Luta contra pandemia está sendo criminalizada, diz secretário de Saúde do Pará em carta de demissão
Alberto Beltrame renunciou ao cargo após ser alvo de investigações pela PF por supostas fraudes na compra de respiradores pulmonares
Atualizada às 14h15
O ex-secretário de Saúde do Pará e ex-presidente do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), Alberto Beltrame, ao anunciar sua renúncia de ambos os cargos na última quarta-feira (01/07), disse que a luta contra a pandemia do novo coronavírus está sendo criminalizada.
As declarações foram feitas em nota oficial divulgada pelo Conass e fazem referência às investigações conduzidas pela Polícia Federal das quais Beltrame é alvo. O ex-secretário é acusado de supostas fraudes na compra de respiradores pulmonares pelo governo do Pará para tratar de casos graves de infecções pelo novo coronavírus.
No dia 23 de junho, a PF cumpriu mandados de busca e apreensão em quatro endereços ligados a Beltrame. Além disso, o ex-presidente do Conass teve seu sigilo bancário quebrado pelo Tribunal de Justiça do Pará depois que o MP do estado moveu uma ação contra o ex-secretário por improbidade administrativa.
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“Corremos riscos para salvar vidas e avançamos muito. Implantamos leitos de UTI em tempo recorde e assistimos nossa comunidade. Agora vemos todos nossos esforços serem criminalizados. A omissão, nos parece ser, em contrapartida, premiada”, destaca Beltrame.
O ex-funcionário do governador do Pará, Helder Barbalho (MDB), ainda afirma que seguirá “lutando pela saúde de todos e na defesa incondicional do SUS, onde estiver. Este é o meu compromisso de vida, que não abandonarei”.
‘Ficamos sós’
Em sua nota de renúncia, Beltrame fez duras críticas ao Ministério da Saúde do governo de Jair Bolsonaro, afirmando que apelou à pasta “para que assumisse sua função de centralizar, comprar e distribuir equipamentos, insumos e medicamentos” para combater a covid-19, mas disse que as promessas não foram cumpridas.
“Recebemos promessas de que leitos de UTI, equipamentos de proteção individual e medicamentos seriam comprados pelo Ministério e entregues aos estados e municípios. Estes compromissos não foram cumpridos e ficamos sós”, disse.

Wikicommons
Alberto Beltrame é acusado de supostas fraudes na compra de respiradores pulmonares pelo governo do Pará para combater covid-19
Segundo Beltrame, “secretários, governadores e prefeitos, sem alternativa, diante de hospitais lotados e de mortes diárias, foram jogados num cassino internacional, com mercado aviltado, preços exorbitantes, num verdadeiro leilão de bens para a saúde”.
“O Ministério da Saúde deixou de cumprir seu papel essencial numa emergência em saúde pública: coordenar as ações, orientar o isolamento social e também o de utilizar seu poder de compra para gerar economia de escala aos cofres públicos e normalizar e regular preços”, afirma.
Leia a nota de Alberto Beltrame na íntegra:
Informo que no dia de hoje pedi licença do cargo de Secretário de Estado de Saúde do Pará e, por consequência, renuncio à presidência do Conass.
Tomei esta decisão para poder cuidar de minha saúde e me dedicar à defesa do meu maior patrimônio: a minha honra e dignidade.
Durante a pandemia, em nome do Conass, apelei diversas vezes ao Ministério da Saúde para que assumisse sua função de centralizar, comprar e distribuir equipamentos, insumos e medicamentos para salvar vidas durante a pandemia.
Recebemos promessas de que leitos de UTI, equipamentos de proteção individual e medicamentos seriam comprados pelo Ministério e entregues ao estados e municípios.
Estes compromissos não foram cumpridos e ficamos sós.
Secretários, governadores e prefeitos, sem alternativa, diante de hospitais lotados e de mortes diárias, foram jogados num cassino internacional, com mercado aviltado, preços exorbitantes, num verdadeiro leilão de bens para a saúde.
Assim, o Ministério da Saúde deixou de cumprir seu papel essencial numa emergência em saúde pública: coordenar as ações, orientar o isolamento social e também o de utilizar seu poder de compra para gerar economia de escala aos cofres públicos e normalizar e regular preços.
Diante de uma pandemia, tantas vezes negada ou minimizada, fomos colocados frente à frente com uma uma dura realidade: a vida ou a morte.
Não nos omitimos. Levantamos a voz diante de tanta indiferença, falta de empatia, solidariedade e compaixão.
Corremos riscos para salvar vidas e avançamos muito.
Implantamos leitos de UTI em tempo recorde e assistimos nossa comunidade. Agora vemos todos nossos esforços serem criminalizados.
A omissão, nos parece ser, em contrapartida, premiada.
Enfrentei pessoalmente a própria COVID-19. Muitos colaboradores adoeceram, vários colegas de trabalho, inclusive meu diretor financeiro, morreram neste embate. Mesmo diante de tantas adversidades, segui dando o melhor de mim para que o enfrentamento à pandemia não sofresse solução de continuidade.
Nada fiz de errado. Não cometi nenhum desvio de conduta, neste momento ou em toda a minha vida pregressa.
Antes de me licenciar do cargo criei Comissão com o fim de apurar eventuais irregularidades nos procedimentos administrativos e contratos com despesas relacionadas à pandemia. Além disso oficiei a Procuradoria Geral do Estado solicitando providências quanto a possibilidade desta Secretaria assinar um Termo de Ajustamento de Conduta com o MP/PA e MPF com o intuito de atuar com transparência e colaboração diante de qualquer investigação de possíveis irregularidades.
Nada tenho a esconder ou temer. Ressalto que todo o meu patrimônio é fruto de 35 anos de trabalho e está todo declarado em meu imposto de renda, o qual, disponibilizarei a qualquer autoridade investigativa se necessário.
Espero que a justiça seja feita e que possa reparar a dor, o sofrimento e adoecimento que me são infligidos neste momento tão difícil.
Seguirei lutando pela saúde de todos e na defesa incondicional do SUS, onde estiver. Este é o meu compromisso de vida, que não abandonarei.
Agradeço a solidariedade e apoio de meus colegas e lhes desejo sorte e sucesso.
Estou pagando um preço alto por lutar e acreditar que a vida é nosso bem maior. Fiz o que deveria fazer, cumpri meu papel de médico, cidadão e gestor público
Desejo a todos os irmãos brasileiros força e coragem. Venceremos esta pandemia.
Alberto Beltrame























