Domingo, 10 de maio de 2026
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No programa 20 MINUTOS ANÁLISE desta terça-feira (01/06), o jornalista e fundador de Opera Mundi, Breno Altman, refletiu sobre a tática da esquerda para enfrentar Jair Bolsonaro, especialmente a política de alianças e a sucessão presidencial.  

Para ele, a anulação das sentenças de Lula e a recuperação de seus direitos eleitorais representaram o surgimento de uma nova cena política, “que se consolidou com as importantes manifestações do dia 29 de maio”.

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“A decisão do ministro Edson Fachin, confirmada pelo pleno do Supremo Tribunal Federal, que também reconheceu a suspeição do ex-juiz Sérgio Moro em todos os processos envolvendo o líder petista, constitui-se na maior vitória das forças progressistas desde 2014, quando a presidente Dilma Rousseff foi reeleita. Depois de sete anos no sal, a esquerda voltou a ter um triunfo importante”, ressaltou.

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A partir desse episódio, o jornalista avalia que houve uma mudança no palco principal da disputa política. “Até então, era ocupado por um confronto entre forças conservadoras: o neofascismo, representado por Bolsonaro, e a oposição de direita, formada pelos velhos partidos burgueses, como o PSDB, o DEM e o MDB, que diferem apenas na via política para implementar a agenda defendida pelo grande capital”, destacou.  

Na avaliação de Altman, agora há uma polarização clara entre o neofascismo e o campo progressista, protagonizado por Lula e o Partido dos Trabalhadores. De acordo com ele, outro elemento que consolida a polarização é o enfraquecimento da fração liderada por Ciro Gomes.

“Seu cálculo previa carregar parte dos votos progressistas, capturar segmentos antipetistas ao centro e assumir o comando da oposição no segundo turno das eleições presidenciais, afastando tanto o PT quanto a direita neoliberal. Com a perspectiva de Lula ser candidato, essa estratégia aparentemente foi por água abaixo. O ex-governador cearense decidiu, então, incrementar seus ataques ao petismo, se desassociando do campo progressista e se apresentando à oposição de direita como uma alternativa capaz de resgatar a ‘terceira via’”, ponderou. 

Desgaste de Bolsonaro

À reabilitação eleitoral de Lula soma-se ao desgaste do governo Bolsonaro, na análise de Altman, “que gera um efeito gangorra, impulsionando o crescimento de Lula nas pesquisas eleitorais”. 

Do ponto de vista da militância, esses fatos estão incitando esperança e indignação: “O gosto da vitória fez com que setores importantes das massas populares recuperassem confiança na sua própria capacidade de luta e fossem regenerados os laços de identidade com os partidos de esquerda, bastante esgarçados com as seguidas derrotas no pós-2014”. 

Por isso, na opinião do jornalista, as manifestações do dia 29 de maio, alinhadas pelo Fora Bolsonaro, demonstraram força. “Os partidos de esquerda e os movimentos sociais tiveram o tirocínio e a coragem de fazerem o que deveria ser feito: romper a inércia, retomar a ofensiva, mover multidões, construir na luta a frente e a alternativa de esquerda contra o governo Bolsonaro”, reforçou. 

Para ele, não sair às ruas “seria ceder espaço para a continuidade do governo da morte e perder uma janela de oportunidade para consolidar a única saída positiva à classe trabalhadora, aos pobres da cidade e do campo: asfaltar o caminho para um novo governo democrático e popular, disposto a aplicar um programa contra o neofascismo e o neoliberalismo, de reconstrução da democracia e da soberania nacional”.

Celebrando as manifestações, Altman disse que teria sido um erro adiar ir às ruas, mesmo com os riscos, sendo agora a hora de se aproveitar da “vulnerabilidade dos inimigos” para ir à ofensiva, antes de que o bolsonarismo possa se recuperar.

Para jornalista, mobilização popular contra Bolsonaro e frente progressista podem formar maioria vitoriosa contra direita

Reprodução

Na avaliação de Altman, há uma polarização entre o neofascismo e o campo progressista, protagonizado pelo PT

“Como em uma luta de boxe, ataca-se o adversário quando ele está mais frágil, jamais se deve dar a chance de que ele recupere o equilíbrio e as condições de combate”, disse. 

Frente ampla ou frente de esquerda?

Mas, então, qual seria a melhor forma de exercer essa ofensiva? Com frente ampla ou frente de esquerda? O atual cenário favorece a construção de alianças, na visão de Altman, que defendeu uma frente progressista.

“Isso não significa excluir acordos e compromissos com lideranças ou setores de fora do campo popular, mas fazê-los a partir de uma clara hegemonia de esquerda e a partir de um objetivo límpido: derrubar o governo Bolsonaro. Não se trata de a esquerda ir ao centro, do PT ir ao centro, mas de estabelecer uma dinâmica onde frações do chamado ‘centro’ sejam atraídas às bandeiras de esquerda ou obrigadas a caminhar nessa direção, para não ficarem a mercê de Bolsonaro e se enterrar de vez na opinião pública”, justificou. 

O jornalista rejeitou a possibilidade de abrandamentos programáticos para atrair ditos setores, “separando a luta contra o bolsonarismo do combate ao neoliberalismo”. Ele acredita, inclusive, que esses argumentos valem também para a tática eleitoral.

“Formar uma coalizão de esquerda – cujo arco de alianças incluiria o PT, o PSOL, o PCdoB e o PSB, além de setores progressistas descolados de outras agremiações – sob um claro programa anti-sistema, de oposição ao neofascismo, ao neoliberalismo e ao imperialismo, tem potencial de impulsionar uma tremenda mobilização social, colada à campanha contra Bolsonaro já em curso, capaz de consolidar Lula no segundo turno e levá-lo à vitória, estigmatizando o bolsonarismo como o inimigo a ser abatido no segundo turno”, defendeu. 

Para além da vitória nas urnas, ele chamou atenção para a necessidade de aproveitar o atual momento político para se ter governabilidade social, no caso de triunfo, “que possam pressionar as instituições e criar maiorias em favor de reformas estruturais, absolutamente indispensáveis para retirar o país da crise”.

Altman listou a revogação da emenda do teto de gastos, da “regra de ouro”, da independência do Banco Central, a recuperação da Petrobrás e a realização de uma reforma tributária como medidas prioritárias de um novo governo de esquerda, que só terá força para realizá-las com apoio popular.

“Também se revela essencial a tarefa decisiva da reforma do Estado, mudando o sistema político-eleitoral, liquidando a tutela militar e democratizando o sistema de justiça. Esse conjunto de medidas depende da abertura de um novo processo constituinte, cujas possibilidades recaem sobre uma articulação adequada entre o governo popular e sua base social, a ser construída durante as lutas presentes e o processo eleitoral”, agregou. 

E concluiu: “O país está arrebentado, no pior período de sua história. O clima de exaustão e indignação também chega aos setores médios, que se radicalizam e estão dispostos a ouvir o PT e a frente de esquerda. Temos diante de nós a possibilidade de uma inversão significativa na correlação de forças, disparando uma ofensiva inédita do campo democrático e popular. Os riscos são grandes, a crise é muito profunda, mas são nessas horas que os povos e suas vanguardas fazem história”.