Domingo, 10 de maio de 2026
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O primeiro turno das eleições presidenciais do Chile, neste domingo (16/11), pode consolidar o cenário inédito de uma candidata presidencial do Partido Comunista (PCCh, por sua sigla em espanhol) chegando ao segundo turno, talvez com a maior votação.

Quem pode alcançar essa façanha é Jeannette Jara, ex-ministra do Trabalho do governo de Gabriel Boric, que aparece liderando em todas as pesquisas realizadas nas últimas seis semanas.

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Porém, manter essa liderança tendo que defender um governo mal avaliado obrigou a candidata a mudar a estratégia utilizada em sua vitória nas prévias governistas, realizadas em junho passado, se adaptando a um cenário no qual os adversários não eram mais figuras da centro-esquerda, mas sim três candidaturas da extrema direita local.

Jara se tornou candidata em junho deste ano, após vencer as prévias governistas com 60,17% dos votos, impondo uma ampla margem sobre a candidata de centro-esquerda Carolina Tohá, do Partido Pela Democracia, que ficou com 28,07%.

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Assim, ela se tornou oficialmente a candidata da coalizão Unidade Pelo Chile, que também reúne o Partido Socialista, o Convergência Social (partido do presidente Boric) e a Federação Regionalista Verde, entre outras forças de centro-esquerda.

Segundo o analista político e ex-ministro Francisco Vidal, a principal mudança na estratégia foi “o ajuste do programa à uma base de apoio mais ampla, que foi além do Partido Comunista”.

“Jara conseguiu reunir grupos que não faziam parte do governo, desde o histórico Partido Democrata Cristão, de centro e por vezes conservador, até organizações de esquerda críticas ao governo do presidente Boric”, acrescentou Vidal, que foi ministro da Defesa durante o governo de Michelle Bachelet (2006-2010), e do Interior no governo de Ricardo Lagos (2001-2006).

O analista político ressaltou que “com esse novo cenário, a candidatura passou a contar com o apoio de nove partidos, o que permitiu a Jara alcançar um público muito maior, liderar as pesquisas e manter um crescimento constante ao longo da campanha”.

Militância comunista

Outra questão importante, mas que foi apenas cogitada no primeiro turno, foi com respeito à filiação da candidata ao Partido Comunista.

Em uma entrevista à Rádio Cooperativa, durante a campanha, Jara chegou a admitir que cogita renunciar ou suspender sua filiação partidária caso passe ao segundo turno.

“É bem provável, porque a verdade é que vejo que durante a campanha muita controvérsia foi gerada em torno disso”, afirmou na ocasião.

Voto jovem

Para o ex-ministro, a mudança na estratégia de Jara consistiu em uma alteração tática em três frentes: uma ampliação do tom, maior intervenção na mídia tradicional e uma atuação digital voltada para conquistar o voto jovem.

Algumas pesquisas apontaram que a candidata possui vantagem entre os menores de 30 anos, o que inclui pessoas que vivenciaram a revolta social de 2019 e que atualmente se expressam mais pelas redes sociais do que pelas estruturas partidárias.

“A campanha desenvolveu uma série de produtos audiovisuais dinâmicos, transmissões ao vivo e públicos microsegmentados que a posicionaram como a opção para um progressismo amplo, para além dos simpatizantes do governo atual, o que é importante no enfrentamento de uma extrema-direita dividida, mas que é forte nas urnas”, avaliou Vidal.

Jeannette Jara é a candidata da coalizão Unidade Pelo Chile nas eleições presidenciais deste domingo (16)
Mauricio Leandro Osorio

Segundo o ex-ministro, “esse voto (dos jovens), juntamente com o dos eleitores indecisos, será fundamental para o resultado final deste domingo, já que esta será a primeira eleição presidencial realizada no Chile com um novo sistema de voto obrigatório”, analisou o ministro.

O voto obrigatório será uma das novidades das eleições deste ano, já que entre 1989 – ano em que ocorreu a primeira eleição pós ditadura – e 2009, o voto era obrigatório no Chile, mas a inscrição eleitoral não era. Ou seja, as pessoas podiam ou não fazer sua inscrição no Serviço Eleitoral (Servel), mas uma vez inscritas eram obrigadas a votar, e se não eram inscritas não tinha direito a voto em nenhuma eleição.

A partir de 2012, passou a valer, para as eleições municipais daquele ano, a Lei de Inscrição Automática, ou seja, todos os cidadãos passaram a ser automaticamente inscritos no Servel a partir dos 18 anos, e com isso o voto passou a ser facultativo.

Desta vez, o voto será obrigatório e todos os maiores de 18 anos estão automaticamente inscritos, o que configura um cenário de voto obrigatório para todos, algo inédito no país.

Segurança pública e paralelo com Lula

Outra dificuldade da campanha de Jara foi a abordagem sobre o tema da segurança pública, apontada pelas pesquisas como uma das maiores preocupações da população e que costuma ser um tema favorável à direita tradicional e à extrema direita.

Sobre isso, Vidal alertou que esse deve ser o grande desafio da candidata comunista no provável segundo turno. Para ele, “a direita não cresceu por causa do eleitorado dos municípios ricos, como no passado, e sim porque conseguiu penetrar nos municípios da classe trabalhadora devido à questão da segurança”.

“Jara precisa apresentar medidas concretas de segurança que convençam a classe trabalhadora, sem abrir mão de uma agenda econômica que garanta um padrão de vida digno sem precisar recorrer ao crédito”.

Ademais, o analista político defende que Jara deve adotar um discurso como o de Lula em 2002, “quando o presidente brasileiro ganhou sua primeira eleição prometendo que os brasileiros fariam refeições por dia”.

“Esse tipo de mensagem, direta e fácil de entender, é o que a candidata precisa usar para vencer a extrema direita”, frisou.

Com informações de Rádio Cooperativa.