel Castro, por exemplo.

Em parte, essa ofensiva da indústria jornalística passa a colar a imagem de Lula a um “radical dinossauro de esquerda”, anti-democrático e estatizante, com objetivo de prejudicar seu apoio à sucessora escolhida para a eleição presidencial. Mas o editorial mostra os perigos que Martí já alertava: “Vemos colossais perigos (…). É necessário ir aproximando o que há de acabar por estar junto. Senão, crescerão ódios; não haverá defesa adequada frente aos colossais perigos, vivendo-se em perpétua e infame batalha entre irmãos”.

Alternativas

Ainda bem que nem tudo está perdido. Além deste site, há outros veículos que lutam para reforçar a solidariedade latino-americana. Mesmo que sem o mesmo poder de penetração na audiência, estes veículos lutam como vírus. Como exemplos, a Agência Carta Maior, o jornal Brasil de Fato, e Rede Brasil Atual. Veja alguns trechos:

Agência Carta Maior: “A crise nas Malvinas é muito mais do que um problema argentino. Trata-se de um resquício do império decadente na América Latina, e para nós, brasileiros, de um encrave colonial no espaço do Mercosul. Acertou a Unasul e os 32 países da Cúpula da Unidade da América Latina e do Caribe (Calc), que inclui membros da Commonwealth, em respaldar as reivindicações de nosso país irmão.” – Larissa Ramina, Doutora em Direito Internacional pela USP, Professora da UniBrasil.

Rede Brasil Atual: Segundo Lula, a falta de representatividade da ONU se reflete no embate entre Argentina e Reino Unido por causa das Ilhas Malvinas. “Qual é a explicação geográfica, política e econômica para a Inglaterra estar nas Malvinas. Qual é a explicação para a Organização das Nações Unidas não ter ainda tomado uma decisão e dizer que não é possível que a Argentina não seja dona das Malvinas. Será que é o fato de a Inglaterra participar como membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas, e que eles podem tudo e os outros não podem nada”, questionou.



Alexandre Barbosa é jornalista e professor de jornalismo, mestre em Ciências da Comunicação pela USP (2005) e especialista em jornalismo internacional pela PUC-SP (2000). Artigo publicado no site latinoamericano.jor.br.

A indústria jornalística dificulta a unidade latino-americana

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