Sexta-feira, 29 de maio de 2026
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Um milhão de contaminados e mais de 50 mil mortos pela gripezinha. Esses são os dados oficiais. Especialistas denunciam uma subnotificação que poderia levar os números reais a 5 ou 10 vezes mais.

Mas a indiferença, o desconhecimento ou a má fé fazem de tudo para que esses números sejam escondidos ou permaneçam, cada vez mais, no terreno da abstração.

Tudo que a grande mídia não mostra, do seu jeito.

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Passamos anos ouvindo, em geral depois de festas de fim de ano ou de um feriado prolongado, que a precariedade de nossas estradas e vias e a imprudência dos motoristas faziam do Brasil um recordista mundial de mortes no trânsito. Lembram dos números? Perguntemos ao Google para descobrir que, por coincidência, a série estatística mostra entre 40 e 50 mil mortes ao ano.

Quando os Estados Unidos atingiram essa marca, a comparação que tomou as páginas da imprensa mundial foi com o número de perdas na Guerra do Vietnã. Mas isso é muito distante de nós, afinal, somos um povo pacífico e cordial segundo uma fantasia construída ao longo do tempo.

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Nossa última guerra de verdade foi há mais de um século e meio. Historiadores respeitáveis indicam que naquela que estudamos no colégio como a Guerra do Paraguai, as tropas brasileiras terão perdido cerca de … 50 mil homens. É verdade que um grande números destes eram pretos ou pardos, cujas vidas até hoje valem muito menos que a dos brancos.

O vírus que chegou de avião e se espalhou inicialmente em festas de ricos hoje faz a sua colheita macabra nas periferias

Fotos Públicas

O vírus que chegou de avião e se espalhou inicialmente em festas de ricos hoje faz a sua colheita macabra nas periferias

Vidas pretas são muito mais baratas, se é que valem alguma coisa, no cotidiano das nossas periferias e no amontoado infecto de sub-seres humanos que chamamos de prisões.

Se estivéssemos de fato interessados no significado social e humano dessa pandemia exigiríamos que as estatísticas de óbitos indicassem condição social e raça das vítimas.

Isso esfregaria na nossa cara que o vírus que, já se sabe, chegou de avião e se espalhou inicialmente em festas de ricos, hoje faz a sua colheita macabra nas periferias, entre os pobres, que não tem como “ficar em casa”, que às vezes não tem casa para ficar e que, para quem não percebeu ainda, não são apenas, mas são majoritariamente pretos e pardos.

Me pergunto se o eventual leitor estranhou que não falei de Weintraub, que vai ganhar 120 mil reais no Banco Mundial; nem do Queiroz, humanitariamente abrigado na casa do advogado da famiglia presidencial. Os mais atentos ao debate das redes poderiam talvez esperar que eu falasse de derrubar estátuas.

Tudo isso é bobagem. Como diria o elegante posto Ipiranga, vamos logo abrir a porra do shopping!

*Carlos Ferreira Martins é professor titular do IAU USP São Carlos