Segunda-feira, 26 de janeiro de 2026
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Enquanto as relações entre Brasil e Israel estão ainda mais abaladas desde que Brasília ignorou a indicação de um novo embaixador de Tel Aviv, outro elo liga os dois países em conexões incomuns, mas mais intensas do que a atual diplomacia: o psytrance, subgênero da música eletrônica no qual Israel é referência, e os brasileiros grandes consumidores.

Apesar de abordar temas diferentes da diplomacia, a relação musical entre Israel  e demais países têm sido abalada pelos mesmos motivos: o genocídio promovido contra os palestinos na Faixa de Gaza. Todas essas relações foram reveladas por uma reportagem da Folha de S. Paulo publicada nesta segunda-feira (01/09).

Um exemplo desse tremor ocorreu em junho, com o cancelamento do show de Skazi Asher Swissa, DJ israelense de psytrance, na edição do Tomorrowland, um dos maiores festivais de música eletrônica do mundo, na Bélgica. Uma próxima edição ocorrerá em outubro na cidade de Itu, no interior do Estado de São Paulo, no Brasil.

Segundo a equipe de Skazi, a apresentação foi cancelada por “preocupações de segurança”, sem mais detalhes. Segundo a Folha, o músico, que é referência mundial no psytrance, se autodenomina “DJ de combate”, já fez shows para as Forças de Defesa Israelenses (IDF, na sigla em inglês), produziu uma música para o movimento The Civil Front (Movimento Frente Civil, criado para apoiar o exército israelense após o início da guerra em Gaza) e participou de um evento em memória da rave atacada pelo Hamas em 7 de outubro de 2023.

Em uma clara relação entre Brasil e Israel na música, a própria rave alvo dos ataques da resistência palestina, denominada festival Nova, era um braço do evento brasileiro Universo Paralello.

A Folha resgatou uma declaração de Pedro de Freitas, cofundador do Papo Paralello, podcast especializado em psytrance, sobre os papéis do Brasil e de Israel no cenário musical eletrônico: “Israel sempre foi o polo do psy, é de onde saíram os principais artistas, nomes como Astrix, Infected Mushroom, Skazi, entre outros. Mas hoje em dia o Brasil ultrapassou Israel em termos de festas e artistas: o público de Israel quer muito ver DJs brasileiros, muitos têm ido para lá, e tem DJs israelenses que veem o Brasil como o principal objetivo de carreira”.

Com isso em mente, o calendário do psytrance no Brasil é extenso. Com eventos durante todo o ano e em todo o país, cada festival reúne “cerca de 15 a 20 mil pessoas”, segundo Freitas.

Entre os artistas que se apresentam nos eventos, além dos brasileiros, e alguns de outros países, estão os israelenses. Na edição do Tomorrowland no Brasil, três DJs de Israel se apresentarão: Blastoyz, Infected Mushroom e Omiki. Para recebê-los, é comum que o público brasileiro levante bandeiras do país em meio à multidão.

A origem do psytrance em Israel

O som do psytrance é definido pela reportagem como “um encontro de cânticos tradicionais e sequenciadores eletrônicos” com “andamento acelerado, batidas saturadas e texturas atmosféricas”, tocado em raves que pregam a ideia de paz.

Também chamado de “trance psicodélico”, o estilo surgiu na década de 1980 em Goa, na Índia como um cruzamento entre o movimento hippie, música eletrônica e espiritualidade, de acordo com a Folha de S. Paulo.

Skazi Asher Swissa, DJ israelense de psytrance, com bandeira de Israel em uma de suas apresentações
skazi_asher/Instagram

Já na década de 1990 o estilo atraia muitos turistas para a Índia, inclusive brasileiros e israelenses. Contudo, não eram quaiquer cidadãos israelenses. Havia um recorte muito específico de israelenses que conheciam o psytrance: jovens que viajavam para o exterior após cumprir seu serviço militar obrigatório — motivo pelo qual o estilo é tão difundido entre as IDF.

Essa relação foi concluída pelos estudos de Bryan Meadan, pesquisador canadense radicado em Israel. Segundo ele, na época, os jovens se identificavam com o que o psytrance pregava, em detrimento do militarismo e nacionalismo das IDF. A tendência levou o gênero a ser marginalizado em Israel, com eventos organizados de forma escondida e frequentes abordagens policiais.

De acordo com Meadan, citado pela Folha, o psytrance passou a representar “um choque às bases ideológicas do nacionalismo israelense”, que eram essenciais não apenas para a fundação e estabelecimento do recém-criado país, mas também para o governo do primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, que estava em seu primeiro mandato na década de 1990.

Apesar da repressão do governo, o psytrance “virou um fenômeno de massa em Israel” já que a indústria tecnológica do país facilitou o acesso dos jovens ao consumo e produção desse tipo de música. Segundo Maedan, a popularidade do estilo deixou a contracultura para trás, mas ressalta que os israelenses do psytrance nunca produziram músicas de protesto, e sim apenas por gosto.

Os jovens logo se tornaram artistas que passaram a fazer sucesso e apresentações em outros locais do mundo, inclusive no Brasil a partir dos anos 2000. Foi em um festival em Goiás, intitulado Trancendence, que o DJ Skazi veio ao país latino-americano pela primeira vez.

Comunidade brasileira de psytrance não se abala com Gaza

Com a intensificação da ofensiva das IDF na Faixa de Gaza, Israel passou a ser criticado por outros países e comunidades, em diversos cenários, não apenas os diplomáticos, como o esportivo, cultural e inclusive o musical.

Contudo, para a comunidade brasileira que consome o psytrance, essa não é a realidade. “Forjada no niilismo hippie e na jornada espiritual, do início em Trancoso, na Bahia, ao sucesso em Alto Paraíso, Goiás, a comunidade brasileira do psytrance parece impassível ao conflito”, escreve a reportagem.

A Folha resgata o posicionamento de Luiz Guilherme Salla, chamado pelo nome artístico de DJ Feio, que organiza festivais que trazem artistas israelenses, mas também já foi diversas vezes ao país para se apresentar: “O psy é a união de todos, no sentido de encontrar uma liberdade que hoje em dia as pessoas não tem: a festa é um domo, você entra ali e tudo fica para trás”, declarou.

O questionamento chegou a ser levantado por Bruno Ottoni, o DJ Xamã, da Universo Paralello: “Eu entendo que a presença de artistas israelenses em raves brasileiras é um tema complexo, especialmente no contexto do conflito, então é importante considerar questões éticas e políticas envolvidas”, afirmou, citado pela Folha.

O DJ Xamã ainda disse ser defensor da solução de dois Estados para o conflito e que apesar da ideia do psytrance ser “um refúgio da realidade é impossível separar totalmente a música da política e dos eventos mundiais”.