Sábado, 16 de maio de 2026
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Os eleitores franceses decidirão neste domingo (24/04) quem será o próximo presidente do país, no segundo turno da eleição entre o atual líder, Emmanuel Macron, e a candidata da extrema direita, Marine Le Pen. Mas independentemente do escolhido, as relações entre a França e o Brasil – abaladas depois dos desentendimentos entre Macron e o presidente Jair Bolsonaro –, não devem se reaquecer tão cedo, avaliam especialistas ouvidos pela RFI Brasil.

Christophe Ventura, diretor de pesquisas do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (Iris), de Paris, onde é especialista em geopolítica da América Latina, ressalta que, de um ponto de vista mais amplo, Macron jamais demonstrou interesse pelos países latinos.

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“O primeiro mandato de Macron foi marcado por uma relação distante com a América Latina, se comparamos com os seus predecessores. À exceção de uma viagem a Buenos Aires, que ele fez no contexto de um encontro do G20, e não em visita oficial, Macron não foi à América Latina, não desenvolveu projetos específicos com a região”, sublinha. “Ficamos num padrão automático da diplomacia francesa e as relações bilaterais tradicionais.” 

Da mesma forma, a candidata da extrema direita simplesmente ignora o tema. A política externa de Le Pen se limita a promover o controle da imigração e da soberania nacional ante o resto do mundo, inclusive os Estados Unidos.

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“Na América Latina, Marine Le Pen enxerga apenas os territórios franceses, a Guiana Francesa, as Antilhas, no Caribe, onde ela foi durante a campanha. Mas além disso, é um mistério”, frisa Ventura. “Que eu lembre, ela nunca comentou sobre essa região do globo e acho que a América Latina não é um assunto, para ela.”

Mudanças só se Bolsonaro sair

O professor de Relações Internacionais da UnB Antônio Jorge Ramalho Rocha concorda que a América Latina se tornou “marginal” para os interesses europeus, mas lembra que a maior fronteira que a França tem é com o Brasil, com a Guiana Francesa. “Há problemas que se colocam na nossa região e que vão se fazer sentir na França, de um modo ou de outro”, afirma.

Mesmo assim, o distanciamento político tende a permanecer, principalmente se Macron e Bolsonaro continuarem no poder, já que os brasileiros também vão às urnas este ano. Em 2019, os recordes de desmatamento na Amazônia levaram os dois presidentes a uma série de trocas de farpas, que conduziram França e Brasil ao afastamento mais profundo em décadas. Desde então, as relações bilaterais no âmbito dos governos estão “no modo automático” – limitadas ao intenso comércio e aos laços culturais e históricos que unem os dois países.

“A reaproximação só vai acontecer se Bolsonaro sair do Planalto. A França vem mantendo a sua coerência em política externa. Quem mudou de rumo foi o Brasil”, pontua o professor. “Uma parte da agenda que a França defende é a agenda tradicional da política externa brasileira, de respeito ao multilateralismo e dos direitos humanos, solução pacífica de controvérsias. A partir do governo Bolsonaro, o Brasil começou a agir contra a sua tradição e contra o bom senso, em vários sentidos”, ressalta.

Franceses decidirão neste domingo (24/04) quem será o próximo mandatário do país, no segundo turno entre o atual líder, e a candidata da extrema direita

Frederico Mellado/ARG

Distanciamento político tende a permanecer, principalmente se Macron e Bolsonaro continuarem no poder

Tapete vermelho para Lula

Mas o cenário deve ser outro se Brasília mudar de rumo nas próximas eleições presidenciais, em outubro. Ventura afirma que Macron espera poder dialogar melhor com o Brasil se o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltar ao poder, em especial sobre a agenda ambiental. Em novembro, Lula esteve em Paris e foi recebido pelo chefe de Estado de francês com ares de presidente.

“Na minha opinião, é evidente que se o Lula voltar à presidência do Brasil, a França será um dos primeiros países a convidá-lo oficialmente”, aposta o especialista francês. “Se Macron for reeleito, ele terá um grande interesse em termos de imagem, de posicionamento politico, de mostrar que ele tem as melhores relações possíveis com o maior líder da esquerda latino-americana, já que na França ele se esforça para manter a imagem de que governa entre a esquerda e a direita – embora, na prática, ele seja cada vez mais de direita. Portanto, para ele, vai ser interessante poder se mostrar ao lado de Lula”, analisa. 

Marine Le Pen, por sua vez, chegou a ensaiar uma aproximação com Bolsonaro após a eleição do líder da extrema direita, em 2018. Mas diante das declarações do presidente de encontro à França, logo tomou distância do brasileiro.

Christophe Ventura avalia que ambos são “são produto da crise econômica e social, a desconfiança generalizada e crescente em relação às instituições e a democracia”, entre outros aspectos. Mas diferenças importantes os opõem – Le Pen declarou que Bolsonaro fez comentários “desagradáveis que não podem ser transferidos para o contexto francês”, argumentando que o Brasil “tem uma cultura diferente”. 

“Há uma rejeição do globalismo, reivindicada por Le Pen nessa reta final da campanha, de defesa do Ocidente cristão ante às ameaças culturais e religiosas, a ideia do choque de civilizações, a rejeição dos muçulmanos e dos direitos das minorias. Entretanto, apesar de algumas similaridades, eu não acho que as relações entre Marine Le Pen e Jair Bolsonaro tenham se desenvolvido, nos últimos anos”, constata Ventura.

Acordo UE-Mercosul

Do ponto de vista econômico, a visão mais nacionalista de Le Pen potencialmente acarretaria prejuízos ao Brasil. A candidata é uma ferrenha crítica à União Europeia e à globalização – pelos dois aspectos, sua visão de mundo prejudica o comércio internacional. Obviamente, ela se opõe ao acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, que beneficiaria as exportações brasileiras de produtos agrícolas para o bloco europeu.

“A questão do protecionismo agrícola vai falar muito mais alto. Esse é o público dela: a maior parte dos seus eleitores está na França profunda. Seria muito difícil conseguir que esse acordo avançasse”, diz Ramalho Rocha. “Mas o fato é que, de qualquer forma, o acordo não acontecerá enquanto o Bolsonaro estiver no poder. Isso está muito claro. Não é uma questão de Le Pen ou Macron: é uma questão de uma reação muito forte das sociedades europeias às posturas brasileiras em relação a uma série de políticas, especialmente as ambientais”, salienta.