Terça-feira, 27 de janeiro de 2026
APOIE
Menu

Em uma carta aberta publicada nesta quinta-feira (14/08), mais de 120 acadêmicos condenaram a decisão tomada pela Universidade de Harvard de cancelar uma edição inteira de uma revista acadêmica, a Harvard Educational Review, dedicada a assuntos da Palestina.

No documento, os signatários classificaram a medida da editora Harvard Education Publishing Group (HEPG), responsável pela publicação da revista, como “censura” e uma “tentativa de silenciar o exame acadêmico do genocídio, fome e desumanização do povo palestino pelo Estado de Israel e seus aliados”.

Eles também afirmaram que a decisão configura uma “discriminação antipalestina” ao obstruir a disseminação de conhecimento sobre a Palestina “no auge do genocídio em Gaza”. Entre as exigências apontadas pelos acadêmicos, incluem-se um pedido público de desculpas aos autores, a recomposição da edição especial e a implementação de salvaguardas para proteger a independência editorial. Até que essas condições sejam atendidas, os estudiosos prometeram boicotar a editora e a afiliada Harvard Education Press. 

A edição, planejada seis meses após o início do genocídio promovido por Israel em Gaza, buscava abordar temas como a educação dos palestinos, o ensino sobre a Palestina em escolas e universidades dos Estados Unidos, além dos desafios enfrentados por educadores em meio ao massacre. A proposta era destacar o papel crucial da educação em contextualizar a questão palestina e a situação em Gaza, onde centenas de escolas foram fechadas e todas as instituições de ensino superior foram destruídas.

De acordo com a reportagem do jornal britânico The Guardian, quando a edição da revista já estava finalizada, com contratos assinados e anúncios em conferências, a HEPG exigiu que todos os textos passassem por uma revisão de “avaliação de risco” conduzida pelo conselho geral da Universidade de Harvard. Diante da resistência dos autores, a editora optou por cancelar a publicação inteiramente.

Em e-mail obtido pelo The Guardian, a diretora executiva do HEPG, Jessica Fiorillo, alegou um “processo de revisão inadequado”, necessidade de “edição de cópia considerável” e “falta de alinhamento interno” sobre a edição. Ela negou que a decisão estivesse ligada à censura ou à liberdade acadêmica.

Autores e editores rejeitaram a justificativa, acusando a universidade de estabelecer um “precedente perigoso” e reforçar o que estudiosos chamam de “exceção palestina” na liberdade acadêmica.

Universidade de Harvard é pressionada pelo governo de Donald Trump, que a acusou de suposto ‘antissemitismo’
Kevin Payravi / Wikimedia Commons

Repressão do governo Trump

O caso ocorre em meio a crescentes pressões políticas sobre universidades norte-americanas, especialmente após o governo de Donald Trump cortar bilhões em fundos federais para instituições educacionais que denunciam o genocídio israelense. O republicano classifica tais movimentos de “antissemitismo” .

Embora a Universidade de Harvard tenha processado a Casa Branca em resposta às medidas, ela também adotou internamente políticas controversas, como, por exemplo, a definição ampla de antissemitismo, além do descarte de iniciativas que abrem espaço para narrativas palestinas.

Ao The Guardian, um dos editores da revista Harvard Educational Review associou o cancelamento da edição especial aos temores de que a publicação gerasse acusações de antissemitismo. 

Organizações como a PEN America e a Associação de Estudos do Oriente Médio da América do Norte (MESA) também rejeitaram o cancelamento. Segundo Kristen Shahverdian, da PEN America, a decisão foi um “ataque flagrante à liberdade acadêmica”.

“Silenciar essas vozes acadêmicas rouba de acadêmicos, estudantes e do público a oportunidade de se envolver com suas ideias. Também envia uma mensagem assustadora no contexto da pressão implacável do governo Trump sobre a Universidade de Harvard e da crescente interferência política no ensino superior, incluindo esforços que visam bolsas de estudo sobre a Palestina”, disse.