Sábado, 4 de abril de 2026
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Do Ártico à Antártida, da Califórnia à costa da China, dando a volta ao mundo por todos os seus lados, latitudes e longitudes, a fama do Uruguai cresce.

Agora, por conta da mais completa e total legalização do ciclo da popular maconha, a científica cannabis. Não só por causa do feito épico de 16 de julho de 1950… Mas mudemos de assunto, ou voltemos ao assunto principal.

O Uruguai é um país de muitas famas. Algumas geográficas: num continente de gigantes, é um país diminuto, sem montanhas, cuja costa é banhada por um único rio (o da Prata), que seus habitantes chamam de “mar”,  e alguns quilômetros de oceano.

Outras negativas: o Uruguai teve fama de centro de lavagem de dinheiro (Mas que país não conta com suas lavanderias? E alguns outros países ou territórios parecem viver quase exclusivamente disto…). E não apenas recentemente. Isto vem dos tempos em que a burguesia brasileira, por exemplo, ao lado de outras, premida pela proibição do jogo, deixava os cassinos em Poços de Caldas, no Quitandinha, e alhures, ia gastar nas fichas das roletas et alii em Punta del Leste ou Carrasco.

Também houve fama sanguinária, das disputas entre Blancos e Colorados resolvidas algumas vezes no fio da faca no pescoço… Mas ora, lembremos dos também sanguinários conflitos entre Maragatos e Pica-Paus no Rio Grande do Sul, da triste série de degolas em Canudos…

O Uruguai é um país de muitas famas, algumas geográficas: num continente de gigantes, é um país diminuto, sem montanhas, cuja costa é banhada por um único rio.

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Extermínio de índios, como na guerra contra os charruas, alguns dos quais foram se refugiar no Brasil (!), chegando a lutar na Revolução Farroupliha? Ora, quem são seus vizinhos para falar disto? Brasil, Argentina, Chile, até o Paraguai e a Bolívia… E quanto à Europa, nem é bom falar. Muito menos os Estados Unidos. E em escala mundial.

Ditadura sanguinária? Não só os países ao redor as conheceram também, como, convenhamos, as monarquias, repúblicas e ditaduras europeias e a democracia norte-americana não foram menos sanguinárias. E na África e no Oriente? Ásia?

Bom, mas há Uruguai das famas boas. Com latifúndio e tudo, possui historicamente um dos melhores rebanhos do mundo. Coisa de dar inveja a argentinos e brasileiros. Pouca gente conhece, mas o Uruguai é um produtor de grandes aguardentes. E vinhos Tannat, para dizer o mínimo.

País avançadíssimo, na atrasada fama sul-americana, no que toca aos direitos da cidadania, à educação pública, à saúde, e também no que toca à laicidade do Estados. Quem viveu, lembra dos tempos em que, por exemplo, os casais brasileiros que queriam legalizar sua situação, depois de separações, tinham dois caminhos tradicionais: casar na Embaixada do México, no Rio de Janeiro, ou… no Uruguai. Era até chique! Ou “chick”, como se escrevia na época.

Durante a cerimônia fúnebre em honra a Nelson Mandela, ouvi  os discursos exaltando sua capacidade de emergir de 27 anos de cárcere sem ressentimento.

Um monumento à dignidade humana. Mas que dizer do atual presidente do Uruguai, José “Pepe” Mujica, emergindo de anos e anos numa solitária de três metros de diâmetro e não sei  quantos de profundidade, sem uma frase de vingança, só de reconciliação e justiça? Tivemos a honra, nós da equipe Carta Maior, de fazer uma inesquecível entrevista com ele e sua esposa na sua chácara nas lindes de Montevidéu, quando ele foi eleito presidente do Senado, na posse de Tabaré Vásquez como presidente. Ele então nos confidenciou – naquela época em primeira mão – que aprendera a conversar com os insetos, com as formigas que, segundo ele, entre outras coisas, gritam. Só uma sensibilidade infinitamente superior à daquela que é dada ao comum dos mortais alcança isto.

Agora novamente o Uruguai espanta o mundo. É o primeiro país a legalizar completamente o ciclo da popular maconha, a cientíifca cannabis. Tudo: plantação, distribuição, venda e consumo. Mais: oh!, heresia das heresias, blasfêmia das blasfêmias! Na contramão das superstições da ortodoxia neoliberal, tudo fica sob o estrito controle, senão manejo,  do Estado. Este, talvez, seja o maior desafio do repto que o Uruguai tem pela frente e coloca diante do mundo epustuflado pela ousadia. Garantir que o Estados não seja “fonte” de corrupção sistêmica, mas sim um saneador de um campo minado com o da circulação de drogas.

As estimativas falam que circulam no dimunuto Uruguai algo entre 30 e 40 milhões de dólares anualmente, nas veias do narcotráfico ligadas à produção ou importação (dos países vizinhos) de maconha. Dinheiro sujo a ser lavado, livre de impostos, controle, fonte de outras contravenções e crimes. Convenhamos: mutatis mutandis, o narcotráfico é a quintessência da prática neoliberal: livre do Estado, regras definidas inteiramente pela liberdade de mercado, sem impostos – bom talvez se possa compreender as inevitáveis propinas a autoridades policiais e outras como uma forma de impostos…

É contra tudo isto, além dos preconceitos generalizados em torno da criminalização e culpabilização dos usuários, que o Uruguai, Pepe Mujica e a Frente Ampla se levantam.

Tomara que dê certo.

Cumprimentos ao épico Uruguai.

Mas sem outro 16 de julho, por favor…

(*) artigo publicado originalmente em Carta Maior